segunda-feira, 16 de agosto de 2021

V.056.Voltar atrás - Andréa Borba Pinheiro


O que irei fazer, não vai, nada mudar,
Embora eu queira contigo estar,
Sei que não iria adiantar,
Pois você não irá mais me amar.
Depois de jogar tudo fora,
Por motivos que nem eu entendo,
Eu volto agora,
Para a sua desgraça... ou contentamento?
Depois de várias viagens,
Depois de várias bocas beijar,
Depois de registrar muitas imagens,
Sem, em nenhuma delas, seu rosto encontrar...
Eu volto, mas não para ficar...
Só para dizer, que jamais irei esquecer,
O que passamos juntos,
A história d'eu e você.
Ninguém nunca me amou como você,
Ninguém nunca te amou como eu,
Mas agora, isso tudo virou passado,
Lembrarei sempre dos nossos momentos bons, e de como doeu...
Doeu dizer "não",
E pôr um ponto final em um amor sem nenhuma vírgula.
Acho que fomos intensos demais...
Acho que nos entregamos demais...
Mesmo, esse sendo o certo,
O mundo é cruel com quem ama,
O mundo não aceita pureza,
O mundo está acima de qualquer certeza.
Destrói nossos sonhos...
E abala amores verdadeiros...
E não há quem consiga vencer isso,
Nem os melhores guerreiros.
Ainda te amo,
E nunca deixei de amar,
E sei, que por muito tempo, eu ainda hei de chorar,
Mas agora... não posso mais voltar...

V.054.Vidas infinitas - Andréa Borba Pinheiro


Ultimamente,
Ando simplesmente,
Chorando repentinamente,
Por um amor não presente.
Eu não te quero por perto.
Quero muito mais que isso.
Quero poder te proteger todos os dias.
Quero que nosso amor seja algo certo.
Não quero "talvez"... nem "quem sabe"...
Não quero morrer todos os dias por você.
Não é uma maneira digna de usar as vidas que me couberam.
Pois o amor não mata... pelo contrário, o amor ressuscita.
Você sangra por mim e chora por mim.
Eu não sei viver assim.
Machucando, mesmo que sem querer,
A pessoa que me motiva a viver.
Minha vontade é correr,
Para longe de onde estou...
Para perto de você...
Mas adiantaria?
Diga-me, adiantaria?
Morrer internamente todo o dia?
Correr sem te alcançar todo o dia?
Viver sem te ter a toda a eternidade?
O que eu sempre quis,
Era ser tudo que você precisa,
E talvez eu até seja.
Mas onde está você quando eu tento demonstrar?
Onde está o seu amor?
Onde está o seu carinho?
Onde está o seu rosto?
Os seus lábios e o seu corpo?
Eu vou embora.
Pois já está na hora de viver.

V.055.Voce - Andréa Borba Pinheiro


Me perdi ao ver seus olhos
e, não me esforcei para escapar.
Se tentasse, haveria amor de todos os lados
e, eu ficaria sozinho, a chorar...
Fiz de tudo, para poder te beijar,
e quando enfim consegui,
não pude controlar,
admito que derreti...
Que tortura tua boca,
sempre provocando-me, sem perdão,
e, se eu tentasse fugir dela,
morreria, tamanha a tentação!
Quero teu amor, até a última gota,
seu carinho, atenção, sem pudor,
e, nunca, jamais perder-te,
se Deus permitir, se assim for...

V.053.Vida - Alexandre Bairos de Medeiros


Amar-te
Arte em toda parte
Olhar e ver parte das partes do corpo
Etéreo e sutil, firme e forte e eterno
Linda.

Sentes o que sinto? Não minto...
Grito a Verdade que sou
Miniparte da Verdade,
Arte verdadeira.

Doar o que sentes
Sentir o que vives
Viver para amar
Ver-te viver em toda parte.

Inspirar, respirar luz emergente
Asas abertas, parte de ti
Batem leves, ultraleves espirituais
Como palavras; sons ao vento
Música real de dentro para fora e para dentro.

Compartilhar...
Compreender...
Pacificar em todo lugar, tudo.
A todo tempo,
A si mesmo. Harmonizar-se

Viver o coletivo com unicidade
Sem perda de individualidade
Amar sem alarde
A arte de viver em arte
Jamais estagnando
Pelo caminho não linear
Que ao fim
Não tem fim...

V.052.Vaíbora - Almeida Garret


Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

V.051.Vestígios divinos - Alberto de Oliveira


(Na Serra de Marumbi)
Houve deuses aqui, se não me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ciúme insano.
Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda há uns restos da forja de Vulcano.
Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.
Os convivas pagãos ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.

V.050.Versos narciso


Escreveria
pausadamente sobre a pequena e
dolorosa ira que sinto por minha
doce pessoa

de forma calada e fria um
manifesto de repúdio a específicas
atitudes minhas

ora em riso, ora em milágrimas a
pesada saudade das certezas
não vividas

desesperadamente sobre remar
contra o rio da vida e reconstruir
orações malditas

E sofreria.

V.049.Velho olhando o mar - Affonso Romano Sant'anna


Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância.
O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante.
A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa.
No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado.
Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança?
Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens.
Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana.
Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar.
Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar.
Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon.
Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante.
Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá.

V.048.Velha fábula em bossa nova - Alexandre O'Neill


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
(- Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)

V.047.Vaso Grego - Alberto de oliveira


Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

V.046.Vaso chinês - Alberto de Oliveira


Estranho mimo aquele vaso! Vi-o.
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;
Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

V.045.Vagabundo - Alvares de Azevedo


Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão adoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas carvernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz...Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismando
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à nossa senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.

V.044.Vaga Idéia e o Sentimento - Alexandre Baros de Medeiros

Toco terra, escuto canto Passos teus, puro encanto Bravos e livres, avante! Ave! Colibri amante! Teus braços abertos Meus sonhos; desperto Me banhas; palavras. Teus traços tão certos Meus sons; experto Me ganhas, me lavras. Fala tua me cala; calado. Calada nua falas; Alado. Espelho da rua. Sã, te vejo No colo da Lua. Pão, o beijo.

V.043.Vácuo - Adelino Fontoura


Não sei se pode haver padecimento
Mais profundo, mais íntimo e que tanto
Nos ponha na alma a dor que gera o pranto,
Do que um longo e tristonho isolamento.
Não ter um bem sequer no pensamento,
Nem o calor de um lar, nem o encanto
De um amor de mulher suave e santo,
É viver sem nenhum contentamento.
Bem sei que é bom sofrer, e me parece
Que esta vida sem dor nada seria,
E que é por isso até que se padece.
Mas esta solidão contínua e fria
Chega a ser tão cruel, que a não merece
Um coração que a dor mereceria.

U.030.União - Angela Bretas


Chegar e seguir,
Seguir cantando...
Nós e a multidão,
em direção ao sol que nos
ensina a ser mais cristalinos...
Achando na vida uma fé nova,
E no coração um amor que reparte e cresce...
Cada um no seu lugar, na sua vez...
Conscientes de que a união é possivel...
E que para isto o que nos basta é...
Derramar a luz no instante certo...
É a saudade que dói mas vale a pena...
É valorizar o que é conquistado..
É trabalhar melhor para que o chão floresça mais...
É saber apreciar a beleza da natureza em cada amanhecer...
É chorar com os que sofrem,
para que nossa alma se purifique com a dor...
É pedir perdão pelos erros,
e reconhecer nossas faltas...
É sorrir para a vida,
na certeza de que fomos escolhidos para nossa missão...
É transmitir a paz,
através de nossos gestos, palavras e atos...
É sair em busca de nossos sonhos..
É respeitar os limites,
e traçar metas para nossos objetivos...
É se unir ao mundo,
aos homens, que foram feitos para estarem juntos...
Porque só juntos,
saberão participar da festa do amor que é a vida.

U.029.Uma foto do Natal - Almandrade


No ar
a coreografia
de uma flauta
antigas velas
ainda acesas
velhas ceias
em preto e branco
esperando
a madrugada
e a festa...
O natal se arrasta
Lentamente.

U.028.Um sítio para minha pequena - Ana Paula Pedro


Um sítio florido
que seja perto
céu claro
sonhos são copa de árvore
raízes fincadas
sólidas
tardes da velhice
chá de pêssego
rede na varanda
cercado branco
viola caipira, flauta e violão
amanhece
cheiro de café
manteiga derretida no pão
geléias, amoras, damasco
cachorros, pássaros, gatos
tartaruga e peixes cintilantes
de repente até uma vaca
bezerro
ninguém gosta de ser só
xale sobre os ombros
lareira
memória
rugas, dragão, flores e furos
corpos que ainda se amam
dois pássaros azuis se aproximam
quartos alguns
é preciso ter família sempre perto
bons amigos já conhecem Sebastiana
sabem abrir a porteira
fumo na palha do milho
orquídeas do Itamar
é preciso ter fartura sobre a mesa
reivindico um pomar
vinho do porto se queres ser Hilda
papel e tinta
com que escrevo o amanhã.

U.027.Um Invejado - Afonso Celso


Que bonito, elegante e pequeno carro, tirado por minúsculos cavalos de raça, estacionava à porta do palacete Apolinário, naquela magnífica tarde de verão!...
Era um veículo de criança, mas de criança milionária, afeita aos requintes do luxo - um brinquedo caríssimo, ao mesmo tempo suntuoso e catita, que fazia cismar em principescas fantasias.
Toda a vizinhança acorrera às janelas e portas para o admirar.
Em torno à diminuta e primorosa caleça, grupos de curiosos se haviam formado. Garotos e moleques tinham-se aproximado respeitosamente dos animais, examinando as menores particularidades dos arreios, com pasmadas interjeições.
Pulavam comentários. E o cocheiro inglês, cuidadosamente escanhoado, o chicote da destra enluvada, as rédeas firmes na esquerda, permanecia impassível, sob a libré de aparato, em atitude hierática, circunvagando lentamente olhares de desdém.
- É um presente de anos feito pelo Comendador Apolinário ao filho, murmurou um dos espectadores.
- Que felizardo o tal Juquinha! acrescentou o segundo. - O pai realiza todos os seus caprichos. Não há menino criado com maior opulência. Que de contos de réis não custaria esta tetéia!...
- Que quer?! - sobreveio terceiro. - Pois se o Comendador não sabe em que gastar os rendimentos.... É um dos fazendeiros mais ricos do Brasil. O Juquinha mesmo já deve possuir não pequena fortuna própria, herdada da mãe.
- Para estes é que serve a vida - tornou amargamente o primeiro. - Uns tudo, outros nada. A Providência ignora a conta de repartir. Quantas famílias não se alimentariam durante anos só com o preço das superfluidades despendidas nesta casa...
E designava o prédio nobre, com vasto jardim ao lado, sito numa das ruas que vão perpendicularmente do Catete à praia do Flamengo.
Este prédio, de vistosa arquitetura, aprumava-se sobranceiro em meio das modestas vivendas do local.
As suas largas janelas, ornadas de lindas cortinas, dominavam os mais altos sobrados adjacentes. Circunspecto porteiro agaloado guardava sempre o amplo vestíbulo. E saíam do interior emanações de cousas preciosas, reflexos de fausto e conforto.
Da extremidade da rua, próxima à residência do Comendador, avistava-se uma nesga da baía.
A fortaleza de Santa Cruz dealbava o fundo, apensa à linha de montanhas, que fechava o horizonte. O Pão de Açúcar derreava-se hirto à entrada da barra. Monótono e constante, ouvia-se o rumor das vagas, espojando-se na areia.
Perpassou um frêmito entre os assistentes. Abrira-se a grade do palacete e no limiar assomara esbelto menino.
Não contaria mais de quatorze anos. Mas que ar de suficiência e superioridade! Dir-se-ia conspícuo personagem, triunfador da vida.
Veste finos trajos, no rigor da moda. Formoso o rosto, cintilante o olhar, desempenado e desenvolvido o corpo.
Detém-se alguns minutos, trocando leves cumprimentos com conhecidos, que embevecidamente o miram.
Salta depois lepidamente no carro, dando ordem rápida ao cocheiro.
- É o Juquinha ... é o Juquinha... como está crescido e arrogante o pimpolho! - sussurra-se em roda.
Os cavalos partem num belo trote, deixando um rastro de embasbacamento.
Afluíra gente a todos os peitoris para ver passar o jovem ricaço, que, uma perna superposta à outra, reclinado em almofadas de seda, onde brilha, bordado a ouro, o seu monograma, lá se vai avante, digno, compenetrado do seu valor.
Breve, a carruagem dobrou a esquina do Catete e desapareceu na direção de Botafogo. Ao cruzar com ela, voltam a cabeça os transeuntes.
Em frente à residência do Juquinha, numa velha casa térrea, duas crianças - uma menina e um rapaz - haviam assistido com especial interesse à cena esboçada.
São os filhos de D. Canuta - viúva de um militar, pobre senhora, que vivia a coser para sustentar a família.
Primogênito o rapaz; chama-se Antenor. Pouco mais novo do que o Juquinha, apresenta em mirrado e macambúzio o que aquele ostenta em viço e expansão.
A irmã tem por nome Enedina. Que cútis, que cabelos, que olhos, que natural distinção física nesta pequena!
É uma aurora de radiante formosura, o embrião de esplêndida mulher.
Seduz principalmente em Enedina angélica expressão de docilidade. Dificilmente saberão seus lábios articular frases de recusa. Pertence à classe desses entes resignados, meigos e passivos, um tanto obtusos, que as vontades fortes dominam completamente e levam, sem relutância, para onde lhes apraz.
E a prole de D. Canuta persiste imóvel. O espetáculo da saída do Juquinha mergulhara-a em êxtase.
Aquela visão de suntuosidade impressionara os dois irmãos tanto mais quanto em apertada economia eles vegetavam. Como em todas as grandes capitais, a magnificência ombreava ali com a carestia e a miséria.
Mas o olhar de Enedina, contemplando o Juquinha, traduzia apenas ingênuo assombro, cândido enlevo diante de deliciosos prodígio - enlevo repassado de simpatia e um quê de ternura.
Não assim o de Antenor. Há no deste a explosão prematura de sentimentos sombrios. Cortam-no relâmpagos de despeitado rancor.
Quando o carro do Juquinha se sumiu - ei-lo que fecha a janela com mão trêmula. Tomba pensativo sobre uma cadeira, soltando dorido suspiro.
Tumultua-lhe no íntimo um misto obscuro de raiva e revolta, cobarde desejo de despojar o Juquinha, substituindo-se a ele, gozando do mundo em lugar dele.
Desbordava a inveja, a terrível inveja, mais cruciante que o ódio ou o ciúme, do seu coração infantil.
E, desde esse instante, nunca mais se alterou tão repulsivo sentimento.
Antenor invejou sempre, sempre, o Juquinha, através das longas e trágicas peripécias em que o destino de ambos e o de Enedina se confundiram.
Porque o fado irônico entrelaçou intimamente a existência do brilhante descendente do comendador Apolinário à da humilde progênie da viúva.
Quem o suspeitaria naquela ocasião?!
No momento em que o Juquinha rolava ufano pela calçada do aristocrático arrabalde, num passeio de mera ostentação, ou para estimular o apetite embotado por adubadas iguarias, D. Canuta, que não tinha criados, à exceção de um pequeno moleque, incumbido dos serviços mais grosseiros da casa, depunha fatigada a costura, exclamando:
- Que estás aí a parafusar, Antenor? ...Vamos... São horas. Varre a sala de jantar, enquanto Enedina põe a mesa e eu vou ver se já ficou pronto o feijão...

U.026.Um adeus português - Alexandre O'Neill


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

U.025.Último Soneto - Alvares de Azevedo


Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!