quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
C.079.Cão - Alexandre O'Neill
Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, cão tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui,
Cão além, e sempre cão.
Cão amarrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia,
Cão estouvado de alegria,
Cão formal de poesia,
Cão-sonêto de ão-ão bem martelado,
Cão moldo de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
C.082.Cismar - Alvares de Azevedo
Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu
Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!
Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?
Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?
Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? No céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuram...
As folhas sussurram:
Amar!
C.080.Consistência devoluta - Almandrade
Mas o que contam estas palavras, selecionadas e organizadas em sólidas sentenças? Entre elas sobrevivem percentagens da incurável harmonia gramatical. Não reconquisto a pretensão inicial e ainda estamos no inicio deste eletro-encefalograma gelatinoso, que não fornece qualquer informação sobre a sanidade do paciente. Prevalecem os episódios invioláveis ao bom senso da comunidade e a suspeita de dissolução das marcas da origem, na teoria cronológica.
A ciência encena enunciados na sala, a arte encena outros nos quartos; Elas falam coisas diferentes. A esquizofrenia joga uma interminável partida de xadrez com a paranóia. Lingüística indefinida. Estrela desorientada girando em torno de si mesma, com velocidade variável, numa galáxia sem centro. Embelezada de recordações: nem do passado nem do presente, simplesmente dramáticas. Pressa intratável de permanecer em estado de tensão. Acorde-me aquele que me encontrar dormindo, pois não gosto de pesadelos e o nada fazer pode ser uma sensação de trabalho.
A solidão tem a rentabilidade de você não ser interrogado.
C.081.Cisnes Brancos - Alphonsus de Guimarães
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da Montanha onde mora a tarde.
Ó cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob asas,
A alma cheia de ladainhas.
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem.
Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.
Foram-se as brancas horas sem rumo,
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.
Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram: - Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!
Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.
C.078.Cheiro de espádua - Alberto de Oliveira
"Quando a valsa acabou, veio à janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.
Eram os ombros, era a espádua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paixão, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!
Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ciúme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.
E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite àquela espádua linda!"
C.077.Captain smart - Afonso Celso
Depois da formosa mulher do dentista americano, era, sem dúvida, o capitão canadense o mais interessante personagem de bordo.
Meses antes, ao que se dizia, naufragara entre as Bermudas o navio que ele comandava.
Perdera-se completamente a carga e sucumbira quase toda a tripulação.
Cabia a Captain Smart não pequena responsabilidade na catástrofe - afirmavam à meia voz passageiros bem informados. E o fitavam rancorosamente de esguelha, quando passava carrancudo e hirto, o eterno cachimbo plantado no matagal dos bigodes ruivos, que lhe interceptavam a boca e se emaranhavam na barba, derramada em catadupa sobre o peito.
O infeliz comandante regressava à pátria, despojado pelo mar dos haveres e da reputação.
Antipatizavam todos com ele no paquete em que viajávamos. Ninguém lhe dirigia a palavra. Chegavam a considerar de mau agouro a sua presença. Se algum acidente desagradável ocorresse durante a derrota, atribuí-lo-iam com certeza à sua nefasta influição.
Penosíssimas deviam ser-lhe as monótonas horas de travessia. Levantado antes do alvorecer; forçado à inação; arredado dos companheiros; sem tomar parte nos jogos e diversões com que estes procuravam matar o tempo; desdenhando livros e jornais - arrastava os intermináveis dias a fumar, enterrado numa cadeira de lona, os pés apoiados à murada, encarando insistentemente as ondas - ou a caminhar pelo convés, de proa a popa, as mãos cruzadas nas costas, carregado o aspecto, no acabrunhamento de quem, ao peso de revoltante injúria, cogita em vão no como se desforçar.
Mas Captain Smart às vezes transfigurava-se.
No alto mar, importa acontecimento de monta o encontrar-se um outro navio.
Sacam-se os binóculos. Cada qual formula as suas observações e conjeturas.
Surdem, de ordinário, vivas discussões.
- É um vapor; um yatch à vela; vai para a Europa; regressa da África; um vaso de guerra; brigue de pesca; alemão; inglês - opina-se com convicão e profusos argumentos.
Vistas privilegiadas dão aqui pormenores. Contestam-nos acolá. E durante largo período concentram-se olhares e atenções na sombra longínqua, que ora cresce e se acentua, apresentando os contornos da embarcação, ora apaga-se e dissolve-se, miragem etérea na linha confinante da água e do céu.
Retina marítima, habituado a perscrutar os meandros da imensidade líquida, Captain Smart parecia adivinhar o barco iminente, ainda invisível para os mais.
A fisionomia expandia-se-lhe então. Apontava, soltando sons guturais, para um trecho perfeitamente unido e límpido da aquática planície. E mais tarde, não raro após longa demora, emergia efetivamente dali, e se aproximava, um lenho errante qualquer.
Enquanto o navio lobrigado se conservava em distância, ou afogado na bruma, dele não despegava os olhos o comandante náufrago. Acompanhava-lhe com solicitude os movimentos; dir-se-ia que lhe estudava cuidadosamente a manobra, absorto, seriamente empenhando no orientação do seu rumo.
Denunciava-se feliz nesse momento. Nos seus olhos ríspidos perpassavam suavizações. Defrontando um dia comigo, que o observava curioso, quase esboçou um sorriso.
À proporção, porém, que o barco se achegava, ia-se-lhe demudando a feição. Sonho querido parecia evolar-se de sua alma, onde entornara claridade fugaz. Ficava mais taciturno do que dantes. Agressivo e procelo o seu ar.
Então, se o tal barco emparelhava com o nosso, ou cruzava o caminho deste, de modo que entre os dois peregrinos das vagas se trocavam sinais, Captain Smart traía mostras de inexplicável agastamento, virava as costas ao primeiro, calcava nervosamente o chapéu sobre a fronte, cerrava as pálpebras e se envolvia em bastas fumaças do cachimbo, aspiradas e expelidas com frenesi.
Naquele coração agreste, estuava evidentemente uma dor misteriosa e cruel, dessas de que se padece e se morre, sem que jamais o próprio paciente as possa bem compreender e explicar.
Despeito? Inveja? Remorso? Esperança? Quem o lograria dizer?!
Evocaria, como um fantasma, a imagem da nave confiada ao seu governo, de que a sua perícia era a alma e a defesa contra as perfídias do pego, nave galharda, cujos membros, por negligência sua talvez, à semelhança de um cadáver espostejado por uma fera, vogavam agora esparsos e despedaçados, à mercê das correntes e dos ventos?
Recearia divisar no tombadilho entrevisto a figura de algum camarada seu, escapo, como ele, ao desastre, e que, reconhecendo-o, o aniquilasse com um gesto de maldição?
Anima-lo-ia, porventura, a ilusão, cedo dissipada, de que tudo não houvesse sido senão um pesadelo horrível e de que o ponto pressentido na fímbria do horizonte se transformasse na embarcação morta, milagrosamente ressuscitada?
Revoltar-se-ia contra a iniqüidade inflexível do oceano, ao aspecto de suas novas vítimas possíveis?
Comprazia-se-me o imaginar nestas presunções. Do fundo de meu ser subia uma corrente de dó para com o rebarbativo comandante.
Quisera conhecer e mitigar a sua mágoa íntima, lenir com a caridade da compaixão as lágrimas de fogo que percebia brotarem-lhe n'alma sem o refrigério de vingarem extravasar-lhe pelos olhos ressequidos.
Captain Smart teve, suponho, a intuição dos meus sentimentos comiseradores.
No dia em que desembarcou, compreendi que hesitava em me falar e agradecer. Não se despediu, entretanto, de mim, como de ninguém. Lançou-me apenas um rápido olhar de humilde reconhecimento, enquanto no seu torvo aspecto relampejava amistosa expressão.
Jamais trocamos palavra. Separamo-nos desconhecidos, indiferentes, tomando veredas opostas, à lei de heterogêneos destinos. Nossas existências coincidiram um segundo, em interseção fortuita, e passaram, no turbilhão infinito da vida. Com quantas tragédias não topamos assim quotidianamente.? Nada resultará para nós ou para elas do respectivo atrito? Significarão secretas afinidades os espontâneos e súbitos movimentos de um espírito na direção de outro? Reminiscências de relações anteriores à nossa atual organização corpórea? Pactos para ulteriores existências?!
Nunca mais, provavelmente, verei Captain Smart, neste planeta. Esvaiu-se decerto a minha figura na sua memória, como em mim se extinguiria a dele se não me viesse a fantasia, numa noite triste, de fixar no meu livro de notas alguns traços do seu perfil.
Mas faz-me bem a lembrança do seu agradecido olhar.
Acabo de sentir, na consciência, ao recordá-lo, uma espécie de consoladora satisfação semelhante à de quem houvesse piedosamente acendido em bravio e perigoso rochedo, batido de vagalhões desesperados, a luzinha de um pequenino farol.
C.075.Confluência - Affonso Romano Santana
Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:no corpo teu, o meu desejo
- é ancorada errância.
C.076.Conjugação - Affonso Romano Santana
Eu falo
tu ouves
ele cala.
Eu procuro
tu indagas
ele esconde.
Eu planto
tu adubas
ele colhe.
Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.
Eu defendo
tu combates
ele entrega.
Eu canto
tu calas
ele vaia.
Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.
C.074.Como amo meu país - Affonso Romano Santana
Fragmento 1
Com aquela melancolia que ao entardecer
em Teresina
eu olhava do outro lado do sujo rio
a vilazinha de Timon,
com a fúria da multidão endomingada martelando
caranguejos entre farofa e cerveja
numa praia em Aracaju,
com a penintência de quem amssa o barro
que depois vira anjo nas mãos das mulheres de
Tracunhaém,com a solidez marinha do jangadeiro
em Cabedelo
empurrando a esperança mar adentro
e a repartir a espinha do dia morto sobre a areia,
com a cadência magoada do vaqueiro tangido nos
seus cornos a recolher o sal e a solidão
nos currais de Minas, em Curvelo,assim
eu amo este país que me desama.
Fragmento 2
Deveria deixar de amá-lo como sub ser vivo
e amá-lo ostensivo
num tropel de bandeiras
num estádio de urros
e canções guerreiras?
Amo este país
como o hortelão cuida e corta
a praga de sua horta
e parte com seu cesto a bater de porta em
porta
com a resignação do operário
abraçado à neblina da marmita,
quando larga os panos e a mulher na madrugada
e sai do café quente de sua casa
e desce nos vagões de medo ao fundo da espúria
mina.
Fragmento 3
Deve haver quem ame o seu país
como quem escarra em casa própria,
coça o saco na calçada,
arrota e palita os dentes,
entorna cachaça ao santo
suando a alma e o corpo
no ébrio espasmo do gol.
Uns amam seu país
como o mendigo o seu muro,
como o agiota o seu juro.Outros
como o domador às suas feras:
- distância e precisão -
para evitar que o povo
- lhe arranque o poder da mão.
Outros amam seu país
como o carcereiro a prisão,
o lenhador a floresta
e o carvoeiro o carvão.
Há quem o ame no palco e pista
sem máscaras, expondo as vísceras,
e há quem o ame sonolento
num camarote ou nas frisas
enquanto o catnro, o cavalo e o jogador
se atropelam numa ópera surrealista.
Há quem o ame com o cáutico e sádico amor
com que o gigolô deprava e surra a cansada
mulher das madrugadas ou quem o ame
como a própria mulher
furando seus cartões ao som do sexo
aviltado no metal da orquestra.
Fragmento 4
Eu, quando posso,
ponho minha alma num carro de bebê
e vou levá-la ao sol da praça. Praça
que ninguém mais conheceu
que Felipe dos Santos atado
à cauda do cavalo, cimentando o chão
com o repasto de seu sangue.
Fora isto
com a passividade estrangulada do índio
carregando as armas do invasor
tenho a ingenuidade e o desperdiçado amor
dos Kreen-Akarores em suas matas
quando viram os berloques e espelhos
trazidos
pelos irmãos Vilas-Boas
do outro lado do rio,
Desde então
eu amo este país
- como a prostituta ama a estrada.
C.073.Cilada verbal - Affonso Romano Santana
Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
- envenenada.Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
- na sintaxe da emboscada
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
C.072.Cena Familiar - Affonso Romano Santana
Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha
desenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa
nas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade.
C.069.Corridinho - Adélia Prado
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
se descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
C.071.Catando os cacos do caos - Affonso Romano Santana
Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fimNão é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.
C.070.Carta aos Mortos - Affonso Romano Santana
Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.
C.067.Casamento - Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
C.068.Com licença poética - Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
esta espécia ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, funso reinos
dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
C.065.Cucu - Adailton Medeiros
(No maranhão: faz tanto tempo
- E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando -
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( - Colorida?)
- a vela avezinha
que presente
guardo
na memória - hoje descontente
C.066.Cantiga dos Pastores - Adélia Prado
À meia noite no pasto,
guardando nossas vaquinhas,
um grande clarão no céu
guiou-nos a esta lapinha.
Achamos este Menino
entre Maria e José,
um menino tão formoso,
precisa dizer quem é?
Seu nome santo é Jesus,
Filho de Deus muito amado,
em sua caminha de cocho
dormia bem sossegado.
Adoramos o Menino
nascido em tanta pobreza
e lhe oferecemos presentes
de nossa pobre riqueza:
a nossa manta de pele,
o nosso gorro de lã,
nossa faquinha amolada,
o nosso chá de hortelã.
Os anjos cantavam hinos
cheios de vivas e améns.
A alegria era tão grande
e nós cantamos também:
Que noite bonita é esta
em que a vida fica mansa,
em que tudo vira festa
e o mundo inteiro descansa?
Esta é uma noite encantada,
nunca assim aconteceu,
os galos todos saudando:
O Menino Jesus nasceu!
C.064.Chegaremos ao fim - Abíli Terra Júnior
Chegaremos ao fim
ABILIO TERRA JUNIOR
Entre flores e espinhos
objetos daninhos
entre a faca e a alpercata
que dilema escabroso
na parede do moinho
a lagarta enfeitada
o riacho serve 'a mata
dia e noite não reclama
o roteiro dá a dica
e o artista se esmera
mãe e filho a mesma tripa
que um dia se rompeu
tantos galhos do alfaiate
sua mulher surpreende
mesa boa é aquela
que no fim do dia nos espera
a língua é a da massa
e o linguarudo trapaça
é pelo caminho do meio
que chegaremos ao fim
C.063.Como quem pede uma esmola - Abgar Renault
Preciso de uma palavra.
Em que dia ou em que noite
estará essa, que almejo,
ideal palavra insabida,
a única, a exclusiva, a só?
Dela me sinto exilado
todas as horas por junto,
com minha face, meu punho,
meu sangue, meu lírio de água.
Soletro-me em tantas letras,
e encontrá-la deve ser
encontrar a criança e o berço,
a unidade, a exatidão,
o prado aberto na rua,
a rua galgando a estrela.
Preciso de uma palavra,
uma só palavra rogo,
como quem pede uma esmola.
Em florestas de palavras
os calados pés caminham,
as caladas mãos perquirem,
os olhos indagam firmes.
Em que parábola cruel,
em que ciência, em que planeta,
em que fronte tão hermética,
em que silêncio fechada
estará viajando agora
- mariposa de ouro azul -
a palavra que desejo?
Lâmina sexo cristal
fulcro pântano convés
voraginoso fluvial
Antígona circunflexa
catastrófico crepúsculo
ênula ventre rosal
sibila farol maré
desesperadoramente
nenhuma será nem é
aquela do meu anseio.
Como será, quando vier,
a palavra entrepensada,
necessária e suficiente
para a minha construção
de lápis, papel e vento?
Dura, espessa, veludosa
ou fina, límpida, nítida?
Asa tênue de libélula
ou maciça e carregada
de algum plúmbeo conteúdo?
Distante, insone e cativo,
debaixo da chuva abstrata,
eu me planto decisivo
no tráfego confluente,
aéreo, terrestre, marítimo,
e espero que desembarque,
triste e casta como um peixe
ou ardendo em carne e verbo,
e pouse na minha mão
a áurea moeda dissilábica,
a noiva desconhecida,
a coroa imperecível:
a palavra que não tenho.
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