sexta-feira, 13 de agosto de 2021
Q.054.Quintino Bocaiúva - Adelino Fontoura
Uma vez escrito este nome, que é um símbolo, porque é uma síntese, sinto-me fortemente impelido pelo irresistível e poderoso impulso da verdade a adicionar-lhe, como particularidade complementar, esta frase: um homem de bem.
O leitor fluminense deve ter encontrado provavelmente na rua, algumas vezes, um indivíduo magro, franzino, de fisionomia melancólica e triste, rosto aquilino e agudo, fronte alta e escampada, a cabeça resolutamente levantada, passos firmes e compassados, caminhando sempre retilineamente como quem marcha para um destino; concentrado, pensativo, entregue obstinadamente aos profundos encantos da meditação. Pois bem: esse perfil cavalheiresco e leal, essa criatura romântica e silenciosa é Quintino Bocaiúva. Habituei-me, desde muito criança, a admirar e a respeitar este nome. E esse respeito e essa admiração que não eram, a esse tempo, mais do que a expressão convicta do meu entusiasmo pelo talento, são hoje, no meu espírito, a ratificação deste mesmo sentimento, mais largamente desenvolvido e mais solidamente baseado.
Não sou da intimidade de Quintino, e, pessoalmente, apenas o conheço de vista. Quanto ao homem público, porém, debaixo do seu duplo aspecto de jornalista e de político; quanto à personalidade distintamente acentuada do lutador visto aí, no duro e áspero conflito da vida pública, Quintino Bocaiúva é simplesmente o tipo exemplar da retidão, afrontando, cheio de impassível serenidade, todos os trabalhos e todo os obstáculos; tem sentido, como poucos, o contato áspero e inclemente das grandes contrariedades.
Entretanto, no meio desta peleja acerba e desfibrante, ele tem conservado inalteravelmente a atitude calma, a altivez intransigente de um forte, sem ter sucumbido, sem ter resvalado convenientemente, como tantos outros, para a serenidade burguesa e pacata, que resulta de um aviltamento cauteloso ou de uma apostasia oportuna. Na sociedade brasileira contemporânea, este fato, por si só, constituiu a mais austera lição e o mais brilhante exemplo. Quintino Bocaiúva, apesar da firmeza catoniana do seu temperamento, não é um homem que impressione pelo seu aspecto severo e duro. Ao contrário: ele impressiona pela singeleza e pela bondade, que derramam na sua fisionomia os tons brandos, docilmente expressivos de um vago misticismo ideal.
Cativam-me extraordinariamente as anedotas biográficas dos grandes homens, as originalidades e os "tiques" dos espíritos superiores. Por isso, quando pela observação e pelo estudo compreendi que Quintino era um original, admirei-o com mais ardor e com mais entusiasmo. E, para dar uma idéia exata e precisa da originalidade de Quintino, já que aludi a isso, eu recordarei que ele nunca foi ministro, nem deputado, nem vereador, nem membro do Instituto Histórico.
Não tem passado de um jornalista, o que, na opinião pitoresca e fútil do sr. Martinho Campos, é uma ocupação reles, indigna, prosaica, chata, de mau gosto. Felizmente - e isso consola - este ministro, eruditamente arrancado pelo Imperador das profundezas da paleontologia pátria, sabe experimentalmente, porque tem sentido que o redator do "Globo" no seu posto de honra é uma força tanto mais respeitável e temida, quanto é robustecida fortemente pelo sentimento de honra, da justiça e do dever.
Quintino é um homem singularmente distraído. Vive constantemente recolhido, como um eremita, dentro do seu "eu". Uma ocasião, - e este episódio é bastante expressivo - em um bonde de Botafogo, iam sentados no mesmo banco, na frente, juntos, em honesta camaradagem: Gusmão Lobo, Joaquim Serra e Quintino Bocaiúva. Em um dos bancos posteriores do veículo ia igualmente sentado um rapaz, cuja descrição fisionômica, os raros que porventura me conhecem dispensam, perfeitamente: era eu.
Levava os olhos sofregamente cravados naquela trípode de titãs, contemplando, cheio de interesse e de curiosidade, todos os movimentos particulares de cada um. A conversa tinha por objeto, cuido, um fato político da atualidade. Gusmão Lobo, conceituoso e grave, visivelmente interessado pelo assunto, argumentava com aquela fluência corretamente acadêmica que todos lhe reconhecem.
Joaquim Serra, o ridente e espirituoso folhetinista, com as cintilações pirotécnicas da sua "verve", ponteava a questão de pequenas alfinetadas incisivas e hilariantes. Quintino, entretanto, sentado entre os dois, não dizia palavra. Ia mudo, calado, numa profunda abstração mental, afagando maquinalmente a barba, com o olhar esquecido no espaço. O seu cacoete particular, aquele movimento rápido do queixo, fazia pensar que ele estava ruminando silenciosamente alguma idéia.
Quintino costuma ir às vezes ao bilhar, dar desenvolvimento aos músculos. Por muito que ele carambole, estou convictamente persuadido que Faure Nocolay podia dar-lhe, em uma partida de cem - noventa e nove de partido. No jornalismo, porém, ele joga taco a taco com os mais notáveis colegas. E nunca perde.
Q.053.Quero voce - Andréa Borba Pinheiro
Quero ser quem você precisa
Quero fazer tudo certo
Quero te dar alegrias
Quero ser seu.
Não quero ver você chorar
Não quero te fazer sofrer
Não quero nem pensar
Que posso te perder.
Quero pedir desculpas
Quero beijar
Quero abraçar
Quero te amar.
Não quero te querer
Sem poder te ter.
Pois isso não é viver.
Quero mais abrir os braços,
e sentir a brisa em meu rosto,
sorrir e pensar
em você.
T.042.Terceira dor - Alphonsus de Guimarães
É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.
As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.
As virgens de Israel as negras comas
Aromalizam com os ungüentos brancos
Dos nigromantes de mortais aromas...
Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.
Q.052.Queria - Angela Bretas
Queria poder neste momento
Sentir seu cheiro
Seu gosto,
Seu corpo...
Queria fazer de você um brinquedo
Sem pressa
Sem receio
De que de mim partirias...
Queria ouvir sua voz
Me chamando
Falando e sussurando
Segredos que só
Nós dois sabemos...
Queria esquecer do mundo
Por um momento apenas
Ser só você e eu
Sem ninguém mais além de nós...
Queria lhe dizer o quanto a saudade
Dói em meu peito
E que a realidade
De sentir sua falta me incomoda...
Queria ser o tempo
Parar de contar
Os segundos, minutos
Que estou longe de você...
Queria poder olhar em seus olhos
E ver o brilho
Que só eles possuem...
Queria ver seu sorriso
E imaginar que sua felicidade
Se relaciona comigo...
Queria ter a certeza
Que em seu pensamento
Há um espaço reservado
Para mim...
Queria lhe abraçar bem forte
E sentir sua força
Tomar conta de meu ser...
Queria ser tua
Só tua...
Sem culpa, sem medo
Simplesmente tua...
Q.051.Que país é este? Para Raymundo Faoro - Affonso Romano de Sant'ana
Fragmento 1
Uma coisa é um país
outra um ajuntamento. Uma coisa é um país,
outra um regimento. Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
- e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um
"futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
- discursando rios e pretensão. Uma coisa é um país,
outra um fingimento. Uma coisa é um país,
outra um monumento. Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca de especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa
visão do paraíso?
que no impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes
reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
- nos trai
Fragmento 2
Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.
Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.
Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos, semeamos promessa e vento
com tempestades na boca, sonhamos a paz na Suécia
com suiças militares, vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia, senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos, bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama, a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama, cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder, pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas
Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais.
Este é o país do descontínuo
onde nada congemina, e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.
Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina, o salário que nos come
e nossa sede canina, a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína, nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina, e nesse mundo às avessas
- a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.
Fragmento 3
Sei que há outras pátrias. Mas
mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.
Esta é a rua em que brinquei,
a bola de meia que chutei,
a cabra-cega que encontrei,
o passa-anel que repassei,
a carniça que pulei.
Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
- ainda morrerei.
Fragmento 4
Minha geração se fez de terços e rosários:
- um terço se exilou
- um terço se fuzilou
- um terço desesperoue nessa missa enganosa
- houve sangue e desamor. Por isto,
canto-o-chão mais áspero e cato-me
ao nível da emoção.Caí de quatro
animal sem compaixão.
Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.
Uma coisa é um país,
outra é abatida cerviz.
Uma coisa é um país,
outra esses duros perfis.
Deveria eu catar os que sobraram
os que se arrependeram,
os que sobreviveram em suas tocas
e num seminário de erradios ratos
suplicar:
- expliquem-me a mim
e ao meu país?
Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um
ainda preso ao dezenove
como um tonto guarani
e aldeado vacum. Sei que daqui a pouco
não haverá mais país.País:
loucura de quantos generais a cavalo
escalpelando índios nos murais,
queimando caravelas e livros
- nas fogueiras e cais,
homens gordos melosos sorrisos comensais
politicando subúrbios e arando votos
e benesses nos palanques oficiais.
Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio. Insisto?
Deve ser um mal do século
- se não for um mal de vista. Já pensei:
- é erro meu. Não nasci no
tempo certo.
Em vez de um poeta crente
sou um profeta ateu.
Em vez da epopéia nobre,
os de meu tempo me legam
como tema
- a farsa
e o amargo riso plebeu.
Fragmento 5
Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto
e sinto muito o que falo
- pois morro sempre que calo.
Minha geração se fez de lições mal-aprendidas
- e classes despreparadas
Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.
Tínhamos a "história" ao nosso lado. Muitos
maduravam um rubro outubro
outros iam ardendo um torpe agosto.
Mas nem sempre ao verde abril
se segue a flor de maio.
Às vezes se segue o fosso
- e o roer do magro osso.
E o que era revolução outrora
agora pasas à convulsão inglória.
E enquanto ardíamos a derrota como escória
e os vencedores nos palácios espocavam seus
champanhas sobre a aurora
o reprovado aluno aprendia
com quantos paus se faz a derrisória estória.
Convertidos em alvos e presa da real calçada
abriu-se embandeirado
um festival de caça aos pombos
- enquanto raiava sangüínea e fresca a
madrugada.Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram
ao luto.Vi-os lubrificando suas armas
e os vi tombados pelas ruas e grutas.
Vi-os arrebatando louros e mulheres
e serem sepultados às ocultas.
Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
e por mais que os advertisse do inevitável final
não pude lhes poupar o sangue e o ritual.
Hoje
os que sobraram vivem em escuras
e européias alamedas, em subterrâneos
de saudade, aspurando a um chão-de-estrelas,
plangendo um violão com seu violado
desejo
a colher flores em suecos cemitérios.
Talvez
todo o país seja apenas um ajuntamento
e o conseqüente aviltamento
- e uma insolvente cicatriz.
Mas este é o que me deram,
e este é o que eu lamento,
e é neste que espero
- livrar-me do meu tormento.
Meu problema, parece, é mesmo de princípio:
- do prazer e da realidade
- que eu pensava
com o tempo resolver
- mas só agrava com a idade.
Há quem se ajuste
engolindo seu fel com mel.
Eu escrevo o desajuste
vomitando no papel.
Fragmento 6
Mas este é um povo bom
me pedem que repita
como um monge cenobita
enquanto me dão porrada
e me vigiam a escrita.
Sim. Este é um povo bom. Mas isto também
diziam os faraós
enquanto amassavam o barro da carne escrava.
Isso digo toda noite
enquanto me assaltam a casa,
isso digo
aos montes em desalento
enquanto recolho meu sermão ao vento.
Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem
perversa e una?
Desconfio muito do povo. O povo, com razão,
- desconfia muito de mim.
Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
mas ele não me entende
- nem eu posso convertê-lo.
A menos que suba estádios, antenas, montanhas
e com três mentiras eternas
o seduza para além da ordem moral.
Quando cruzamos pelas ruas
não vejo nenhum carinho ou especial predileção
nos seus olhos.
Há antes incômoda suspeita.
Agarro documentos,
embrulhos, família
a prevenir mal-entendidos sangrentos.
Daí vejo as manchetes: - o poeta que matou o povo
- o povo que só/çobrou ao poeta
- (ou o poeta apesar do povo?)
- Eles não vão te perdoar
- me adverte o exegeta.
Mas como um país não é a soma de rios, leis,
nomes de ruas, questionários e geladeiras,
e a cidade do interior não é apenas gás neon,
quermesse e fonte luminosa,
uma mulher também não é só capa de revista,
bundas e peitos fingindo que é coisa nossa.
Povo
também são os falsários
e não apenas os operários,
povo
também são os sifilíticos
não só atletas e políticos,
povo
são as bichas, putas e artistas
e não só os escoteiros
e heróis de falsas lutas,
são as costureiras e dondocas
e os carcereiros
e os que estão nos eitos e docas.
Assim como uma religião não se faz só de missas
na matriz,
mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
a escravidão
para resgatar os ferros de seus ombros
requer
poetas negros que refaçam seus palmares e
quilombos.
Um país não pode ser só a soma
de censuras redondas e quilômetros
quadrados de aventura, e o povo
não é nada novo
- é um ovo
que ora gera e degenera
que pode ser coisa viva
- ou ave tortadepende de quem o põe
- ou quem o gala.
Fragmento 7
Percebo
que não sou um poeta brasileiro. Sequer
um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,
casas velhas, barroquismos nos meus versos.
Embora meu pai viesse de Ouro Preto com
bandas de música polícia militar casos de
assombração e uma calma milenar,
embora minha mãe fosse imigrando
hortaliças protestantes tecendo filhos
nas fábricas e amassando a gé e o pão,
olhos Minas com um amor
distante, como se eu, e não minha mulher
- fosse um poeta etíope.
Fácil não era apenas ao tempo das arcádias
entre cupidos e sanfoninhas,
fácil também era ao tempo dos partidos:
- o poeta sabia "história"
vivia em sua "célula",
o povo era seu hobby e profissão,
o povo era seu cristo e salvação.
O povo, no entando, é o cão
e o patrão
- o lobo. Ambos são povo.
E o povo sendo ambíguo
é o seu próprio cão e lobo.
Uma coisa é o povo, outra a fome.
Se chamais povo à malta de famintos,
se chamais povo à marcha regular das armas,
se chamais povo aos urros e silvos no esporte
popularentão mais amo uma manada de búfalos em
Marajó e diferença já não há
entre as formigas que devastam minha horta
e as hordas de gafanhoto de 1948
- que em carnaval de fome
o próprio povo celebrou.Povo
não pode ser sempre o coletivo de fome.
Povo
não pode ser um séquito sem nome.
Povo
não pode ser o diminutivo de homem.
O povo, aliás,
deve estar cansado desse nome,
embora seu instinto o leve à agressão
e embora
o aumentativo de fome
possa ser
revolução
N.056.Namoro Virtual - Andréa Borba Pinheiro
Quem é que entende?
Um namoro virtual...
Coisa meio irreal,
que vive só dentro da nossa mente?
Não...não só a linha telefônica os une...
É só um meio de demonstrar carinho,
na verdade, existe um sentimento,
mas, devido a distância,
demonstram afeto, cada qual no seu cantinho.
Muitos viajam, quilômetros à fio,
para a pessoa amada encontrar.
Enfrentam o calor e o frio,
mas, querem se conhecer, custe o que custar!
Muitas vezes, tornam-se grandes amigos.
Outras,surge um grande amor.
De ambas as formas, continuam unidos...
E quanto à você...permanecerá comigo,
não interessa aonde for!
N.055.Namoro a Cavalo - Alvares de Azevedo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia- em casamento...
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafues encheu de lama...
Eu não desanimei! Se Dom Quixote
No Rossinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes, tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair, de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
N.054.Na Rua Feia - Abgar Renault
Na rua feia,
de casas pobres,
morreu o filhinho daquela mulher
que lava o linho rico
de um bairro distante.
Morreu bem simplesmente,
assim como um passarinho.
O enterro saiu...lá vai...
um caixãozinho azul
num carro velho de 3a. classe.
Atrás dois autos. Dois.
A tarde irá pôr luto
na rua feia,
de casas pobres?
Garotos brincam de esconder
atrás do muro de cartazes.
Lá no alto
vai-se abrindo grande céu sem mancha
cruzeiro-do-sulmente iluminado.
N.053.Na Minha Terra - Alvares de Azevedo
I
Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa e nua
Do prateado véu
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
N.052.Na contramão - Andréa Borba Pinheiro
Sou amiga dos inimigos,
De quem amo e quero perto,
De quem tento beijar e não consigo,
Inimiga de mim mesma.
Preciso de quem não precisa de mim,
Busco pessoas que não me buscam,
Falo o que não querem ouvir,
E ouço palavras que me machucam.
Corro parada no mesmo lugar,
Abro os olhos e vejo sem enxergar,
Faço carinho sem mesmo te tocar,
Tenho mil espinhos, cuidado ao encostar.
Rio de piadas sem graça,
E choro de tamanha felicidade fictícia,
Todo mundo reclama,
Mas eu acho a minha comida uma delícia.
Como pode ser assim?
Gosto de você, e você... não sabe nem que eu existo... quanto mais gostar de mim?
I.033.Ismália - Alphonsus de Guimarães
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvairo seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
I.032.Invocação - Alvares de Azevedo
Variações em todas as cordas
I
Alma de fogo, coração de lavas,
Misterioso Bretão de ardentes sonhos
Minha musa serás-poeta altivo
Das brumas de Albion, fronte acendida
Em túrbido ferver!-a ti portanto,
Errante trovador d'alma sombria,
Do meu poema os delirantes versos!
II
Foste poeta, Byron! a onda uivando
Embalou-te o cismar-e ao som dos ventos
Das selváticas fibras de tua harpa
Exalou-se o rugir entre lamentos!
III
De infrene inspiração a voz ardente
Como o galope do corcel da Ucrânia
Em corrente febril que alaga o peito
A quem não rouba o coração-ao ler-te?
Foste Ariosto no correr dos versos,
Foste Dante no canto tenebroso,
Camões no amor e Tasso na doçura,
Foste poeta, Byron!
Foi-te a imaginação rápida nuvem
Que arrasta o vento no rugir medonho-
Foi-te a alma uma caudal a despenhar-se
Das rochas negras em mugido imenso.
Leste no seio, ao coração, o inferno,
Como teu Manfred desfraldando à noite
O escurecido véu.-E riste, Byron,
Que do mundo o fingir merece apenas
Negro sarcasmo em lábios de poeta.
Foste poeta, Byron!
IV
A ti meu canto pois-cantor das mágoas
De profunda agonia! -a ti meus hinos,
Poeta da tormenta-alma dormida
Ao som do uivar das feras do oceano,
Bardo sublime das Britânias brumas!
1
Foi-te férreo o viver-enigma a todos
Foi o teu coração!
Da fronte no palor fervente em lavas
Um gênio ardente e fundo:
O mundo não te amou e riste dele
-Poeta-o que era-te o mundo?
Foste, Manfred, sonhar nas serras ermas
Entre os tufões da noite-
E em teu Jungfrau-a mão da realidade
As ilusões quebrou-te!
Como um gênio perdido-em rochas negras
Paraste à beira-mar.
Do escuro céu falando às nuvens-solto
O negro manto ao ar!
O mar bramiu-te o hino da borrasca
E em pé-no peito os braços-
O riso irônico-vinha o azul relâmpago
T'esclarecer a espaços.
A fonte nua o rorejar da noite
Frio-te umedecia
E acima o céu-e além o mar te olhava
C'os olhos da ardentia!
2
As volúpias da noite descoraram-te
A fronte enfebrecida
Em vinho e beijos-afogaste em gozo
Os teus sonhos da vida.
E sempre sem amor, vagaste sempre
Pálido Dom João!
Sem alma que entendesse a dor que o peito
Te fizera em vulcão!
3
Da absorta mente os sonhos te quebrava
Do mundo o sussurrar.
E foste livre refazer teu peito
Ao ar livre do mar.
E quando o barco d'alta noite aos ventos
Entre as vagas corria
E d'astro incerto o alvor te prateava
A palidez sombria,
Era-te amor o pleitear das águas
Nos rochedos cavados-
E amargo te franzia um rir de gozo
Os lábios descorados!
E amaste o vendaval, que as folhas trêmulas
Das florestas varria-
E o mar-alto a rugir-que a ouvi-lo, a fronte
Altiva se te erguia!
E amaste negro o céu -o mar-a noite
E entre a noite-o trovão!
Num crânio zombador brindaste aos mortos.
Cantor da destruição
4
E um dia as faces desbotou-te a morte
De alvor, frio e letal
Deram-te em presa aos vermes-Mas que importa
Se é teu nome imortal-Se foste sobranceiro na peleja
Como o foras nos cantos-
Se o grego litoral e o mar que o banha
Por ti beberam prantos?
Se do levante as virações correndo
Nos mares orientais
Deram-te nênias no sussurro trêmulo,
Byron, se o nome teu lembra um espírito
Das glórias decaído
E fez-te o coração os teus poemas
De coração perdido,
Se co'a dor de teus hinos simpatizam
Duma alma os turvos imos
E o teu sarcasmo queimador consola
E contigo sorrimos?
5
Vem, pois, poeta amargo da descrença
Meu Lara vagabundo-
E co'a taça na mão e o fel nos lábios
Zombaremos do mundo!
I.031.Inventário - Alexandre O'Neill
Um dente d'ouro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno
Um revolver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria
Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé
Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza
Um octogenário divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas
I.030.Intervalo amoroso - Affonso Romano de Sant'ana
O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?
Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?
Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?
Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?
O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?
É como se entre um dia e outro
houvesse o vago-dia, cinza,
vida igual a morte, amortecida.
O poema, avulso gesto de amor,
é vão recobrimento de espaços.
O poema é dúbia forma de enlace,
substitui o pênis
pelo lápis
- e é lapso.
I.029.Antenções - Angela Bretas
De ti eu quero a nítida impressão
da brisa soprando
dentro do vento.
Quero o relaxamento
pleno da noite
entregando-se ao amanhecer.
Quero o cristal
das águas puras
rolando montanha abaixo.
Quero o último hausto
do rubro sol
desmaiando no horizonte.
Quero o tilintar na madrugada
dos corpos envoltos
em lençóis e pelos.
Quero a ânsia sedenta
dissipada em toques
saciada em gestos.
Quero o dia acordando
no horizonte corado
desabrochar em ti.
I.028.Insensatez - Ademir Antonio Bacca
eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.
nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.
I.027.Inebriantes na dança do amor - Ana Cristina Pozza
Minha mente é só desejo:
Minha boca clama pelo teu beijo,
Meu corpo pulsa pelo teu toque,
Meu ser estremece pelo teu olhar.
Eu sou,
inteiramente,
lua,
nua,
tua.
Desejo acima de desejo
Corpo sustentando corpo
Alma comportando alma.
Tu
infinitamente
no meu
íntimo...
Nós dois
Inebriantes
Na dança do amor
A tocar
A sentir
A gozar
Na explosão do depois...
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
I.026.Idéias Íntimas XIV - Alvares de Azevedo
Parece que chorei . Sinto na face
Uma perdida lágrima rolando. . .
Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,
Derrama no meu copo as gotas últimas
Dessa garrafa negra...
Eia! bebamos!
És o sangue do gênio, o puro néctar
Que as almas de poeta diviniza,
O condão que abre o mundo das magias!
Vem, fogoso Cognac! É só contigo
Que sinto?me viver. Inda palpito,
Quando os eflúvios dessas gotas áureas
Filtram no sangue meu correndo a vida,
Vibram?me os nervos e as artérias queimam
Os meus olhos ardentes se escurecem
E no cérebro passam delirosos
Assomos de poesia. . . Dentre a sombra
Vejo num leito d'oiro a imagem dela
Palpitante, que dorme e que suspira,
Que seus braços me estende. . .
Eu me esquecia:
Faz?se noite, traz fogo e dous charutos
E na mesa do estudo acende a lâmpada...
I.025.Idéias Íntimas XIII - Alvares de Azevedo
Havia uma outra imagem que eu sonhava
No meu peito na vida e no sepulcro.
Mas ela não o quis rompeu a tela
Onde eu pintara meus doirados sonhos.
Se posso no viver sonhar com ela,
Essa trança beijar de seus cabelos
E essas violetas inodoras, murchas,
Nos lábios frios comprimir chorando,
Não poderei na sepultura, ao menos,
Sua imagem divina ter no peito.
I.024.Idéias Íntimas XII - Alvares de Azevedo
Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dous retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo?os cada noite: neste exílio
Venero?os juntos e os prefiro unidos
-Meu pai e minha mãe.-Se acaso um dia
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem?os em meu túmulo. Mais doce
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.
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