quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

D.137.Dor - Humberto de Campos


Há de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E andá-la-ás sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras
disse-me um dia um pálido adivinho.

No entanto, sempre hás de cantar venturas que jamais encontraste...
O teu caminho, dirás que é cheio de alegrias puras, de horas boas, de beijos, de carinho...

E assim tem sido... Escondo os meus lamentos:
É meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas lágrimas no rosto!

D.136.Diz meu nome - Mia Couto


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça.

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno.

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci.

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos.

No úmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome.

D.135.Destino - Mia Couto


À ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos.

Vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso.

Conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso.

Agora
que mais
me poderei vencer?

D.134.Desencontro - Walmir Becker


Onde estão todos vocês,
Meus amores de ontem,
Fui eu que os perdi,
Ou vocês é que me perderam,
Sem jamais me procurar.

Pois o tempo foi passando,
E assim tendo passado,
Passamos todos nós,
Sempre à procura de algo,
Sem jamais encontrar.

D.133.Descrevo que era realmente naquele tempo a cidade da Bahia - Gregório de Matos Guerra


A cada canto um grande conselheiro,
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.

D.132.Desenho nas ondas - Douglas Farias


As ondas do mar me encorajam e me dão medo
O som do mar me traz alegria e profunda tristeza
A areia da praia me conforta e me incomoda
O cair do sol me dá esperança e provoca ânsia
A brisa do mar me alivia e traz a noite mais fria
Em frente ao mar continuo admirando
As mesmas sensações que dão-me o prazer
Causam em minha alma um certo temor
Um graveto na mão, desenho na areia
Um rosto sorrindo, um rosto triste
A onda vem e apaga o triste rosto
O sorriso ficou, e a onda meu coração levou
O triste rosto levava consigo marcas
Marcas que não podiam ser esquecidas
Marcas que não podiam ser apagadas
O sorriso no rosto esconde o coração ferido
Me faz esquecer um passado um dia pude viver
Me faz esquecer que um dia eu pude ter você

D.131.Doce futo - Douglas Farias


Doce fruto do sabor
Com carinho foste semeado
Cresceste cheio de vida
De tanto amor que te foi dado

Doce fruto da beleza
Com lágrima foste colhido
Apreciando-te num olhar
Permita-me fazer um pedido

Doce fruto do amor
Coração que queima de desejo
Colo meu rosto ao seu
Para desfrutarmos desse beijo

D.130.Do seu lado sempre estarei - Douglas Farias


DO SEU LADO SEMPRE ESTAREI
Douglas Faria
Corria contra o vento
Sentindo a brisa passar
Brincava com as flores
Como se comigo fossem falar

De longe te via
Com olhar admirado
Sabendo em seu coração
Que sempre estaria ao seu lado

Viu-me nascer
Confortou-me em seus braços
Logo percebia
Que teríamos grandes laços

Todas as noites
Olhando pelo vidro
Esperava seu carinho
Para ficar comigo

Só que um dia
Tive que partir
Mas uma vez em seus braços
Não te vi mais sorrir

Tenho a sensação
Que de novo seremos
Velhos amigos e
Que logo nos veremos

D.129.Dom do amor - Paulo de Tarso


Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos,
e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios
e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que
transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres,
e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado,
e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso;
o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses,
não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas;
havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino,
discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem,
acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma,
mas então veremos face a face; agora conheço em parte,
mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor,
estes três, mas o maior destes é o amor.

D.128.Dentro de mim - Analí Sabino


Há algo dentro de mim:
Algo que me angustia...
Algo que queria...
Algo que desejaria...
Algo que aconteceria...
...se não fosse a minha falta de fé!

Eu não sentiria...
Eu não choraria...
Eu não pediria...
...se tivesse a certeza que este sonho um dia se realizaria.

Quando me libertarei?
Quando conquistarei?
Este dia, quando chegará?
Talvez esteja próximo.
Talvez nunca chegue.
É apenas um desejo, uma petição...
...que tanto alegraria o meu coração.

Venha meu amado, te espero há tanto tempo.
Saia dos meus sonhos, venha para o meu acalanto.
Ao meu lado é o teu lugar, desejo tanto te beijar.
Prometo-lhe nunca te deixar.
Prometo-lhe sempre te amar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

D.127.Don Juan - Wilian Nascimento


Por muito tempo eu calei meu coração, quis sufocar
Esse sentimento que floresceu, como eu te explicar?
Você sempre me viu como amigo e um irmão
Por isso eu tive medo de arriscar errado
E perder de vez o teu coração
Por muito tempo evitei te olhar nos olhos, me escondia
Eu sempre me contentei, um beijinho, um abraço, isso já me servia
Quantas coisas já perdi, com medo de perder
Mas agora eu aprendi, não vou perder você

Te quero, comigo, mais que um amigo
Eu quero ser teu namorado
Te peço uma chance, pense com carinho
Nesse eterno apaixonado

Eu não sou nenhum Don Juan conquistador
Muito pouco eu sei do amor
Então eu entreguei tudo em oração a quem sabe
Quem melhor que o inventor do coração?
Sei que Deus está comigo e é por isso que eu me animo
Aceitei o desafio, e hoje estou aqui me declarando
Te quero muito mais que ontem, e hoje muito menos que amanhã
Eu me escondi por tanto tempo, mas hoje eu confesso eu sou seu fã

D.126.Delírio - Mia Sodré


Labirinto
Quando a vida se torna um espinho
Quando a rosa lhe fere o caminho
Quando já se perdeu a paixão.

Retiro
Há um lago aonde se vai sozinho
Na beleza da estrela azul
Na esperança de achar algum trilho.

Sozinho
Caminhando à margem de um rio
À esquerda há apenas vazio
À direita há paz na contramão.

Suspiro
O que resta é encontrar um alívio
Um sorriso que mostre uma ilha
Que é deixada na imaginação.

D.125.Deusa - Valdivino


Não posso me enganar
não poderia viver dessa maneira
para pagar e apagar qualquer bem

Assim como eu
vi o nascer do sol pelas
águas do mar

E queria saber como há tanta
beleza neste mundo 
inteiro

Pode ser meus sonhos que faz a
minha vida valer a pena
enquanto vale sonhar, fui trazido
para os meus sentidos

Estava cego, mas agora que eu posso ver,
que a natureza disse que você
pertence a mim.

D.124.Delineando - Mia Sodré


A alma revigora
O cansaço do tempo
Daquela dor, daquele tormento
Outrora era paz
Hoje, vento gélido
Seria eu capaz
De amar demais?
A poesia que nasce
Por um descuido alheio
Instalou-se, por fim,
Dentro do meu peito
Correndo ela vai
Por veias tão finas
Mandando sinais
Em forma de rimas.

D.123.Do branco ao púrpura - Mia Sodré


Onde estás tu, que adoças meus dias? 
Para onde fostes ao despertar de meus sonhos?
Fugistes como tantos, pois esta é a minha sina, 
ou te encontras nas trevas, resistindo aos meus encantos? 

Sombras da noite me fazem perceber
que um leve engano de meus delírios
poderiam me afastar de você. 
Matarei meus medos tal qual Goya,
e não resistirei aos meus desejos. 
Pois tudo o que vejo e que percebo agora 
é o reflexo virginal de outrora. 

Viestes de tão longe para aquecer minha pureza. 
Vestiu-a de púrpura e a despiu de esplendor
No qual Vaste, mesmo em toda sua loucura
Sucumbiu, ao precioso sabor. 

Sabor este que produz deleite
Prazer tal qual não se verá jamais
Pois como a virgem, ao perceber o falo
Se rende ao gozo e perdição fugaz. 

E eu, que já não espero mais sentir
Ao toque de tua derme me percebo flor
No calor de teus braços, tal qual virgem
A quem te negas, ao mínimo de dor.

D.122.Dever de sonhar - Fernando Pessoa


Eu tenho uma espécie de dever,
dever de sonhar, de sonhar sempre, 
pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, 
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso. 
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas 
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho 
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

D.121.Desculpa - Thaina Santiago


Desculpa...
Se te olho assim tão profundamente rente a um repente a ponto de constrangê-lo assim simultaneamente...
Desculpa...
Se te toco assim tão delicadamente a ponto de sentir dores e mágoas interiores,
capaz de sentir teus arrepios e calafrios, e toda dor que outrora essa sua pele já sentiu...
Desculpa...
Se te abraço assim tão genuinamente como se o mundo acabasse ali ou aqui nesse instante...
Desculpa...
Se te beijo assim tão apaixonadamente e impulsivamente como se pertencessemos um ao outro...
Desculpa...
Se te amo tão loucamente a ponto de sentir e ver seus medos e ancestrais, ou se amo assim tão abusivamente...
Mas te amo por inteiro sem qualquer devaneio, a cada segundo formado, cada vez mais exaustivamente...
Te amo...

D.120.Diferente - Rita Costa


Eu anoiteço.
O pensar é mais flutuante,
o olhar é mais falante,
o caminhar é mais adiante
e sigo...

pois sou fonte inesgotável
de um sonhar...
diferente

Eu amanheço.
O pensar é mais falante,
o olhar é mais adiante,
o caminhar é mais confiante
e sigo...
expandindo-me.

Sou um incontrolável realizar
e sigo...
diferente.

D.119.Dias escuros - Mitchell Pinheiro


Quando o passado não passa e o futuro não chega
O olhar perdido abraça o desassossego
Quando a enfermidade é certa e a cura incerteza
A mente reprimida conclama o desapego

Quando as flores não brotam mais
Quando a noite não se esvai
Pra onde foi a primavera?
Quando tudo é incolor e a dor não espera

O Sol se foi e a noite é fugaz
Apagaram as paisagens e esconderam a paz
Foi  tudo orquestrado pelo coração
Foi tudo tão sentido
Mas tudo foi em vão
Nada mais faz sentido

O amor não está perdido
O caminho ainda pode clarear
Basta a luz de um único sorriso correspondido
O dia renascerá

D.118.Diz amor - Douglas Farias


Todos os dias em que vejo o mar
Da vontade de me jogar
Até no fundo do escuro azul
Afim de te encontrar

Palavras mal ditas confundiram o olhar
Foram trocadas por um desamar
Não quis mais ouvir o que tinha a lhe dizer
Fiz sofrer aquela que me diz amar

Essas rosas e um cartão são pra ti mostrar
Sinceras palavras e não um lamentar
E tudo aquilo que realmente quis fazer
De todo coração meu amor para te dar