segunda-feira, 16 de agosto de 2021
T.052.Turista acidental - Affonso Romano de Sant'anna
Fui fotografado à minha revelia,
em frente a um templo egípcio
no Metropolitan Museum de Nova York.
À minha revelia,de novo, fotografado fui
na 5a. Avenida às três e meia da tarde.
Assim, um sem- número de vezes
em frente ao Coliseu,
nas ruínas de Machu Pichu,
perto da Torre de Londres,
junto à Catedral de Colônia,
sobre as pedras da Acrópole, em Atenas,
nas mesquitas de Istambul
e, evidente, em Juiz de Fora.
Guardado estou
em álbuns
japoneses, italianos, americanos, alemães, franceses
argentinos, senegaleses,
disperso
desatento
como se aquele corpo
não fosse meu.
Quando mostram as fotos aos parentes e vizinhos
sou pedra-porta-árvore-sombra-paisagem.
Ninguém, reunindo as fotos, perguntará:
-Quem é este constante figurante
no flagrante do alheio instante?
Disperso-dispersivo estou.
Que álbum conterá a unidade perdida
revelada do negativo
perambulante que sou?
T.051.Tudo Eu! - Andréa Borba Pinheiro
Uma amizade tão pura...
Que eu tentei manter...
Minha confiança sempre foi sua...
Então, por que isso teve que acontecer?
Por que não lutou por mim?
Por que não passou por cima de princípios por mim?
Por que não foi você mesma quando teve a chance?
Por que não me olhavas nos olhos, e sim de relance?
Justo eu... que dei tudo de mim para você.
Justo eu... que passei por cima de tudo por você.
Justo eu... que passei por cima do meu orgulho por você.
Justo eu...que sempre fiz tudo por você!
Por que não soubeste aproveitar?
Por que não soubeste usar do meu amor de forma limpa?
Por que não soubeste ser amiga, tanto quanto fui de ti?
Por que achavas que bastava contar piadas e me fazer sorrir?
Logo eu... que fui tudo quando você foi nada.
Logo eu... que chorei tantas vezes por você.
Logo eu... que fui pura e abri o jogo na sua cara!
Logo eu!!! Que falei tudo quando você engasgou, e, não conseguiu, nada, dizer!
Logo eu... que às vezes sinto a sua falta...
Logo eu... que sou tão durona e racional...
Logo eu... que sempre respondia as suas cartas...
Logo eu... que nunca te fiz nenhum mal...
Parece que com você, não basta ser bom.
Não basta ser " legal "...
Não basta ser amigo.
Não basta ser intelectual.
Parece que com você...
A única coisa que basta...
É seguir a sua regra... ser como você quer.
E eu não sou assim...
Nasci para ser livre...
Não me bote algemas, pois eu grito!
E quer saber? Não me importo mais.
Sinto muito, mas de você, eu desisto.
T.050.Tu que nunca serás - Alfonsina Storni
Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.
Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado...
Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio
E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.
T.049.Trindade - Alvares de Azevedo
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d'espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d'alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
T.048.Três visões horizontais no destino - Alexei Bueno
I
O sol é o último ferido da batalha
E sangra e oscila sobre um corpo que foi rei
Ao qual coroam sete espadas sobre a malha
E tantos reinos destruídos que eu não sei.
Tremulamente um estandarte a sombra espalha
E esta acena, como mão chamando a grei
Ou a afastando, se ela vier, para que valha
Um seu segundo esquecimento como lei.
Nada dói, exceto a dor não inflingida
Ao inimigo, que já longe em glória vai
E leva a dor, mesmo vencendo, porque é vida.
Aqui há um povo que se vence de esquecido
E assim sorri no desengano em que o sol cai
Sobre os escombros de um império nunca erguido.
II
A terra enxerga por viseiras destruídas
E rijos ferros dormem fundo após a guerra
Dentro de homens que se esquecem das partidas
Com o silêncio em cada boca que não berra.
Escudos, lanças, armaduras divididas
E uma espada em pé cravada sobre a terra
Lembrando cruz para a indulgência das feridas
Que já não doem numa carne que se encerra.
Antes da luta cada um lá estava certo
Que viveria após ter tudo se acabado,
Mas já ninguém se desilude no deserto.
E nem há dor pra quem não vê como a hora falha
E como é o corpo conduzido ao golpe errado
Pelo destino que se rompe igual à malha.
III
Desaba o sol e sobre a queda a noite cai
Mas ainda é dia em cada corpo pela vala
E ainda é a hora da ferida que não sai
Tal qual rugido de leão que ao mastro cala.
Numa fogueira um estandarte geme um ai
E o fogo é a luz dos olhos mortos soba pala,
E nem há órfãos, pois seguiu-se o filho ao pai
Que ri no chão quando seu pé na chama estala.
Agora tudo aprende o nada novamente
E falta algo em ver os corpos mais que a vida
Como a um cadáver de leão o medo ausente.
No vão dos pós não há mais sonho nem querer
E não querendo a tudo tem a grei vencida
Na derradeira sua vitória em se perder.
T.047.Toque - Andréa Borba Pinheiro
Sensível, leve, quase não percebo,
deslizando pelas curvas do meu rosto,
arrepiando minha pele,
despindo-me de medo.
Antes hesitava...nunca o fazia.
Timidamente aproximei-me,
não o bastante para tocar-te
mas, se ao menos eu tentasse...
Como reagirias? Que dilema!
Sorririas? Afastaria-me? O que farias?
Amo-te!
Não confunda-me!
Um dia a vergonha dissipou-se
dando espaço ao sentimento
que fluiu lindamente...
E toquei sua face, banhei-me em contentamento!...
T.046.Tirando a roupa - Ana Cristina Pozza
Gosto de tirar a roupa
E sentir o teu caralho duro
Enchendo de prazer a minha boca
Deixando-me louca de tesão
Enquanto vou sendo beijada com sofreguidão...
Gosto de tirar a roupa
Virar-me de costas
E oferecer-me por inteiro
Pedindo sorrateira
A tua entrada no meu traseiro.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir lambuzada
Inteiramente desejada
Pronta para comer
E ser comida...
Gosto de tirar a roupa
Abrir as minhas pernas
E ficar te sacaneando
Oferecendo a minha vagina quente
Cheia de vontade de ficar molhada.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir uma puta
Pronta para ser abusada
Penetrada, amada
Tonta de tesão e dor.
Gosto de tirar a roupa
E sentir as tuas mãos me envolvendo
O teu dedo no meu cuzinho
A tua língua na minha pombinha
E a minha boca no teu pau.
Gosto de tirar a roupa
E de gritar como uma maluca
Com o prazer doidivanas
Que tu provocas no meu corpo
Quando entra em mim ereto.
Gosto de tirar a roupa
E ser obscena
Ser a tua pequena
Ser a tua tarada
Sempre pronta para tirar a roupa...
T.045.Teus olhos - Angela Bretas
Teus olhos
Encontram meu olhos
Momento mágico
Eterno
Intenso
Inesquecível... Teus olhos
Em meu olhos
Coração dispara
Mente viaja
Paraliza
Ficamos mudos
Sem palavras... Teus olhos
Refletem
O que os meus
Demonstram sentir... Teus olhos
Aos poucos
Desaparecem
Levando com eles
O reflexo dos meus... Meus olhos
Procuram teus olhos
Olham ao redor
E só encontram o vazio
De não ter mais este olhar...
T.044.Tesão e soneto - Ana Cristina Pozza
Enquanto segues em frente,
Deito-me maliciosa em teu leito,
Sentindo teu corpo quente:
Diante das tuas mãos, tudo aceito...
Roubas meus seios da minha roupa,
Acariciando-os com intensos beijos,
Deixando-me completamente louca,
Abrindo-se para ti a Flor dos meus Desejos...
Sou só desejo, sou toda tua...
Beijo-te inteiro com sofreguidão,
Enquanto deixas-me totalmente nua,
Provocando em meu corpo espasmos e gemidos,
Embalo com lambidas teu tesão
Até nos tornarmos um só em todos os sentidos...!
T.043.Terza Rima - Alvares de Azevedo
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra, és tu, ó meu charuto!
T.041.Tentando voce - Andréa Borba Pinheiro
Tento você com meus olhares,
minhas insinuações e complicações...
Com palavras suspiradas e sorrisos milhares,
cantando para ti novas canções.
Tento você no toque inocente,
no abraço carinhoso,
na compreensão que expresso,
no beijo no rosto.
Tento você com minhas curvas,
que fazem teus olhos me seguirem,
tento você a cada momento,
e mesmo assim, não sei se me queres.
Se gostas de desafios,
aceite...!
Pois, o desafio, já lancei...
Basta que você também me tente...
T.040.Tenho saudades - Andréa Borba Pinheiro
Tenho saudade de você.
Do seu jeito perfeito.
Talvez seja exagero,
mas nunca vi, em ti, nenhum defeito.
Tenho saudade do seu amor,
me aquecendo,
me aconchegando,
me protegendo.
Tenho saudade das tuas mãos,
passeando pelo meu corpo, em busca de alívio.
Tenho saudade do teu beijo,
fazendo minha razão, evaporar.
Tenho saudade das palavras doces,
do corpo bem definido e, do olhar insinuante que me deste.
Tenho saudade das canções que cantávamos no verão.
Tenho saudade de tudo, porém, apaguei-te da minha mente,
pois sei que, jamais, apagar-te-ei do coração.
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
T.039.Tarde de Outono - Alvares de Azevedo
O Poeta:
Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Saudade:
De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.
O Poeta:
Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.
A Saudade:
Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.
O Poeta:
Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?
A Saudade:
A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!
O Poeta:
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A Saudade:
Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O Poeta:
Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía
E eu pensava ali morrer!
A Saudade:
É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!
O Poeta:
Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
R.032.Rumo - Alda Lara
É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...
R.031.Rosas - Alphonsus de Guimarães
Rosas que já fostes, desfolhadas
Por mãos também que já se foram; rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas
Mortas também, beijaram suspirosas...
Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de alfombra silenciosas
Onde dormiram tranças destrançadas.
Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço e de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!
Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?
R.030.Rosa e Lírio - Almeida Garret
A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam - flor
D'amor,
Não sei.
A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, - dor
Na cor
O lírio.
Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza - mor
Primor
A rosa:
No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: - cor
E ardor
É o meu.
A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.
R.029.Reticências da vida - Andréa Borba Pinheiro
Tanta coisa que eu não sei...
Tanta coisa que eu não vi...
Tanta bobagem que falei...
Tanta vida que perdi...
Tanta coisa que eu já sei...
Tanta coisa que eu já vi...
Tanta bobagem que não falei...
Tanta emoção que não senti...
Tantos dias procurei...
Tantos momentos que pensei...
Tantas dúvidas que não resolvi...
Mas pra mim tá tudo bem...
Outro segundo que se vai...
Outro minuto que foi embora...
É o tempo que entra e sai...
Perdida mais uma hora...
Tantos beijos que não dei...
Tantas cartas que rasguei...
Tantos amigos que dispensei...
Tantos afagos que neguei...
Outra semana que se vai...
Outro mês que foi embora...
É o tempo que entra e sai...
Levando de mim o viço, que existia, outrora.
Quantos anos eu tenho?...
Quem é você?...
Onde eu estou?...
Quem sou eu?...
R.028.Resoluções - Angela Bretas
Este novo ano resolvi que vou mudar
Farei tudo em passos lentos
Sem pressa ... anseios
Deixarei de lado atitudes ímpetas
E não correrei contra o tempo...
Este novo ano resolvi que vou criar
Farei brotar dentro de mim a arte
Sem regras... teorias
Deixarei a mesma fluir livremente
E não ignorarei a inspiração quando a mesma chegar...
Este novo ano resolvi que vou amar
Farei destes amores a razão de minha alegria
Sem cobranças... ou expectativas
Deixarei de questionar
E não me conterei com um só sentimento...
Este novo ano resolvi que vou crescer
Farei nascer dentro de mim a mulher adormecida
Sem tentar acordar... a que já dorme
Farei do meu sono um novo despertar
E não terei receio em abrir minha mente...
Este novo ano resolvi que vou viver
Farei de cada dia como se fosse o último
Sem medo... do amanhã
Deixarei de escutar somente os outros
E não me intimidarei diante de meus próprios fracassos...
R.087.Reflexo - Affonso Romano Sant'ana
O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.
R.026.Rainer Maria Rilke e eu - Rilke
quando queria fazer poemas
pedia emprestado um castelo
tomava da pena de prata ou de pavão,
chamava os anjos por perto,
dedilhava a solidão
como um delfim
conversando coisas que europeu conversa
entre esculpidos gamos e cisnes
- num geométrico jardim.
Eu
moderno poeta, e brasileiro
com a pena e pele ressequidas ao sol dos
trópicos,
quando penso em escrever poemas
- aterram-me sempre os terreais problemas.
Bem que eu gostaria
de chamar a família e amigos e todo o povo
enfim e sair com um saltério bíblico
dançando na praça como um louco David.
Mas não posso,
pois quando compelido ao gesto do poema
eu vou é pegando qualquer caneta ou lápis e
papel desembrulhado
e escravo
escrevo entre britadeiras buzinas seqüestros
salários coque'teis televisão torturas e
censuras
e os tiroteios
que cinco vezes ao dia
disparam na favela ao lado
metrificando assim meu verso marginal de
perseguido
que vai cair baldio num terreno abandonado
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