sexta-feira, 19 de novembro de 2021
S.117.Santa - Ana Paula Pedro
Afundar sobre a quente névoa de tuas ruas
Soprar como vento em constante persistência das horas
Lambuzar-me em tuas densas águas agridoces
Escalar as falésias de tua incoerente geografia
Renascer como oásis de teus secretos redutos
Esquecer de vez o deserto que há em mim
Cobrir a memória com o tênue lençol de algodão
S.116.Saber - Angela Bretas
Saber que ao amanhecer
estarás a meu lado
me faz feliz...
Saber que durante o dia
tem alguém a pensar em mim,
me conforta...
Saber que ao entardecer
estará chegando a hora de ficar junto a você
faz com que meu coração acelere...
Saber que a noite seu corpo
estará unido ao meu,
me faz um bem enorme...
... E é o que me dá força para a vida que temos pela frente...
P.125.Pulchra Ut Luna - Alphonsus de Guimarães
Pulchra Ut Luna
II
Celeste... É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste...
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?
Celeste... E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste
De luz, não temes sol, não temes chamas,
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.
Incoercível como a melancolia,
Andas em tudo: o sol no poente vasto
Pede-te a mágoa do findar do dia.
E a lua, em meio à noite constelada,
Pede-te o luar indefinido e casto
Da tua palidez de hóstia sagrada.
P.124.Primeira chuva no deserto - Ana Paula Pedro
Fecho os olhos e imagino a primeira chuva no deserto. Vejo-te sentado no estreito balcão, mudo, olhos vidrados no trajeto de cada gota. Fico ao teu lado observando esta imprevista chuva e após alguns instantes atiro-me nos úmidos braços celestiais; deixo a chuva lavar minha alma e meu corpo, entrego-me às surpresas do deserto, refaço-me inteira. Quando volto meu olhar para ti, vejo que, assim como o deserto, tu também estás a chover. Lágrimas que parecem não ter fim. Não me apiedo de ti, o tempo por vezes parece demasiadamente curto, a eternidade se encerra em um segundo, a vida por vezes é urgente.
Precipito meus braços em tua direção. Observo teu lento caminhar e quando finalmente estás diante de mim, dançamos ao som dos estalos do encontro da água com a areia... esfoliando nossas almas das dores da vida, vimos um novo dia raiar, dançando juntos a música que nos habita.
P.123.Presentes de natal - Angela Bretas
"Presentes de Natal São pequenas as horas São muitos os minutos São imensos os segundos Horas de esperas Minutos de expectativas Segundos de ansiedades Ansiedades de saber Saber se ganho ou não Expectativas de conhecer Conhecer o que terei nas mãos Vontade de descobrir Descobrir se gosto ou não E assim poder abrir Com carinho Um por um Presentes dados Com amor E recebidos Com emoção No final Mais um Natal se acaba As luzes se apagam Os pacotes espalhados pelo chão Fica apenas a certeza De que a espera não foi em vão E a alegria de ter ... um presente em minhas mãos! "
P.122.Prelúdio - Alda Lara
(para Lídia, minha velha ama negra)
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.
... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...
É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...
É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...
P.121.Preciso de alguem - Andréa Borba Pinheiro
Queria tanto ter alguém do meu lado,
que me abraçasse, me beijasse,
que não me deixasse nesse estado.
Que me protegesse e, se eu caísse, que me levantasse.
Alguém para conversar,
e fugir do silêncio do meu quarto.
Alguém que não me deixasse chorar,
que me amasse de fato...
Que sussurrasse tudo que gosto de ouvir,
bem baixinho, para só a minha alma sentir,
para só os meus olhos fechar,
e só o meu sono embalar.
Alguém que me desse o carinho que tanto anseio encontrar,
que me deixasse no meu cantinho, caso eu não quisesse falar.
Alguém que aquecesse o meu inverno,
e refrescasse o meu verão...
Será que esse alguém, vou achar?
P.120.Prece solitária - Angela Bretas
Venho através desta prece solitária
Pedir do fundo do coração
Que o mundo de forma humanitária
Possa encontrar uma espécie de união
Rogo aos ventos e aos mares
Imploro às matas e às florestas
Peço aos animais e aos ares
Que o mundo amanheça em festa
Escuta esta prece de quem te venera
Oh natureza divina
Ensine aos homens o valor da vida
Oh natureza rainha
Use a força de teus sagrados raios e chuvas
Alegre os céus com teus pássaros e cores
Perfume o mundo com tuas flores
Oh natureza infinita
Mostre aos homens
Que a vida é sublime
Que cada dia é único
Que para ser feliz basta estarmos vivos
E que o tempo passa
Levando com ele
A cada dia
Sonhos, amores e, desarmonia
Oh natureza em cores
Renove nos homens
A esperança de novos sonhos
A fé de um novo amor
Oh natureza
Ensina também
Que a certeza de uma nova vida
Se faz evidente, presente
A cada início de um novo dia
E que o mundo acorde em paz...
Amém !
P.119.Prece de um minuto - Angela Bretas
No primeiro minuto do Novo Ano,
Vou olhar firmamente à primeira estrela do céu
E fazer uma prece...
Vou pedir para que bombas parem de explodir
E que não haja fronteiras entre os povos...
Vou direcionar meu pensamento para um mundo de paz
Sem violência... terrorismo...
Vou implorar para que acabe a discórdia
E que a concordância prevaleça...
Vou clamar aos anjos e santos
E rogar por harmonia... piedade...
Piedade aos famintos...
Piedade às pessoas pobres de espírito...
Piedade aos que acreditam na violência...
Piedade aos perversos...
Piedade à humanidade carente... doente... sofrida...
Vou elevar meus desejos com fé
E acreditar que a fé remove montanhas, aniquila o mau,
acaba com a guerra...
Vou olhar firmamente à primeira estrela do céu
Neste primeiro minuto do Novo Ano
Vou sucumbir a meus apelos pessoais
Não quero querer só para mim
Quero dividir a alegria de saber que o amanhã promete...
Quero acreditar que as futuras gerações
encontrarão um mundo estruturado...
Quero usar o poder de minha mente positivamente... e crer...
Crer serenamente... confiantemente...
Na virada do Novo Ano vou elevar meus desejos
Em uma prece de um minuto
Vou olhar à primeira estrela do céu
e suplicar por um mundo melhor
Para todos nós...!
P.118.Pré-texto para Cassiano Ricardo - Adailton Medeiros
Amanhã o bom dia
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
P.117.Pranto para Comover Jonathan - Adélia Prado
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
P.116.Posteridade - Affonso Romano Santana
Eles vão nos achar ridículos, os pósteros.
Nos examinarão
com extrema curiosidade
e um tardio afeto.
Mas vão nos achar ridículos, os pósteros.
Olhado de lá
tudo aqui
será mais claro
para eles
que nos verão
inteiramente diversos
do que somos,
bem mais exóticos
do que somos.
- Como esses primitivos
ousavam se chamar modernos?
Farão simpósios, debaterão
e chegarão a bizzaras conclusões.
Assim entraremos para a história deles
como outros para a nossa entraram:
não como o que somos
mas como reflexo de uma reflexão.
P.115.Porta do colégio - Affonso Romano Santana
Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida. Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isto, parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa.
Primeiro há uma diferença de clima entre aquele bando de adolescentes espalhados pela calçada, sentados sobre carros, em torno de carrocinhas de doces e refrigerantes, e aqueles que transitam pela rua. Não é só o uniforme. Não é só a idade. É toda uma atmosfera, como se estivessem ainda dentro de uma redoma ou aquário, numa bolha, resguardados do mundo. Talvez não estejam. Vários já sofreram a pancada da separação dos pais. Aprenderam que a vida é também um exercício de separação. Um ou outro já transou droga, e com isto deve ter se sentido (equivocadamente) muito adulto. Mas há uma sensação de pureza angelical misturada com palpitação sexual, que se exibe nos gestos sedutores dos adolescentes. Ouvem-se gritos e risos cruzando a rua. Aqui e ali um casal de colegiais, abraçados, completamente dedicados ao beijo. Beijar em público: um dos ritos de quem assume o corpo e a idade. Treino para beijar o namorado na frente dos pais e da vida, como quem diz: também tenho desejos, veja como sei deslizar carícias.
Onde estarão esses meninos e meninas dentro de dez ou vinte anos?
Aquele ali, moreno, de cabelos longos corridos, que parece gostar de esportes, vai se interessar pela informática ou economia; aquela de cabelos loiros e crespos vai ser dona de butique; aquela morena de cabelos lisos quer ser médica; a gorduchinha vai acabar casando com um gerente de multinacional; aquela esguia, meio bailarina, achará um diplomata. Algumas estudarão Letras, se casarão, largarão tudo e passarão parte do dia levando filhos à praia e praça e pegando-os de novo à tardinha no colégio. Sim, aquela quer ser professora de ginástica. Mas nem todos têm certeza sobre o que serão. Na hora do vestibular resolvem. Têm tempo. É isso. Têm tempo. Estão na porta da vida e podem brincar.
Aquela menina morena magrinha, com aparelho nos dentes, ainda vai engordar e ouvir muito elogio às suas pernas. Aquela de rabo-de-cavalo, dentro de dez anos se apaixonará por um homem casado. Não saberá exatamente como tudo começou. De repente, percebeu que o estava esperando no lugar onde passava na praia. E o dia em que foi com ele ao motel pela primeira vez ficará vivo na memória.
É desagradável, mas aquele ali dará um desfalque na empresa em que será gerente. O outro irá fazer doutorado no exterior, se casará com estrangeira, descasará, deixará lá um filho - remorso constante. Às vezes lhe mandará passagens para passar o Natal com a família brasileira.
A turma já perdeu um colega num desastre de carro. É terrível, mas provavelmente um outro ficará pelas rodovias. Aquele que vai tocar rock vários anos até arranjar um emprego em repartição pública. O homossexualismo despontará mais tarde naquele outro, espantosamente, logo nele que é já um don juan. Tão desinibido aquele, acabará líder comunitário e talvez político. Daqui a dez anos os outros dirão: ele sempre teve jeito, não lembra aquela mania de reunião e diretório?
Aquelas duas ali se escolherão madrinhas de seus filhos e morarão no mesmo bairro, uma casada com engenheiro da Petrobrás e outra com um físico nuclear. Um dia, uma dirá à outra no telefone: tenho uma coisa para lhe contar: arranjei um amante. Aconteceu. Assim, de repente. E o mais curioso é que continuo a gostar do meu marido.
Se fosse haver alguma ditadura no futuro, aquele ali seria guerrilheiro. Mas esta hipótese deve ser descartada.
Quem estará naquele avião acidentado? Quem construirá uma linda mansão e um dia convidará a todos da turma para uma grande festa rememorativa? Ah, o primeiro aborto! Aquela ali descobrirá os textos de Clarice Lispector e isto será uma iluminação para toda a vida. Quantos aparecerão na primeira página do jornal? Qual será o tranqüilo comerciante e quem representará o país na ONU?
Estou olhando aquele bando de adolescentes com evidente ternura. Pudesse passava a mão nos seus cabelos e contava-lhes as últimas estórias da carochinha antes que o lobo feroz os assaltasse na esquina. Pudesse lhes diria daqui: aproveitem enquanto estão no aquário e na redoma, enquanto estão na porta da vida e do colégio. O destino também passa por aí. E a gente pode às vezes modificá-lo.
P.114.Por que Mentias? - Alvares de Azevedo
Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?
Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?
Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!
Vê minha palidez- a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito! Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?
P.113.Por amar-te - Angela Bretas
Por amar-te sou mulher.
Quero sorver a veracidade de tuas palavras trôpegas
e a delícia de saber-me tua.
Sentir-me melada como cana caiana.
Deixar-me escorrer como a areia sinuosa,
pincelando rastros vestígios na tua tez avermelhada,
marcada por beijos meus...
Misturar meu fel com teu mel
e obter o tempero exato, raro...
Enroscar meus
desejos com tuas taras,
e viver o ápice do gozo
em um ímpeto de paixão e despudor.
Entregar-me ao riso solto,
ao corpo mole,
mergulhar em tua boca louca,
e renascer fêmea completa...
em teus vãos.
P.112.Poesia se Esfrega nos Seres e nas Cousas - Adalgisa Nery
Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma virgem esquecida?
Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um reptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgastes diante de um avião
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha!
P.111.Poesia Entre o Cais e o Hospital - Adalgisa Nery
Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.
P.110.Poemeto Rural - Abgar Renault
Amplo dia ardente de sertão.
Sol queimante de verão
fuzilando auriluzente,
em setas nos olhos da gente.
Toadas longínquas de trabalhadores no eito.
Gado engordando lentamente no pastinho estreito.
Gente engordando sonolentamente dentro de casa.
Sombras chatas de árvores estendidas no chão... Um ruflo célere de asa
riscando, às vezes, o ar parado. Silêncio longo. Soledade.
Monotonia do sertão... Monotonia da felicidade...
P.109.Poemeto Matinal - Abgar Renault
O ar da manhã beija a minha face.
A minha alma beija o ar leve da manhã
e olha a paisagem longínqua da cidade,
que branqueja alegremente na distância
e sorri humanamente
um sorriso branco no caiado das casas
que montam os flancos das colinas azuis
e espiam pelos olhos escancarados das janelas.
7 horas. Vai começar a função.
O despertador das sirenes fura liricamente
o silêncio doirado da manhã.
Parece que a vida acorda agora pela primeira vez
e esfrega os olhos deslumbradamente...
Meu Ford fordeja dentro da manhã
e sobe a rua velha do meu bairro,
arquejando, bufando, fumando gasolina.
Meu Ford a cabriolar nos buracos da rua descalça
é um cabrito todo preto a cabriolar, prodigioso.
O ar leve beija o radiador
e beija a minha face.
A meninice de todo o meu ser
na doirada névoa desta manhã!
P.108.Poemeto III - Ana Paula Moura Moraes
Beijo doce, beijo molhado, beijo roubado.
Beijo quente, beijo ardente
que me fez tremer
Ah! quantos beijos trocamos.
Minha boca, tua boca... era uma coisa só.
Se o futuro ajudasse e a ti eu encontrasse
ia fazer um único pedido:
um beijo e nada mais.
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