sexta-feira, 31 de maio de 2024
E.148.Escravos de quem - Um Poeta Vagabundo
Certas coisas em nosso mundinho não fazem sentido algum, e uma das que menos faz sentido é a divisão do trabalho, é nela que se encontra grandes injustiças. Há quem trabalhe pouco e ganha muito dos que trabalham muito e ganha pouco, há os que não trabalham e ganham, há os que produzem para ganhar e também há os que nada produzem e ganham mais que todos, essa espécie de parasita humana são chamadas de banqueiros, são altamente nocivos, os mais venenosos são relativamente raros, e obedecem uma hierarquia severa, costumam se associar a outras de poder semelhante, para juntas dominarem mais e mais grupos. Existem várias outras espécies de parasitas humanas, como políticos, religiosos, sindicalistas , industriais etc, mas o foco é a exploração do trabalho e não os exploradores, então...estamos tão acostumados com essa exploração que nem nos damos conta que são sete dias da semana e só não trabalhamos em um, é uma baita goleada 6x1, seria bem mais equilibrado se fosse 4x3, trabalhamos por doze meses para ter direito a um mês de férias, seria bem mais equânime se fosse 9x3, mas é uma outra baita goleada 12x1, com tanto tempo sendo gasto em trabalho, condução, cursos preparativos etc , que não é de se admirar que o nosso ‘mundão véio’ de guerra esteja esse caos, essa loucura doentia, essa luta por uma existência vazia, uma existência sem existência, baseada no ter isso, ter aquilo, poder isso , poder aquilo, dominar esse ou aquele. Somos escravos de nós mesmos, das necessidades que criamos e das necessidades que criam para nos atrair para essa roda viva, que nos pega a cada novidade de computador, telefone, i phone, i pad, smart phone, e grifes de roupas e calçados, de restaurantes e carros e rodas e TV’s e tantos outros aparelhos e tantas coisas e tudo isso para ficarmos cada vez mais longe, mais cegos para realidade do mundo, mais distante da terra, do céu, do ar livre,das plantas, dos animais, das pessoas. Bom será quando essa corrida para lugar nenhum acabar, que o ser humano se torne mais humano, que haja uma revolução e a espécie re-evolua, e perceba que somos animais neste jardim que chamam planeta Terra, e somos o animal responsável por sua degradação, um animal que mata e agride seus semelhantes para defender valores e propriedades, mesmo sabendo que d’aqui não levamos nada, e tão cegos por essa busca insana , que esquecemos as palavras de um mestre nos ensinou que temos que ter tempo para o trabalho e também para se sentar a sombra de uma figueira para meditarmos . e se assim fizermos, estaremos libertos da escravidão do trabalho excessivo, e não nos deixaremos sermos arrastados pelas correntes do materialismo, das modas, do poder, do status, das manipulações daqueles que nos incute desejos que não preenchem o vazio que gera uma existência voltada para o trabalho.
E.147.Errante - Um Poeta Vagabundo
Sou só um pobre fodidoficando velho.quando eu crescertalvez erre menos...pensavanão quero mais ser adultonunca quisno fundo sempre fui...não quero reconhecermas dentro da minha criança sempre houve um adultohá uma criança em mimhá o coraçãoa dor, a resignaçãoa saudade ou martírionão cabem dentro deleque de aberto transbordousó ficou o mais pesado
o mais presado dos desejos
a vida se apresentae eu me apresento...como um passageiro(clandestino...é verdade)...desta nau a céu abertodeste vento virador de páginasdestas linhas que traçosem saber do dia de amanhãsó sabendo a frágil ponteque nos separa da vidae da morte.
E.146.Elementos - Um poeta vagabundo
Elementos
Um Poeta Vagabundo
Do Sol que existe
Em mim um céu
Habita o mar eterno
Da vida, haja mais vida
Sob o Sol que subo
É meio dia
Terra e água gira
Em ar calor
Energias.
E.145.Encanador - Eliane F.C.Lima
Entrava na casa das pessoas. E ia para as partes mais íntimas de suas casas: cozinha, banheiro. Podia ser uma visita rápida, mas era raro. Normalmente, passava o dia todo, às vezes dias. E ia para as partes mais íntimas de suas vidas: ouvia tudo o que se passava ali, sem querer, sem pedir. Depois de uma visita dessas, raramente olhava para as pessoas e as via do mesmo modo que antes. Filósofo, descobriu logo que aquilo que entupia e vazava não eram os canos de muitos anos, apodrecidos e embutidos nas paredes. Mais antiga, pré-histórica era a alma humana, corroída por suas velhas e eternas questões. Para essa, ele não tinha solução.
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E.144.Eternidade - Eliane F.C.Lima
Parado ali. Esperava o momento entre dezoito horas e dezoito e trinta. “Desce alegre e sorridente, os homens todos em volta, 'colegas de trabalho', diz. Homens. Ela adora homens.” Faltam três minutos. Debaixo da camisa: “Esse peso apertando a barriga.”. Apalpa. Tem de estar à mão. Para puxar. Às seis e meia. “Vai funcionar? Será que eu sei?”. Quer ver o sorriso morrer na boca. Entre seus homens. “Só colegas de trabalho!”. Vagabunda. Olha o relógio: faltam ainda três minutos? Esse relógio não anda. “Está parado?”. O ponteiro de segundos pulando, alegremente. “Ainda bem: faltam três minutos.”. Um grande frio na barriga. Medo enorme. O frio é por dentro. Não é do estorvo enfiado pelo cós das calças. Aguentou tudo. Ver a cretina sempre cercada de homens, quando ia buscar. “Você é ciumento demais”, ouviu. “É obsessivo”, “É doente, procure um médico”. E os homens. Sempre os homens. Raramente via uma mulher ao lado. “Não aguento mais você!”. Um dia chegou, ela tinha ido embora. Era aquilo que queria. Ficar solta, ficar livre. E o doente era ele. Ele é que aguentou muito, aguentou tudo. Todas as humilhações. Agora é o fim. “Faltam dois minutos?”. “Faltam dois minutos!”. Suspirou aliviado. Não sabe o que vai haver depois. “Não importa!”. Olha o relógio: faltam dois minutos para se livrar daquele desespero, dia e noite, dia e noite. Mesmo estando em casa, representava mentalmente a desgraçada saindo pela porta do edifício, rindo-se com seus homens. Lá dentro é o escritório. “Imagino o que fazem ali.” “Agora que está sozinha, deve ir-se deitar em lugar mais confortável.” Morde a ponta dos dedos, arranca pele, que sangra. Apalpa a cinta. “O médico está aqui na cintura. Um homem precisa de paz. Ainda não são seis e meia. Ela deve estar saindo. Aperta os olhos turvos, tontos. “Ela... os homens!!!” Ouviu o tiro. Nem sabe de onde saiu
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E.143.Extrema ingenuidade - Eliane F.C.Lima
Comunidade muito pobre, nenhum aluno tinha dinheiro para comprar livro para leitura. Estratégia da professora: dividia a turma em grupos e emprestava um livro seu para cada grupo. Depois, propunha uma atividade.
Segunda-feira, caminhando em direção à escola, lá vem os três afobados. Queriam saber do resultado do trabalho entregue. Paciente, a professora diz que tinha sido muito ruim, um texto sem pé nem cabeça. Eles não tinham lido o livro. Protesto dos meninos: "Lemos, sim, lemos, sim."
Boca aberta, a professora ouve a argumentação dos garotos, muito convictos:
- Eu li da primeira página até a página cinquenta; o Rodrigo da página cinquenta até a oitenta; o Alexandre dali até o final!
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E.142.Ermitão - Eliane F.C.Lima
Tinha passado por aqueles reveses terríveis que só a vida sabe inventar. No último, nada mais que um barquinho à vela no meio de um furacão em alto mar. De repente, quando veio uma onda maior, sua alma caiu no meio da voragem. Não emergiu mais... Desesperado, sem rumo, sentia-se perdido numa ilha. Resolveu aproveitar o mote. Comprou uma barraca de camping, cobertor e tudo o mais, muito repelente, colocou as contas em débito automático, fechou o apartamento, e se embrenhou pela floresta da Tijuca, panelas e tudo mais nas costas. Cuidadoso, foi marcando o caminho para voltar, quando preciso. O cuidado para não se perder de vez – perdido já estava, na verdade – ajudou muito a começar a se equilibrar. Pensar em alguma coisa completamente diferente de sua vida, em alguma coisa concreta, foi o começo do remédio. Passou a morar na barraca, bem escondida, cobertinha para não chover dentro. Fazia sua própria comida, fogãozinho a gás, para não incendiar tudo. Passava muito tempo sem ver ninguém. E era pássaro, inseto de todo tipo. Nadava em uma cachoeirinha perto, água gelada que só vendo, corpo nu. Pegava dali para cozinhar, lavar roupa. Para beber, trazia um garrafão de vinte litros, lá de baixo. Porque descia uma vez por mês, para ir ao banco conferir a aposentadoria e comprar mantimentos. Passava em um barbeiro, cortava o cabelo, o máximo de urbanidade que conseguia agora. Naquele dia, dormia em um hotelzinho barato. De madrugada, ia ao apartamento só para conferir tudo. De manhã, café em uma padaria desconhecida. Um dia, em sua floresta, braços abertos de preguiça na manhã que raiava, ouviu um barulho perto, no meio do mato. Deu um passo atrás, escondeu-se atrás de uma árvore. Viu, com surpresa, sua alma meter a cara entre duas enormes moitas, risonha e desafogada.
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E.141.Eva - Eliane F.C.Lima
Era um sítio pequeno, gente muito pobre. Pouca chuva. Uma ou outra plantação vingava. Mal dava para comer. E alimentar as várias bocas. Umas galinhas ciscadoras. Dois galos magros. Comiam o que achavam. Quase nada. Mas assim mesmo, os ovos salvavam a fome. O pai caladão avisou à mulher: queria braços machos para ajudar. Desde a primeira gravidez, ele esperava um filho homem. A partir da terceira, já amarrava a cara, comunicado que era mais uma menina. Não entrava mais no quarto. Levava quase um mês para dirigir a palavra à coitada, que além da fome, das dores, dos trabalhos com o bebê e com as outras filhas, ainda carregava a culpa. Cada vez que se sentia prenha, entre a esperança do filho homem e o medo do desfecho. A cada nova menina, mais ódio do marido para si e para elas. Não adiantava as pequenas madrugarem, trabalhadeiras, irem ajudar o pai, fazendo mais do que o possível, sem uma palavra de revolta. Eram responsáveis pela seca, pela terra árida. Ele nunca olhava direto para elas, ordens dadas de cabeça baixa. A mãe achava que ele nem sabia seus nomes. Custava a ir à cidade registrar, indiferença pela nova criança, capim ruim brotado entre as pedras. À noite, à mesa, comia mudo, olhos fitando o nada. Era como se estivesse só. As meninas também nada falavam, temendo o pai. Logo que ele ia para a cama, conversavam baixo, até sorriam. Mas não aguentavam muito, o corpo moído, sem condição de aproveitarem um pouco mais a felicidade de estarem sós, serem mulheres. No quarto parto, avisado do sexo, saiu de casa e voltou apenas no dia seguinte, bêbado, o que nunca tinha feito. Quis bater na mulher e nas três filhas maiores. Nunca falou com o bebê; não fosse a mãe, cresceria órfã. Um dia, pensando a mulher que estivesse já livre daquela tortura, muitos anos transcorridos, viu as regras faltarem. Escondeu sua descoberta, mas logo que a barriga começou a crescer, viu-se examinada pelo homem, coisa que há muito não ocorria, usada no sexo da mesma maneira bruta dos galos com as galinhas no terreiro. Os padecimentos do estado acrescidos pela tensão constante, o pavor do dia do parto, as filhas incluídas no sofrimento. Sem esperança alguma. Nas primeiras contrações, engoliu o lamento na boca, as dores menores do que o medo. Aguentou o quanto pôde, o marido e as filhas saindo para a roça. Quando foi a hora, deitou-se na cama e fez, sozinha, nenhuma surpresa e imensa aflição, a quinta filha nascer. Pisada forte do marido, agarrou-se à criança. Ela sabia de tudo. Não vendo a mulher na cozinha, ele irrompeu no quarto. Um safanão jogou a mãe desesperada para trás. Arrancou a criança, examinou-a, levando embora. As quatro filhas, estarrecidas em um canto, tremiam e choravam, ouvindo os gritos da mãe. No terreiro, montado o burro magro emprestado, sumiu na poeira. Na estrada para outra cidade, desceu e esperou. Fez sinal para vários carros. No primeiro que parou, tirou o chapéu em cumprimento. Mentiu: era muito pobre e tinha quatro filhos. Sua mulher, acabada de dar à luz, morreu em seguida. Sem mãe e leite, a pobrezinha também ia morrer dali a poucas horas. Por Deus, fizesse a caridade de levar e salvar aquela inocente alma. Tudo voltou ao normal. Menos a mulher: olhar para longe, fala sem nexo. Foi substituída na cozinha pela mais velha. As meninas cercando a mãe de carinho, se podiam. Penteando os cabelos já embranquecendo. Coisa de dois anos, surpresa e revolta, o ventre da louca se avolumando. Agora o desespero era delas, alheia a outra. Nos primeiros gritos da mãe – quem sabe lembrando o ocorrido – a mais velha, sozinhas as duas, levou-a para a cama. Fez o parto da mãe quase desfalecida. A moça aparou um menino magrinho, choro forte. Deu um sorriso, Mulher no paraíso saboreando a maçã. Chegado o pai, ouviu o choro. Amarrou a cara: - É menino homem – avisou a irmã. Na cadeira, mão no peito, arfado forte. Entrou no quarto, a mãe amamentando começou a gritar. Entre os uivos da mulher, pegou a criança à força, sexo visto. Saiu do quarto com um largo sorriso na cara. Naquela mesma noite, a mulher morreu. Desesperado, ele correu toda a vizinhança procurando outra mulher parida. Coisa fácil de achar. Cresceu o menino. Alta a sua voz já esquecida, com ele o pai era outro, único pé de milho verde no meio da seca. As irmãs sempre na roça, a mais velha agora mãe do pequeno, agarrado em sua saia, fazendo sempre o que ela queria. Logo o filho foi junto para a roça, aprender a lida, sol a pino, terra seca. Mês após mês, ano após ano. Dia ainda escuro, pai levanta para o café. Filho já moço, bigodinho nascido, irmãs em volta. Sobre a mesa, uma mala velha. Do lado, comida amarrada, não para o eito. - Que é isso? – pergunta o homem, já velho. - Vou embora. Isso não é vida. Não quero morrer de fome aqui – olho rápido para a irmã mais velha, ela fixa nele. O homem levanta o rosto direto para as filhas, há muito tempo não faz isso. São tantas. Falta uma. Todas cabeças baixas. Só a mais velha encara. Vê prazer nos olhos dela. Bota a mão no peito. Custa a falar, mas o que sai, sai seco: - Daqui não sai! Preciso de você na roça. - As meninas fazem isso sozinhas. São elas que fazem o milagre, o pai não vê? Olha a irmã que vira o rosto firme para fora. Pega a mala, a trouxinha e sai rápido pela porta. Belo cabelo ao vento ainda frio. As irmãs viradas para o terreiro. Acenando. No meio da pequena sala, um baque. A primogênita olha para trás: o roceiro caído, mão no peito, boca roxa, cara franzida. Erva daninha arrancada, murchando ao sol. Volta-se para a frente, sacode o braço com mais força para o rapaz que já vai sumindo na poeira do caminho.
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E.140.Esotérico - Eliane F.C.Lima
Desde o começo da aula, ele não queria escrever, amuado e encolhido.
Instado, disse que estava com muita dor de cabeça. A professora segurou a mão do menino. Começou a fazer uma massagem oriental para diminuir a dor.
Massageou vagarosamente. O menino quieto, olhinhos fechados, sorriso na boca.
Perguntado se a dor tinha passado, cabeça que não!
Movimentos circulares, a dor não passava nunca. Professora desconfiou de malandragem.
Finalmente, ele assentiu e começou a fazer os exercícios. Na hora do recreio, sala dos professores, deram informação.
Irmão de mais quatro e pais separados, cada um deles levou dois filhos.
Ele, o mais velho, sobrou e foi para a casa de duas tias solteiras, que reclamavam da herança humana e do dinheiro, que não recebiam,
para sustentar o garoto.
Ameaçavam todo dia devolver o pequeno. Só então a professora entendeu: o que tinha resolvido era o carinho ocidental.
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E.139.Encontros - Cecília Meireles
Desde o tempo sem número em que as origens se elaboram,se estendem para mim os seus braços eternos,que um estatuário de caminhos invisíveisconstruiu com a cor e o frio e o som morto de mármores,para que em teu abraço haja imóveis invernos.
Tu bem sabes que sou uma chama da terra,que ardentes raízes nutrem meu crescer sem termo;adestrei-me com o vento,e a minha festa é a tempestade,e a minha imagem,como jogo e pensamento,abre em flor o silêncio,para enfeitar alturas e ermo.
Os teus braços que vêm com essa brancura incalculávelque de tão ser sem cor nem se compreende como existe-são os braços finais em que cedem os corpos,e a alma cai sem mais nada,exausta de seu próprio nome,com uma improvável forma,um vão destino e um peso triste.
Pois eu,que sinto bem esses teus braços paralelos,na atitude sem dor que é o rumo e o ritmo dessa viagem,digo que não cairei com uma fadiga permitida,que não apagarei este desenho puro e ardentecom que,de fogo e sangue,foi traçada a minha imagem.
Eu ficarei em ti,mísera,inútil,mas rebelde,última estrela só,do campo infiel aos seus escassos.E tu mesma achará pasmos de lagos e areias,diante da forma exígua,sustentada só de sonho,mantendo chama e flor no gelo dos teus braços.
quinta-feira, 25 de abril de 2024
E.138.Exaltação - Florbela Espanca
Viver!… Beber o vento e o sol!… Erguer
Ao Céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A glória!… A fama!… O orgulho de criar!…
Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extáticos, pagãos!…
Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!…
E.137.Emoção e Poesia - Fernando Pessoa
Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado.
A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstrata.
Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever.
Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto.
Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.
E.136.Eu cantarei de amor tão docemente - Luis Vaz de Camões
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que o amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.
E.135.Estar contigo - Suely Ribella
Estar contigo
é não ver o tempo passar,
não sentir o mundo girar,
é viver o amor e a paz,
o carinho e a paixão,
é sentir a emoção
em cada gesto, cada olhar,
é ser capaz de não lembrar
que o mundo não somos nós,
que a vida está além de nós...
Estar contigo
é ter a exata noção
que acabamos de nascer,
que não esperamos
por nada, por ninguém,
que tudo esperou por nós,
que sempre fomos nós,
sempre seremos nós,
sem começo, sem fim...
E.134.Exaltação do amor -
Sofro, bem sei... Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar... colher a flor...
Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!
Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...
Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!
Se esse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!
E.133.É ela! É ela! É ela! É ela! - Alvares de Azevedo
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...
Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre!
Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! É ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela - eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camizinhas!
É ela! É ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!
E.132.Eu, eu, eu, eu - Rosa Pena
Não aprecio aqueles que para valerem os seus direitos usam até de violência.
O motorista que se o sinal estiver aberto pra ele, atira o carro no transeunte para mostrar que ele está com a razão.
O inflexível na fila com um carrinho lotado que não deixa a moça com só um artigo passar, pois ela que vá para a caixa de poucos volumes.
Na sala de espera do doutor o senhor com o rosto contorcido de dor tem que aguardar, pois a vez é da senhorita executiva que não pode perder um segundo.
Aqui caberiam mil exemplos do “Eu estou correto, logo não abro mão de nada”, ainda que esse tipo de atitude sacrifique uma sociedade que poderia ser mais entrosada, atuante e menos agressiva.
Não tenho nada contra os direitos de cada um em si, mas a sua execução nas mãos de gente mesquinha é uma faca afiada.
Nada de concessões absurdas, mas vale lembrar o jeito debilitado de nossa vidinha por conta de uma altivez medíocre, que em vez de fazer valer à vera os direitos dos cidadãos, desmorona os princípios de coletividade.
quarta-feira, 24 de abril de 2024
E.131.Estrelas não ouço - Angélica T. Almstadter
Não Bilac, não ouço tuas estrelas,não que com elas não converse.
Há muito tento ouví-las, entendê-las;acho que minha prosa de nada serve.
Amar talvez não tenha aprendido;não de fato, para ouvir estrelas,diria que por certo tenho esquecidode acarinhar a alma para merecê-las.
Ora direis ouvir estrelas!
Invejo-te!Tão distantes dos meus olhares;não ouço ruído sequer!
Rogo-te!
Dá-me um tanto de teus sentirespara que um dia; eu as ouça.
Peço-te!
Caso contrário meu chorar há de ouvires!
E.130.Eva proibida - Cristina Pires
Eva proíbida
Cristina Pires
Dizia-me Sebastião, que deveria escrever -
Pelo menos, pelo menos! - uma crónica, ou conto, por mês.
Esta comecei-a há seis anos, e só hoje a dou por terminada.
Olha, escreve sobre a tua vida! Achas que a minha pouca vivência tem algo que possa despertar a curiosidade de um leitor? Vamos lá! ao menos um leitor, tens! Eu, por exemplo. Tu escreves, e eu leio. Para isso tenho que ter tempo, caneta, papel e ânimo. E neste momento sobeja-me, papel e caneta. Pois eu podia contar-te a minha vida, inteirinha! E tu, escrevias. Sobeja-me papel e caneta, repeti.
Tu lembras-te do Carlos? Devo ter ficado com cara de espanto. Olhe o leitor se eu lhe perguntasse se se lembra do Zé. Zés há muitos, sua palerma! - tenho a certeza que seria isso que pensaria. Um nome pessoal, só, torna-se impessoal, se não for acompanhado de um apelido que o valha: o Zé do talho, o Zé da mercearia, o Zé Favinha, etc., etc. Só para o meu tio Duarte, é que são todos Zé Maria do Pincel, quando não conhece o apelido que o valha.
Do Carlos Alberto, pá. Aquele que te esfolou o joelho quando eras miúda. O da Dona A.! Não me esfolou o joelho. Caí e esfolei o joelho por causa dele. Não é o mesmo. Ainda tenho a cicatriz. Aquele, sim, é que era um mariquinhas. Sabes que se tentou matar duas vezes? Sei, ou já te esqueceste que vivia no prédio ao lado do meu? E, na primeira tentativa, quem ficou esfolada fui eu. Tudo por causa do Comandante Koenig, das luas e dos céus. Quem quase foi para o céu, foi ele, e eu para o purgatório porque me esqueci que a directora da escola queria falar comigo, e quase que não apareço. Que grande barraca foi aquela, hã? Pois foi. Ele tinha más notas, e o pai castigou-o sem o espaço. Não fez outra, enfiou um frasco de comprimidos goela abaixo, e cá vai disto ó Evaristo. E tu que foste a correr para falar com a directora. Se não tivesses um peso na consciência, não tinhas ido a correr.
Quase que lhe esmurrei a gargalhada. Estávamos, afinal, a falar de coisas sérias e antigas. Coisas com um quarto de melancólico século. Como o tempo se esvai...
Estou, agora, a lembrar-me dele, à varanda, no primeiro andar. Primeiro aparecia a mãe, e depois, ele. De tarde, cruzavam os braços e as pernas sobre uma mandriice descarada, e ficavam no parapeito da janela à espera dos burburinhos. Gostava de coscuvilhar, o malvado. Mas também era útil. Às vezes avisava a vizinhança, aos berros, quando chovia: - Ó D. Sara, olhe a roupa! D. Zezinha, tem o canário cá fora. Ó D. Maria do Carmo, está a chover.
A casa, sempre um brio. O meu Carlos Alberto, limpa a casa melhor que eu, dizia a Dona A. a quem a quisesse ouvir. Também me lembro, que era ele que assava as sardinhas. Punha o grelhador à janela, apoiado nos ferros da corda de secar a roupa. Depois, era uma azafama a limpar os vidros da marquise. Ah! mas não pense o leitor que o Carlinhos não avisava, antes, que ia assar sardinhas. Corriam a fechar janelas, com medo daquele cheirinho, que, agora, deu-me saudades. Coitado. Quantas vezes não lhe chamei borboleta e ele não se incomodava. Dizia-me que gostaria de ser uma: alegre e livre. Pior eram os que lhe chamavam menina Carlota. Cheguei a zangar-me com aquela malta. Até à porrada andei.
O gajo tinha jeito para o teatro, e para o ballet, não tinha? Pois tinha, mas proíbiram-no, que essas coisas eram coisas de menina. Fizemos teatro juntos. Então, eu não sei! E porque é que não continuaste? Até me lembro da tua mãe, sempre a dizer que tu tinhas muita queda para o teatro, só não tinhas era onde cair.
Desfigurei-o. Meti-lhe a mão à boca, desapertei-lhe as bochechas, enfiei-lhe o braço até às entranhas, e arranquei-lhe os bofes. Bofete-ei-lhe as gargalhadas insolentes. Na próxima crónica, mato-o, esfolo-o! Deixo-o como um cristo. Desvendo-lhe os mistérios, como ele desvenda os de Carlos.
Tu achas que ele já nasceu com aquela tara, ou...? Nã! Então, tu não sabes que a coisa pega-se? Tens com cada uma, Sebastião. Diz-me, tu eras muito amigo dele. Andavam sempre juntos... Chega para lá essa boca! Ele é que não me largava. Até para ir ao baile dos Penicheiros, tinha que ir com ele atrás. E de miúdas, nada! Aquilo afugentava as miúdas todas. Deixa-te de coisas. Bem que aproveitaste. Quantos copos é que ele não te pagou, diz-me? Ora, pagou-me o tempo que o aturei, e ainda ficou a dever-me.
Mas o tempo não queria aturar o Carlos, pensei. Não sinto pena dele. Sinto que não era compreendido pelo tempo, e que o mesmo ainda hoje lhe deve. Nunca ninguém lhe conheceu uma namorada. Amigos, tinha alguns. Uns para cada ocasião. Sebastião quando andava penado, achegava-se a ele. Outros... achegavam-lhe. Um, mais que os outros.
A segunda tentativa que fez para acabar com a vida, já era adulto. Saía furtivamente de casa, durante a noite, e regressava de madrugada, antes do acordar da vizinhança. A mãe fechava os olhos, mas o pai arregalou-os até ao branco, até ficar cego. Proíbiu-o de sair de casa, e de ir ver o Adão. Desta vez não engoliu comprimidos. Atirou-se da janela do quarto.
Para mim, nunca ele tentou matar-se, ou suicidar-se. Engraçado! Existe furtar e roubar. Furtar é apoderar-se de algo alheio, sem violência. Roubar, é subtrair para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência. Chego ao término desta crónica sem saber se Carlos furtou-se ou roubou-se. Uma coisa é certa: roubaram-lhe o paraíso.
E.129.Engasgado - Angélica T. Almstadter
Um sonho engasgado, dormiu no meu peito
Tantas pontas tinha o danado;
Que me fez em tiras, o peito dilacerado.
Dentro desse sonho perfeito,
Guardei desejos desesperados;
A fala rouca, a fina flor exposta
Em camadas mutiladas de saudade.
Doeu tanto que cresceu arranhado,
Apertado e sem proposta.
Quando me acenava de felicidade,
Na poça de sangue derramado;
Brindei com um aceno breve,
Cerzi os rasgos com coragem
E bem antes que recobre a razão,
Me espalho em pedaços na brisa leve;
Meu prenúncio de estiagem,
Recheado com acessos de solidão.
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