segunda-feira, 16 de outubro de 2023

C.126.Coração - Castro Alves


O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um – tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro – voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel – a que se chama “crenças”,
Vive do aroma – que se diz “amor”.

C.125.Comparação - Euclides da Cunha


“Eu sou fraca e pequena…”
Tu me disseste um dia.
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,
Que em mim se refletia
Amargamente amena,
A encantadora pena
Que em teus olhos fulgia.
Mas esta mágoa, o tê-la
É um engano profundo.
Faze por esquecê-la:
Dos céus azuis ao fundo
É bem pequena a estrela…
E no entretanto – é um mundo!
Euclides da Cunha

C.124.Canção do Amor Imprevisto - Mário Quintana


Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

C.123.Civilização - Pastorelli


Civilização será,
Morar na mata selvagem de concreto;
Ouvir o grito ressoando sem ser ouvido;
Ou o tropeçar constante no semelhante,
E o mentiroso cuspindo no próprio ser gerado?

Civilizado, o que é?
Será o traiçoeiro matando para não ser matado,
Ou o assassino fugindo dos algozes e da justiça?
Será o egoísta vendendo a alma ao diabo,
Ou o ganancioso roubando para não ser roubado?

Civilizado será
A crise insuportável no sobe e desce,
O medo escondido de ser traído,
Ou o dormir nas sarjetas imundas,
E o sorrir da criança pedindo esmolas negadas?

Civilizado, o que é?
Será a prostituta se oferecendo a cada esquina,
Ou o trombadinha na multidão afanando?
Será o brilho da faca riscando o ar,
Ou o sangue no chão esborrifado?

Civilizado... será,
A amante jogando no rio o amante cortado,
O marido traído batendo na mulher traída,
Ou a garrafa vazia numa boca a blasfemar,
E os veículos respeitáveis atropelando
Transeuntes descuidados?

Civilizado...o que é?
Será o vício tresloucado na mente dos filhos abandona­dos
Ou a rapinagem dos grandes a engordar?
Será o político falando manso a enganar,
ou as leis absurdas não respeitadas?

Civilizado será,
O progresso derrubando o que não é para derrubar,
O desmatamento sem necessidade,
Ou o morticínio dos animais,
E o índio queimado?

Civilizado será,
O poeta e seus poemas,
A escrita denunciante,
Ou a boca que nunca cala,
E a imprensa ultrajante?

Civilizado, meu Deus, o que é?
É isso tudo ou é uma
Desesperança esperançada
Na fé nunca perdida
E a crença na vida?

Civilizado, ah! Civilizado!
É o amor sempre procurado.
É o filho nascendo.
É o esplendor da velhice surgindo.
É a morte... sempre chorada.

C.122.Corpos - Pastorelli


Nos desenhos geométricos
A cortina rasgada
pelo tempo perdido
Deixa o clarão
da lua penetrar
No quarto de diáfana luz
Inusitados desenhos lambem
Teu corpo ao meu lado nu
Teu meigo sorriso invade
O vislumbre das
estrelas distantes
O vento afasta a cortina
Numa refrescante sombra
Num vai e vem delicioso
De carícias em teu peito
Em teu rosto
Em teus olhos
Em teus cabelos
Entre tuas coxas
Perde-se no escuro emaranhado
De pêlos suaves e doces
Permanecemos imóveis
No silêncio de nos dois
Corpos colados flui
Sensação do meu ser
Para o teu ser
Adormecemos abraçados
Na luz da lua...

C.121.Canto um - Pastorelli


Perseguindo-me tenho a vida cheia de pedras e suores, onde procuro desbastar as arestas entulhando o restolho na lixeira do passado; onde o alimento das amizades cria as desilusões de um amor talvez perdido. É uma ressonância de ecos que se misturam a outros ecos vibrando quase na mesma sintonia que vejo fugir o presente por entre os dedos calejados de melancolia. Mesmo assim resisto com moderada valentia me embebedando com a beleza da manhã que se inicia.

C.120.Cidade de alvenaria - Pastorelli


Na fria cidade
Procura-se o álgido amor
Mas o IRA medra ao apagar
Das luz os olhos que se calam
E os mortos choram
Nos escombros entre pontiagudas
Pedras de alvenaria
As almas se machucam
Em infrutíferas tentativas de viver
Mas a solidariedade
Tem olhos apagados
E para a cama ensangüentada deitam
Os corpos desfalecidos de amor
Em fuga desabalada
De si próprios em noites perenes


Na fria cidade
Onde se procura o álgido amor
O ensurdecedor estrondo
Dinamita o puma
E de vermelho é tingida a rua
A escuridão invade o que retorna
Na espera de sermos levados
Ao vértice do ômega fetal
Assim seremos o que somos hoje
O evolutivo ovo do esquecimento fluindo
Toda a amálgama da isolada vida
Vida que se encontram, se abraçam
Em felicitações mil


Na fria cidade de alvenaria
Não se procura mais
O álgido amor
Pois, mais uma vez fenece o ano
As bombas matam ainda inocentes
Tiros festivos fuzilam crianças
Braços esticados nas calçadas
E nas ruas de alvenaria
Rolam Cabeças Cortadas
À cada dia aprisionados


Na cidade de alvenaria
O álgido mor assassinado
Por balas é indiferentes
Praguejam seus mortos
.... e calam-se.....

terça-feira, 10 de outubro de 2023

C.119.Canção concreta - Pastorelli


A canção
cantada
forma
figura
da mulher
amada
ficando
formada
na letra
da canção
figurada
em forma
de canção
cantarolada

terça-feira, 26 de setembro de 2023

C.118.Cochichando - Rosa Pena


Em suas mãos (bem escondidos) permanecem cativos os fios do tempo (em que sonhávamos).
Eles não se rompem (nem se romperão) e se confundem com as linhas de vida da sua palma.
A distância entre seus dedos é igual a nossa (pequena e grande) e eles (por hora) não fazem o V da vitória.
Estão sem a alegria de outrora.
O amor nos deixou frágeis (sempre deixa), sem a coragem de sermos o que fomos até ainda pouco (nós nos achávamos uma fortaleza).

Em suas mãos (bem escondidos) os fios farão uma ramagem que você sentirá quando eu (volta e meia) aparecer em suas lembranças (não vou deixar você me esquecer).
O amor desconhece o prefixo ex, (quando verdadeiro, ainda que passageiro).O nosso é.

C.117.Caça - Pastorelli / Ana Luísa Peluso


Sejamos a caça
Já nada podemos fazer
Enquanto presas
Que somos.

Até o dia da liberdade
Que concederemos
A nós mesmos:
Nossa liberdade.

E então cantaremos
A nossa realidade.

Em ecos de gritos
Para humanidade
Contando os dias
Antigos,
Nossa vaidade
Que agora, apenas história
- e seus covardes -
fizeram da glória
de nós cidadãos,
apenas punhado
de alavãos.

Sejamos a caça
A caça atraente
Há mais graça
No viver pulsante
Mais atrativo
Há mais prazer
Convidativo
Desde que nós não
Nos entreguemos numa
Bandeja de prata.

É... sejamos enfim, caça.
Só de pirraça.
Do passar dos dias.
E vejamos do que trata
a tal caça e com quem.

E preparemos o alvo
para não ser bombardeado.
Que seja avisado
de antemão!
Para não sermos comidos
faz-se necessário conhecer
o inimigo.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

C.116.Celebração da Realidade - Rosa Pena


Ele se foi sem se despedir dela, caso contrário Ângela teria lutado para que ele não partisse. Seu filho morreu por conta de um marginal que o assassinou por um celular Vivo, o aparelho, seu menino Morto.

Ela não consegue sentir vontade de indultar quem o matou. Sente muita raiva do marginal -bomba, dos malditos direitos humanos que insistem em só abraçar a escória.

Ângela virou uma nuvem carregada de tristeza, uma neblina ambulante com constantes chuvas na menina dos olhos, que agora virou uma velha quase cega.

Mas, além da perda do filho (como se fosse pouco), ainda é obrigada a conviver com a culpa de não saber perdoar, de ter pensamentos de vingança. Sim! A paranóia reinante é não se enlutar, não dar vazão ao choro, que dirá desejar o pior para aquele que acabou com sua vida. Faz mal!

A quem? Isso de negatividade atrai! Atrai o quê?

A Márcia Cabrita (atriz), recentemente numa crônica, afirmou que não nasceu para ser heroína. Ela não tirou de letra o câncer que apareceu em seu ovário. Não conseguiu imaginar a quimioterapia como uma viagem à Disney. Chorou todas e mais algumas e ficou muito grilada com seu justo sofrimento, pois diziam para ela, que só sobrevivem as doenças, pessoas de alto astral. Fique muito doente e sorria. Sofreu duplamente por não conseguir encarar um câncer com otimismo. Faz mal!

A quem? Isso de negatividade atrai! Atrai o quê?

Quando eu parei de fumar entrei numa depressão terrível e não consegui sentir a tal felicidade que os “fodões” garantem como certa.
— É uma delícia viver sem nicotina! Estranhamente eu só conseguia pensar no Fernando Pessoa com o olhar entre fumaças na Tabacaria.

Já se passaram trinta meses e agora gosto demais do meu cheiro e de menos de minha contradição ao sem lenço e sem documento. Meu cagaço venceu minha liberdade. Costumo dizer que vou voltar a fumar quando completar setenta e cinco anos. Já ouvi diversos avisos: Cuidado com esses pensamentos contrários, pois assim você volta agora ao vício. Faz mal!

A quem? Isso de negatividade atrai! Atrai o quê?

Atrai. Atrai. Atrai! Afinal... Atrai o quê? Castigos?
Quanta presunção dos mortais! Desde quando Deus classifica quem vai se dar bem ou quem vai só sofrer? Ele tem suas razões que a nossa razão desconhece. Que fé é essa que obriga as pessoas a mascararem seus sentimentos?

É permitido, mais ainda, é saudável chorar de dor, de medo, temer a morte, pedir castigo para o algoz que lhe feriu, sonhar que o ex morreu, ficar injuriada de abrir mão de um prazer e apesar de tudo acreditar que as coisas ruins acontecem assim como as boas num sistema de cotas. Cada um tem as suas.

Ele pode (sensação que vem com o luto) ter perdido a mão numa tela, mas a aquarela permanece com todas as cores e certamente novas serão pintadas com cores vivas, bem vivas como a Vida.

C.115.Cadê - Pastorelli


Com passos pequenos separando uma perna da outra em passadas férteis de sono, ele andava dentro da sua condição de humano apenas para constatar sua existência no mundo. Mas não se chateava, tendia às vezes para uma excêntrica depressão aos poucos eliminada no correr do dia.
Fazia frio. Enfiou as mãos nos bolsos da calça
Tiritava, não conseguia soltar os músculos que tensos fazia seu corpo tremer alucinado. Nunca gostou do frio. O vento gelado cortava sua pele adormecida feito gelo.
Com o dedo enluvado comprimiu o botão chamando o elevador. Droga! Chegara na hora do pico. Os elevadores vinham abarrotados. Às vezes era obrigado a esperar três, quatro ou cinco elevadores, e assim mesmo quando conseguia entrar.
Por incrível, naquele dia entrou no primeiro. Estava vazio! Não tinha ninguém! Apertou o botão. A porta fechou e ele encostou-se ao fundo. O elevador subia silencioso, lento, quase não se sentia seu movimento. Parava em todos os andares. E o gozado é que ninguém subia.
Ele estava completamente sozinho...
Foi sua constatação quando saiu para o corredor. Tudo vazio. Onde estava o pessoal? Normalmente essa era a hora intensa de um vai e vem de funcionários...Será que é Domingo? Não, não poderia ser! Será!?!? Ter-se enganado?! Continuou andando. No fim, virou à direita. Vazio!? Estranho! O que acontecia?
Não, só pode ser Domingo. Olhou o calendário. Não, não era Domingo. Era Quarta-feira, dia 20. Então onde estava o pessoal?
Indeciso parou um instante diante da porta. Quando estendeu a mão para girar o trinco, de supetão a porta foi aberta. Ele precisou recuar dois passos para trás. Quase cairá. E no susto, pego de surpresa, não conseguiu ver quem tinha saído.
Respirou. Abriu a porta e entrou.
A sala estava no maior silêncio. Para seu alívio não era Domingo, não. Estavam todos ali, sentados em suas mesas trabalhando. Todos de cabeça baixa sobre os papéis. Ninguém parece, notou a sua entrada.
Encaminhou-se para o seu lugar. Era dificultoso, pois as mesas estavam quase encostadas umas as outras. Havia um exíguo corredor entre elas, que mal dava para passar. E o seu lugar era quase perto do banheiro, logo depois da loira.
Ninguém notava sua presença, nem o pessoal que por qualquer coisa insignificante, gostavam de fazer piadas, tirar sarro. Estavam todos silenciosos, quietos, dava até nos nervos. Talvez estivessem de mau humor.
Com muito custo chegou ao seu lugar.
Parou... Surpreso o seu lugar estava vazio, sem a mesa. Olhou para os lados pronto a reclamar. Ninguém parecia nem vê-lo, mesmo assim perguntou:
- Cadê a minha mesa?
Silêncio. Não ouviu resposta.
Perguntou mais uma vez:
- Cadê minha mesa?
Novamente o silêncio.
Virou para a loira tocando seu braço.
- Onde está a minha mesa?
A loira nem se mexeu, continuou carimbando os papéis. Dirigiu-se ao rapaz.
- E você! Pode me dizer alguma coisa a respeito?
O rapaz olhou para ele com um olhar perdido na distância além dele. Seguiu o olhar do rapaz e viu o gerente fazendo sinal. Será que é comigo? Pensou. Foi até o chefe. Talvez ele tenha alguma explicação para dar, quem sabe?
- Pois não... Cadê minha mesa?
O chefe olhou para ele com um olhar duro
- O que o senhor faz aqui?
- Ora! Que pergunta, chefe! Vim trabalhar. Hoje não é Quarta-feira? Então, vim trabalhar...
- Acontece que vou lhe fazer uma confissão, meu rapaz.
- Que confissão, chefe?
- Desde ontem o senhor não trabalha mais aqui, o senhor foi despedido.
- O que?
- Não te comunicaram? O senhor foi demitido, mandado embora, rua...
Diante da mudez dele continuou
- Vá embora que esta atrapalhando os que querem trabalhar.
Deu as costas para ele e entrou na sala deixando-o no meio da seção. Com passos pequenos separando uma perna da outra andou dentro da sua estupefata mediocridade, saiu da sala.
Ninguém mais soube dele.
E creio que nem ele mesmo soube.

C.114.Crepúsculo da vida - Lucelena Maia


Quando eu respirar novos ares no remanso de diferente poente com sol entardecido, morrente, eu saberei de outros lugares...
Talvez eu me veja num jardim envolvida por flores infinitas rodeada por pessoas em visita ou por, entre, anjos querubins
Florirei essa nova morada com as mais belas poesias dos cochichos de meus dias com minha alma inspirada
Serei feliz nos braços da lua, se não chorarem a minha paz, na lápide, mandem crivar; mais uma alma que perpetua...
Com lembrança tenra e serena, os homens de boas entranhas brindarão o meu adormecer louvando o verde das montanhas.

C.113.Crepúsculo em branco - Lizete Abrahão


Se eu amanhã me for, o tempo é a mortalha,
Meu corpo nu volta nu de onde veio,
Nada mais a cobrir-me, a noite me agasalha.
E não lamentem, vou feliz com o que creio...
É o meu ocaso, hora em que quero dormir
Por trás das tardes dos meus dias exauridos.
Que seja cor de sangue o véu a me cobrir,
Igual às nuvens sobre os mares incendidos...
Silêncio é o que peço, não quero blasfema ,
Para eu poder ouvir o canto de um pardal,
Esqueçam preces, diga um poeta um poema,
Na sua voz serei princípio e meu final...
Quando eu me for, e pode ser amanhã mesmo,
Saibam que deixo aqui meu único lamento:
O de ter sido um verso branco escrito a esmo,
Sem poesia que me seja luz e relento.

C.112.Calmaria - Conceição Pazzola


Na casa vazia ao sol clamei
Por luz e calor esquecidos
Em portas e janelas fechadas
Há muito tempo perdidos

Na casa vazia em vão busquei
Por um brilho de teu olhar
Nem as estrelas fulgurantes
Com mil fagulhas radiantes

Poderiam se equiparar
Clamei na casa vazia, esperei!
Indícios de risos aconchegantes

Nem as musas de belas canções
Com suas vozes mais delirantes
Devolveriam ao seu lugar
Na casa vazia ainda uma vez
Anseio pelos passos e abraços
Daqueles a quem tanto amei.
Nem os sons mais suaves

Mostraram o mais leve traço
Pela casa vazia ecoa a pergunta
Onde se perderam os meus laços?
Encontro o céu de nuvens juntas
São elas as moradas esparsas?
Procuro agora a fórmula mágica
Capaz de levar-me ao espaço.

C.111.Com o sol em capricórnio - Clóvis Campelo


Vocês verão
com o sol em Capricórnio,
vocês verão
com o sol nos olhos dela -
janela da alma,
tranquila, serena
e calma -
que o passado
é tão somente
um velho filme
guardado
nos porões
da mente
e se agitar
é lance
de Sagitário.
Pois é preciso coragem
pra mexer
no lado acidental
dos corações;
pois é preciso coragem
pra mexer
no lado ocidental
de velhas transações.

C.110.Crepúsculo de um onanista - Herculano Alencar


Tocava na fanfarra da escola
um instrumento tosco qual cuíca.
No vai e vem fazia pulitrica,
como se suas mãos fossem de mola.

Era um menino feio e bom de bola!
Nunca sentiu olhares de desejo!
E se alguém um dia deu-lhe um beijo,
prendeu-lhe o passarinho na gaiola.

E foi crescendo enquanto inda tocava,
e foi tocando enquanto inda crescia,
até ejacular, em poesia,
as musas que pra si imaginava.

Hoje, que já não toca na fanfarra,
faz farra nas sessões de terapia.

C.109.Catarse - Angélica T. Almstadter


Será que deveria revelar meu disfarce, Expor de cara lavada meus dotes tímidos? Talvez assustasse meu medo e a catarse Que escondo atrás desses gestos insípidos.

Delicadeza de palavras morrem à míngua, Onde a presença nem sempre se nota. Sobra hipocrisia quando falta papas à língua; Circo e platéia para o bobo da moda.

Não vale um tostão a vaidade da verdade, Só há mesmo escombros na realidade, Que vale tão menos que a sinceridade...

Pois que morra como nasceu o segredo; Forte e imbatível como um rochedo, Hoje não faz mais sentido tanto medo.

C.108.Caminho, Pedra, Pensamento - Lucelena Maia


Passo
Apressada
terra "pisada"
pedras   pesadas
Atropelando
caminho
 
Piso
Nas grandes
Chuto
As pequenas 
 
Passo
Lento
terra "pesada"
pedras   pisadas
Atropelando
Caminho
 
Piso
Nas pequenas
Recolho
As Grandes
 
Passo
e   Piso
Chuto
e   Sinto      
Pedras
Atropelando
Pensamento...

C.107.Com a alma seca - Lucelena Maia


Na secura da inspiração tenho vivido
Há mais tempo do que tu, amigo poeta
A sofrer de fome, diante de tanta dieta
Porque versos não me são servidos
 
Já penso em procurar a um doutor
Que diagnostique o que há comigo
Em não havendo cura, saiba meu amigo
Deitar-me-ei no horizonte do labor...
 
Na seca imagem poética viverei
Como de seca alma vive um fora-da-lei
Assaltando versos de outros poetas
 
Para enxergar no pôr do sol alheio
A inspiração que não me vem do seio
Mas embala-me de forma discreta.