segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

S.162.Suspiro D'alma - Almeida Garret


Suspiro que nasce d'alma,
Que à flor dos lábios morreu...
Coração que o não entende
Não no quero para meu.
Falou-te a voz da minha alma,
A tua não na entendeu:
Coração não tens no peito,
Ou é dif'rente do meu.
Queres que em língua da terra
Se digam coisas do céu?
Coração que tal deseja,
Não no quero para meu

S.161.Súplica - Adelino Fontoura


Por mais que aspire ou queira, anele ou tente
Esquecer-me de ti - jamais me esqueço,
Ó bem amado ser por quem padeço,
Por quem tanto soluço inutilmente!
Bem que eu te peça, foges de repente,
E só me fica a dor que te não peço;
E eis tudo, ó céus! eis tudo o que eu mereço,
Em paga deste amor tão puro e crente.
Se te não move, pois, um desafeto
E se te apraz ao menos consolar
A desventura amarga deste afeto,
Ilumina com teu divino olhar
Esta alma que os teus pés, anjo dileto,
Vem, banhada de lágrimas, beijar.

S.160.Sub Specie Aeternitatis - Abgar Renautl


Vi-te, e vi a expressão essencial
da forma, da graça e da luz.
Vi-te, e vi a tremula fragilidade do efêmero
vestida das roupagens do eterno.
Vi-te, e sobre mim baixou, vindo do teu céu,
uma fulguração de raio, que feriu de vertigem
o meu destino de distâncias e negações
e deixou meus olhos sem pálpebras
para outro sol que não seja o teu esplendor.
Vi-te, e abri meu ser emudecido
para elevar à tua altura este canto de exaltação.
Mas a minha voz morreu em silenciosas névoas
e o meu coração, arquejante, parou de pulsar,
porque te vi e, vendo-te, vi em ti
o sem-limite das cousas que só habitam os sonhos sonhados
depois do tempo e além da vida.

S.159.Sou um dos 999.999 poetas do país - Affonso Romano Santana


Fragmento 1
INTRODUÇÃO SÓCIO-INDIVIDUAL DO TEMA


Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem
enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.
(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)
Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela - a força de áries na azáfama da casa
a decisão do imigrante que veio se plantar
ele - capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
domingueira.
(- Estes são sinais particulares
que não quero remarcar, embora
tenha aprendido em manuais
que o que distingüe a escrita do homem
são seus traços pessoais que ninguém pode
imitar.)
Fragmento 2
DESENVOLVIMENTO HÁBIL E CONTÁBIL DO (P)R(O)BL(EMA)
Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.
Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.
Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.
Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia
surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão
Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.
Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.
Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
letra & sangue se misturem
espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
- muitos os chamados, poucos os escolhidos.
Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia
estupefactos
descobrem que só poderiam/deveriam
sobreviver
com a própria
que escondem e renegam
por pudor
recalque
e medo.
Sou um dos 999 poetas do país
que
sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
dois versos pena & espada
(o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada
senão de tinta e de endereço
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
o nada se cria
e o nada se transforma.

S.158.Sonho acordado - Ângela Bretas


Sem saber do amanhã
Sonho acordada
Piso em terrenos desconhecidos
Brinco com fogo
Sem medo de me queimar
Sem medo de errar
Sem medo de amar...
Corro perigo
Finjo não ver
Acredito em destino
E sonhando acordada
Eu aprendo a viver...
Procuro esperança
Me torno criança
Entro na dança
E obtenho prazer...
Sonho acordada
Me sinto amada
Sem medo de nada
Sem medo de ter...
Sonho acordada
Sonhos tão belos
Sonhos de paixão
Cumplicidade
Ternura que sempre quiz
Percorre meu corpo
Minh'alma
Me tráz felicidade
Me acalma ...
E me faz ser feliz!

S.157.Sonhei ser um peixe - Angela Bretas


Sonhei ser um peixe,
Livre, colorido, bonito
Eu não falava de mortes, de fome ou guerra
No silêncio da natureza, no fundo do mar eu vivia.
Por entre algas marinhas, pedras e milhares de peixes eu brincava.
Eu era prateado, uns olhos grandes, esbelto e ágil.
Amava meus amigos e Rei Netuno, com quem conversava muito.
Deslizava rápido por entre a água verde das profundezas do oceano.
Um belo dia de sol, nadando por entre as rochas, algas e ervas do mar,
vi uma apetitosa e linda minhoca,
e foi neste momento que toda a minha vida mudou.
Fui pego e colocado dentro de um aquário, um lugar horrível.
Onde apenas podia dar uma ou duas voltas.
Me senti preso sem poder nadar entre as algas.
Sem poder brincar de esconde-esconde entre as pedras.
Passei a enxergar só uma sala a minha frente.
E um gato que ficava rodeando a mesa prestes a me abocanhar.
Assim são as pessoas...
Na infância tudo é maravilhoso, há liberdade e a vida não pode ser melhor.
Já na adolescência, as pessoas são mais preocupadas com tudo.
Quando finalmente são pegas de surpresa pela fase adulta, elas vêm um mundo repleto de problemas.
Quando chega a velhice as pessoas estão sempre com medo, pois a morte está pronta para pegá-las...
Foi quando um ruído estranho me acordou.
E eu vi que eu não era mais um peixe que vivia no fundo mar, e depois foi pego...
Eu vi que era uma criatura estranha chamada ''ser humano''
Ah! como eu queria ser novamente um peixinho, que nadava por entre as algas e tinha longas conversas com o Rei Netuno!

S.156.Sonetos Antigos (1923) - Abgar Renault


I

A que amostraes nos olhos & no rosto
Maga expressão serena de tristeza,
Porque nada he de falso, ou de supposto,
De alto quebranto augmenta essa belleza.

Essa que em vosso todo tendes posto
Tam descuydosa & candida simpleza,
A meu olhar o ser vos tem composto
De outra que não humana natureza.

Respeito disso he que, senhora, o aspeito,
Tanto que a vós vos vi, tive mudado,
E o juyzo a se perder num só sujeito:

Que he o temor de querer o vosso agrado
Quem, de rudo, de mau, & de imperfeito,
Nem sequer vos merece ter fitado.

II

Co a estulticia do Amor desavisado,
Que assi me punge & asi me faz penar,
He força, alfim, por mal de meu pecado,
Não vos deixeis, Senhora, quebrantar.

He que, pezar de mi, o meu cuydado
por de tanta belleza me esquivar
Mal seguro fraqueja incontentado
Ante a brandura desse vosso olhar.

Mostrae a mi o aspeito rudo & forte;
Alheiae-vos, Senhora, á minha dor,
E tomae tento, que, mercê da Sorte,

Entregue a seu talante & desfavor,
Mais facil he vencer a Vida, & a Morte
Que hum'alma & hum coração em seu Amor.

III

Em vam apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu Amor.
Debalde o vosso olhar, que assi me illude,
Ao meu denega o bem de seu fulgor.

Que quanto mais de vós se desilude
Meu tino vam, mais eu chego a suppor
Que tal fereza hum dia se desmude,
E que peneis tambem da mesma dor.

Mas he sem cura o mal que anda a pungir-me:
Que, si agora padece este meu ser,
Porque eu vos vejo contra mi tam firme,

O dano de querer-vos sem vos ter,
Em vos sentindo minha, ha de ferir-me
O mal de ter-vos sem vos merecer.

IV

Essa vossa serena fermosura,
Que as mostras vos empresta de huma santa,
Tanto mais a frieza vossa apura
Quanto mais a minh'alma prende & encanta.

Mostraes vossa esquivança em tal ventura,
Co hum riso feito de belleza tanta,
Que já não sabe alfim minha tristura
Se esse desdém se augmenta ou se aquebranta.

De tal sorte esquivaes, gentil Senhora,
O meu Amor, de guisa tal tecendo,
E destecendo a trama deste engano,

Que, se hei perdido huma esperança agora,
Outra virá bem cedo apparecendo,
Pera asinha volver-se em desengano.

V

Gran segurança eu hei de que a alegria,
Que fulge em vossa linda face mansa,
E em toda essa esvelteza se atavia,
Só nasce do meu mal, que já me cansa.

E bem sabeis, Senhora, que a esquivança
Com que a mi me mataes, dia por dia,
Só serve de avivar minha esperança,
Se a mais leve ilusão me caricia.

Aquebrantae alfim vosso desprezo,
Vós que tam pura sois, & tam benina;
Trazei-me hum bem, Senhora, que me alente.

Que eu não sei de tarefa de mór peso
Que essa de, com o dano da ruina,
Tentar mover huma alma indifferente.

S.155.Soneto X - Alphonsus de Guimarães


Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.
Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...
Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

S.154.Soneto IX - Alphonsus de Guimarães


Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês? Agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.
Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, abril, maio, janeiro, ou março.
Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?
Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira,
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já morto?

S.153.Soneto VIII - Alphonsus de Guimarães


Ninguém anda com Deus mais do que eu ando,
Ninguém segue os seus passos como sigo.
Não bendigo a ninguém, e nem maldigo:
Tudo é morto num peito miserando.
Vejo o sol, a lua e todo o bando
Das estrelas no olímpico jazigo.
A misteriosa mão de deus o trigo
Que ela plantou aos poucos vai ceifando.
E vão-se as horas em completa calma.
Um dia (já vem longe ou já vem perto?)
Tudo que sofro e que sofri se acalma.
Ah se chegasse em breve o dia incerto!
Far-se-á luz dentro de mim, pois a minh'alma
Será trigo de Deus no céu aberto...

S.152.Soneto VII - Alphonsus de Guimarães


Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.
Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...
Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

S.151.Soneto VI - Alphonsus de Guimarães


Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão - "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"

S.150.Soneto V - Alphonsus de Guimarães


Negro navio que se fez ao largo,
Velas pandas ao vento do nordeste,
Volta de novo este pesar amargo
Que foi todo consolo que me deste.
Pisando espinhos, no letal letargo
De quem segue por uma noite agreste,
Sou o cruzado que vai sobre o mar largo
Morrer de mágua, e fome, e guerra, e peste.
Não mais jasmins neste horto do meu peito.
Ouve-me tu, que ainda és uma criança;
É um sepulcro de vivos todo leito.
Tudo espero de ti, alma querida;
Mas não sabes, Senhora, que a esperança
É o maior desespero desta vida!

S.149.Soneto IV - Alphonsus de Guimarães


Quiseras ser a Laura de Petrarca
E ter o nome engrinaldado em oiro...
Sentir-te a branca, etérea, sublime arca
Adonde poisaria o amor vindoiro...
Beatriz que Dante, o sempiterno, marca
Com o gênio e do céu faz o mor tesoiro...
Natércia que Camões, vencendo a Parca,
Imortaliza pelo Tejo e Doiro...
Quiseras ser qualquer das três, ou ainda
Essa, que tem p'ra nós memória infinda,
Bucólica Marília de Dirceu...
Mas se eles eram tudo e eu não sou nada,
Nenhuma foi como tu foste amada,
Nenhum deles na terra amou como eu!

S.148.Soneto III - Alphonsus de Guimarães


Desesperanças! réquiem tumultuário
Na abandonada igreja sem altares...
A noite é branca, o esquife é solitário,
E a cova, ao longe, espreita os meus pesares.
Sinos que dobram, dobras de sudário!
No silêncio das noites tumulares
Há de surgir o espectro funerário,
Cujos olhos sem luz não tem olhares.
Santo alívio de paz, consolo pio,
Fonte clara no meio do deserto,
Manto que cobre aqueles que têm frio!
Eis-me esperando o derradeiro trono:
Que a morte vem de manso, em dia incerto,
E fecha os olhos dos que têm mais sono...

S.147.Soneto II - Alphonsus de Guimarães


Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...

S.146.Soneto I - Alphonsus de Guimarães


Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos;
Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos.
Mãos a bordar o santo Escapulário,
Que revelastes, para quem padece,
O inefável consôlo do Rosário;
Mãos ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre minh'alma em prece
A benção que redime e que perdoa!

S.145.Soneto do Impossível - Abgar Renault


Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.

S.144.Soneto (Há um mar) - Alexel Bueno


Há um mar que ruge à minha volta, e nesta ilha
Fora das rotas, mas na noite, me encontrei
Envolto em água, envolto em treva, e já nem sei
Qual foi o barco que me trouxe, onde sua quilha.
Unicamente sobre mima lua brilha
E o mar de abismos cospe atrás, onde afundei,
Que nem enxergo nesta luz da qual sou rei
Além da noite a rocha e a lua, sua filha.
Sombra exilada que não lembra de onde veio,
Escuto ondas mais antigas que as do mar...
Que voz me chama no negror que as corta ao meio?
Aqui estou salvo, mas não quero, sonho a fera
Maior que a vida, o mar em fúria, o retornar,
Eu, rei de um povo submerso que me espera.

S.143.Soneto (Damas Antigas) - Alexei Bueno


Damas antigas estão presas nos espelhos
E as faces rotas já não vão mais à procura
Dos sonhos tênues, pois só as tenta a noite escura
Que ninguém viu passando atrás dos panos velhos.
Ela ainda está neste cristal, clarões vermelhos...
Olhando sempre hão de lembrá-la em roda impura,
A não notada àquela hora, certa e dura,
Levando os risos por vingança em seus joelhos.
Ah! moças alvas se mirando e se esquecendo,
Os dentes cessam, queima o quarto, e vai chovendo,
Mas até hoje a noite atrás ri seus infernos...
E tece colchas do que fomos, fios idos,
Desta janela às nossas mãos, lençóis puídos,
Que em seus bordados somos mortos sóis eternos.