segunda-feira, 16 de agosto de 2021

V.056.Voltar atrás - Andréa Borba Pinheiro


O que irei fazer, não vai, nada mudar,
Embora eu queira contigo estar,
Sei que não iria adiantar,
Pois você não irá mais me amar.
Depois de jogar tudo fora,
Por motivos que nem eu entendo,
Eu volto agora,
Para a sua desgraça... ou contentamento?
Depois de várias viagens,
Depois de várias bocas beijar,
Depois de registrar muitas imagens,
Sem, em nenhuma delas, seu rosto encontrar...
Eu volto, mas não para ficar...
Só para dizer, que jamais irei esquecer,
O que passamos juntos,
A história d'eu e você.
Ninguém nunca me amou como você,
Ninguém nunca te amou como eu,
Mas agora, isso tudo virou passado,
Lembrarei sempre dos nossos momentos bons, e de como doeu...
Doeu dizer "não",
E pôr um ponto final em um amor sem nenhuma vírgula.
Acho que fomos intensos demais...
Acho que nos entregamos demais...
Mesmo, esse sendo o certo,
O mundo é cruel com quem ama,
O mundo não aceita pureza,
O mundo está acima de qualquer certeza.
Destrói nossos sonhos...
E abala amores verdadeiros...
E não há quem consiga vencer isso,
Nem os melhores guerreiros.
Ainda te amo,
E nunca deixei de amar,
E sei, que por muito tempo, eu ainda hei de chorar,
Mas agora... não posso mais voltar...

V.054.Vidas infinitas - Andréa Borba Pinheiro


Ultimamente,
Ando simplesmente,
Chorando repentinamente,
Por um amor não presente.
Eu não te quero por perto.
Quero muito mais que isso.
Quero poder te proteger todos os dias.
Quero que nosso amor seja algo certo.
Não quero "talvez"... nem "quem sabe"...
Não quero morrer todos os dias por você.
Não é uma maneira digna de usar as vidas que me couberam.
Pois o amor não mata... pelo contrário, o amor ressuscita.
Você sangra por mim e chora por mim.
Eu não sei viver assim.
Machucando, mesmo que sem querer,
A pessoa que me motiva a viver.
Minha vontade é correr,
Para longe de onde estou...
Para perto de você...
Mas adiantaria?
Diga-me, adiantaria?
Morrer internamente todo o dia?
Correr sem te alcançar todo o dia?
Viver sem te ter a toda a eternidade?
O que eu sempre quis,
Era ser tudo que você precisa,
E talvez eu até seja.
Mas onde está você quando eu tento demonstrar?
Onde está o seu amor?
Onde está o seu carinho?
Onde está o seu rosto?
Os seus lábios e o seu corpo?
Eu vou embora.
Pois já está na hora de viver.

V.055.Voce - Andréa Borba Pinheiro


Me perdi ao ver seus olhos
e, não me esforcei para escapar.
Se tentasse, haveria amor de todos os lados
e, eu ficaria sozinho, a chorar...
Fiz de tudo, para poder te beijar,
e quando enfim consegui,
não pude controlar,
admito que derreti...
Que tortura tua boca,
sempre provocando-me, sem perdão,
e, se eu tentasse fugir dela,
morreria, tamanha a tentação!
Quero teu amor, até a última gota,
seu carinho, atenção, sem pudor,
e, nunca, jamais perder-te,
se Deus permitir, se assim for...

V.053.Vida - Alexandre Bairos de Medeiros


Amar-te
Arte em toda parte
Olhar e ver parte das partes do corpo
Etéreo e sutil, firme e forte e eterno
Linda.

Sentes o que sinto? Não minto...
Grito a Verdade que sou
Miniparte da Verdade,
Arte verdadeira.

Doar o que sentes
Sentir o que vives
Viver para amar
Ver-te viver em toda parte.

Inspirar, respirar luz emergente
Asas abertas, parte de ti
Batem leves, ultraleves espirituais
Como palavras; sons ao vento
Música real de dentro para fora e para dentro.

Compartilhar...
Compreender...
Pacificar em todo lugar, tudo.
A todo tempo,
A si mesmo. Harmonizar-se

Viver o coletivo com unicidade
Sem perda de individualidade
Amar sem alarde
A arte de viver em arte
Jamais estagnando
Pelo caminho não linear
Que ao fim
Não tem fim...

V.052.Vaíbora - Almeida Garret


Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

V.051.Vestígios divinos - Alberto de Oliveira


(Na Serra de Marumbi)
Houve deuses aqui, se não me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ciúme insano.
Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda há uns restos da forja de Vulcano.
Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.
Os convivas pagãos ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.

V.050.Versos narciso


Escreveria
pausadamente sobre a pequena e
dolorosa ira que sinto por minha
doce pessoa

de forma calada e fria um
manifesto de repúdio a específicas
atitudes minhas

ora em riso, ora em milágrimas a
pesada saudade das certezas
não vividas

desesperadamente sobre remar
contra o rio da vida e reconstruir
orações malditas

E sofreria.

V.049.Velho olhando o mar - Affonso Romano Sant'anna


Meu carro pára numa esquina da praia de Copacabana às 9h30m e vejo um velho vestido de branco numa cadeira de rodas olhando o mar à distância. Por ele passam pernas portentosas, reluzentes cabeleiras adolescentes e os bíceps de jovens surfistas. Mas ele permanece sentado olhando o mar à distância.
O carro continua parado, o sinal fechado e o estupendo calor da vida batia de frente sobre mim. Tudo em torno era uma ávida solicitação dos sentidos. Por isto, paradoxalmente, fixei-me por um instante naquele corpo que parecia ancorado do outro lado das coisas. E sem fazer qualquer esforço comecei a imaginá-lo quando jovem. É um exercício estranho esse de começar a remoçar um corpo na imaginação, injetar movimento e desejo nos seus músculos, acelerando nele, de novo, a avareza de viver cada instante.
A gente tem a leviandade de achar que os velhos nasceram velhos, que estão ali apenas para assistir ao nosso crescimento. Me lembro que menino ao ver um velho parente relatar fotos de sua juventude tinha sempre a sensação de que ele estava inventando uma estória para me convencer de alguma coisa.
No entanto, aquele velho que vejo na esquina da praia de Copacabana deve ter sido jovem algum dia, em alguma outra praia, nos braços de algum amor, bebendo e farreando irresponsavelmente e achando que o estoque da vida era ilimitado.
Teria ele algum desejo ao olhar as coxas das banhistas que passam? Olhando alguma delas teria se posto a lembrar de outros corpos que conheceu? Os que por ele passam poderiam supor que ele fazia maravilhas na cama ou nas pistas de dança?
Me lembra ter lido em algum lugar que o inconsciente não tem idade. Ah, sim, foi no livro de Simone de Beauvoir sobre "A velhice". E ali ela também apresentava uma estatística segundo a qual por volta dos 60 anos poucos se declaram velhos; depois dos 80 anos, só 53% se consideram velhos, 36% acham que são de meia-idade e 11% se julgam jovens.
Não sei porque, mas toda vez que vejo um senhor de cabelos brancos andando pela praia penso que ele é um almirante aposentado. Às vezes, concedo e admito que ele pode ser também da Aeronáutica. Por causa disto, durante muito tempo, vendo esses senhores passeando pela areia e calçada, sempre achava que toda a Marinha e Aeronáutica havia se aposentado entre Leblon e Copacabana.
Mas esses senhores de short e boné branco que passam às vezes em dupla pelo calçadão, são mais atléticos que aquele que denominei de velho e, sentado na cadeira, olha o mar.
Ele está ali, eu no meu carro, e me dou conta que um número crescente de amigos e conhecidos tem me pronunciado a palavra "aposentadoria" ultimamente. Isto é uma síndrome grave. Em breve estarei cercado de aposentados e forçosamente me aposentarão. Então, imagino, vou passear de short branco e boné pelo calçadão da praia, fingindo ser um almirante aposentado, aproveitando o sol mais ameno das 9h30m até cair sentado numa cadeira e ficar olhando o mar.
Me lembra ter lido naquele estudo de Simone de Beauvoir sobre a velhice algo neste sentido: "Morrer, prematuramente, ou envelhecer: não há outra alternativa." E, entretanto, como escreveu Goethe: "A idade apodera-se de nós de surpresa." Cada um é, para si mesmo, o sujeito único, e muitas vezes nos espantamos quando o destino comum se torno o nosso: doença, ruptura, luto. Lembro-me de meu assombro quando, seriamente doente pela primeira vez na vida, eu me dizia: "Essa mulher que está sendo transportada numa padiola sou eu." Entretanto, os acidentes contingentes integram-se facilmente à nossa história, porque nos atingem em nossa singularidade: velhice é um destino, e quando ela se apodera de nossa própria vida, deixa-nos estupefatos. "O que se passou, então? A vida, e eu estou velho", escreve Aragon.
Meu carro, no entanto, continua parado no sinal da praia de Copacabana. O carro apenas, porque a imaginação, entre o sinal vermelho e o verde, viajou intensamente. Vou ter de deixar ali o velho e sua acompanhante olhando o mar por mim. Vou viver a vida por ele, me iludir que no escritório transformo o mundo com telefonemas, projetos e papéis. Um dia, talvez, esteja naquela cadeira olhando mar à distância, a vida distante.
Mas que ao olhar para dentro eu tenha muito que rever e contemplar. Neste caso não me importarei que o moço que estiver no seu carro parado no sinal imagine coisas sobre mim. Estarei olhando o mar, o mar interior e terei alegrias de nenhum passante compreenderá.

V.048.Velha fábula em bossa nova - Alexandre O'Neill


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
(- Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)

V.047.Vaso Grego - Alberto de oliveira


Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

V.046.Vaso chinês - Alberto de Oliveira


Estranho mimo aquele vaso! Vi-o.
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;
Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

V.045.Vagabundo - Alvares de Azevedo


Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão adoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas carvernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz...Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismando
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à nossa senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.

V.044.Vaga Idéia e o Sentimento - Alexandre Baros de Medeiros

Toco terra, escuto canto Passos teus, puro encanto Bravos e livres, avante! Ave! Colibri amante! Teus braços abertos Meus sonhos; desperto Me banhas; palavras. Teus traços tão certos Meus sons; experto Me ganhas, me lavras. Fala tua me cala; calado. Calada nua falas; Alado. Espelho da rua. Sã, te vejo No colo da Lua. Pão, o beijo.

V.043.Vácuo - Adelino Fontoura


Não sei se pode haver padecimento
Mais profundo, mais íntimo e que tanto
Nos ponha na alma a dor que gera o pranto,
Do que um longo e tristonho isolamento.
Não ter um bem sequer no pensamento,
Nem o calor de um lar, nem o encanto
De um amor de mulher suave e santo,
É viver sem nenhum contentamento.
Bem sei que é bom sofrer, e me parece
Que esta vida sem dor nada seria,
E que é por isso até que se padece.
Mas esta solidão contínua e fria
Chega a ser tão cruel, que a não merece
Um coração que a dor mereceria.

U.030.União - Angela Bretas


Chegar e seguir,
Seguir cantando...
Nós e a multidão,
em direção ao sol que nos
ensina a ser mais cristalinos...
Achando na vida uma fé nova,
E no coração um amor que reparte e cresce...
Cada um no seu lugar, na sua vez...
Conscientes de que a união é possivel...
E que para isto o que nos basta é...
Derramar a luz no instante certo...
É a saudade que dói mas vale a pena...
É valorizar o que é conquistado..
É trabalhar melhor para que o chão floresça mais...
É saber apreciar a beleza da natureza em cada amanhecer...
É chorar com os que sofrem,
para que nossa alma se purifique com a dor...
É pedir perdão pelos erros,
e reconhecer nossas faltas...
É sorrir para a vida,
na certeza de que fomos escolhidos para nossa missão...
É transmitir a paz,
através de nossos gestos, palavras e atos...
É sair em busca de nossos sonhos..
É respeitar os limites,
e traçar metas para nossos objetivos...
É se unir ao mundo,
aos homens, que foram feitos para estarem juntos...
Porque só juntos,
saberão participar da festa do amor que é a vida.

U.029.Uma foto do Natal - Almandrade


No ar
a coreografia
de uma flauta
antigas velas
ainda acesas
velhas ceias
em preto e branco
esperando
a madrugada
e a festa...
O natal se arrasta
Lentamente.

U.028.Um sítio para minha pequena - Ana Paula Pedro


Um sítio florido
que seja perto
céu claro
sonhos são copa de árvore
raízes fincadas
sólidas
tardes da velhice
chá de pêssego
rede na varanda
cercado branco
viola caipira, flauta e violão
amanhece
cheiro de café
manteiga derretida no pão
geléias, amoras, damasco
cachorros, pássaros, gatos
tartaruga e peixes cintilantes
de repente até uma vaca
bezerro
ninguém gosta de ser só
xale sobre os ombros
lareira
memória
rugas, dragão, flores e furos
corpos que ainda se amam
dois pássaros azuis se aproximam
quartos alguns
é preciso ter família sempre perto
bons amigos já conhecem Sebastiana
sabem abrir a porteira
fumo na palha do milho
orquídeas do Itamar
é preciso ter fartura sobre a mesa
reivindico um pomar
vinho do porto se queres ser Hilda
papel e tinta
com que escrevo o amanhã.

U.027.Um Invejado - Afonso Celso


Que bonito, elegante e pequeno carro, tirado por minúsculos cavalos de raça, estacionava à porta do palacete Apolinário, naquela magnífica tarde de verão!...
Era um veículo de criança, mas de criança milionária, afeita aos requintes do luxo - um brinquedo caríssimo, ao mesmo tempo suntuoso e catita, que fazia cismar em principescas fantasias.
Toda a vizinhança acorrera às janelas e portas para o admirar.
Em torno à diminuta e primorosa caleça, grupos de curiosos se haviam formado. Garotos e moleques tinham-se aproximado respeitosamente dos animais, examinando as menores particularidades dos arreios, com pasmadas interjeições.
Pulavam comentários. E o cocheiro inglês, cuidadosamente escanhoado, o chicote da destra enluvada, as rédeas firmes na esquerda, permanecia impassível, sob a libré de aparato, em atitude hierática, circunvagando lentamente olhares de desdém.
- É um presente de anos feito pelo Comendador Apolinário ao filho, murmurou um dos espectadores.
- Que felizardo o tal Juquinha! acrescentou o segundo. - O pai realiza todos os seus caprichos. Não há menino criado com maior opulência. Que de contos de réis não custaria esta tetéia!...
- Que quer?! - sobreveio terceiro. - Pois se o Comendador não sabe em que gastar os rendimentos.... É um dos fazendeiros mais ricos do Brasil. O Juquinha mesmo já deve possuir não pequena fortuna própria, herdada da mãe.
- Para estes é que serve a vida - tornou amargamente o primeiro. - Uns tudo, outros nada. A Providência ignora a conta de repartir. Quantas famílias não se alimentariam durante anos só com o preço das superfluidades despendidas nesta casa...
E designava o prédio nobre, com vasto jardim ao lado, sito numa das ruas que vão perpendicularmente do Catete à praia do Flamengo.
Este prédio, de vistosa arquitetura, aprumava-se sobranceiro em meio das modestas vivendas do local.
As suas largas janelas, ornadas de lindas cortinas, dominavam os mais altos sobrados adjacentes. Circunspecto porteiro agaloado guardava sempre o amplo vestíbulo. E saíam do interior emanações de cousas preciosas, reflexos de fausto e conforto.
Da extremidade da rua, próxima à residência do Comendador, avistava-se uma nesga da baía.
A fortaleza de Santa Cruz dealbava o fundo, apensa à linha de montanhas, que fechava o horizonte. O Pão de Açúcar derreava-se hirto à entrada da barra. Monótono e constante, ouvia-se o rumor das vagas, espojando-se na areia.
Perpassou um frêmito entre os assistentes. Abrira-se a grade do palacete e no limiar assomara esbelto menino.
Não contaria mais de quatorze anos. Mas que ar de suficiência e superioridade! Dir-se-ia conspícuo personagem, triunfador da vida.
Veste finos trajos, no rigor da moda. Formoso o rosto, cintilante o olhar, desempenado e desenvolvido o corpo.
Detém-se alguns minutos, trocando leves cumprimentos com conhecidos, que embevecidamente o miram.
Salta depois lepidamente no carro, dando ordem rápida ao cocheiro.
- É o Juquinha ... é o Juquinha... como está crescido e arrogante o pimpolho! - sussurra-se em roda.
Os cavalos partem num belo trote, deixando um rastro de embasbacamento.
Afluíra gente a todos os peitoris para ver passar o jovem ricaço, que, uma perna superposta à outra, reclinado em almofadas de seda, onde brilha, bordado a ouro, o seu monograma, lá se vai avante, digno, compenetrado do seu valor.
Breve, a carruagem dobrou a esquina do Catete e desapareceu na direção de Botafogo. Ao cruzar com ela, voltam a cabeça os transeuntes.
Em frente à residência do Juquinha, numa velha casa térrea, duas crianças - uma menina e um rapaz - haviam assistido com especial interesse à cena esboçada.
São os filhos de D. Canuta - viúva de um militar, pobre senhora, que vivia a coser para sustentar a família.
Primogênito o rapaz; chama-se Antenor. Pouco mais novo do que o Juquinha, apresenta em mirrado e macambúzio o que aquele ostenta em viço e expansão.
A irmã tem por nome Enedina. Que cútis, que cabelos, que olhos, que natural distinção física nesta pequena!
É uma aurora de radiante formosura, o embrião de esplêndida mulher.
Seduz principalmente em Enedina angélica expressão de docilidade. Dificilmente saberão seus lábios articular frases de recusa. Pertence à classe desses entes resignados, meigos e passivos, um tanto obtusos, que as vontades fortes dominam completamente e levam, sem relutância, para onde lhes apraz.
E a prole de D. Canuta persiste imóvel. O espetáculo da saída do Juquinha mergulhara-a em êxtase.
Aquela visão de suntuosidade impressionara os dois irmãos tanto mais quanto em apertada economia eles vegetavam. Como em todas as grandes capitais, a magnificência ombreava ali com a carestia e a miséria.
Mas o olhar de Enedina, contemplando o Juquinha, traduzia apenas ingênuo assombro, cândido enlevo diante de deliciosos prodígio - enlevo repassado de simpatia e um quê de ternura.
Não assim o de Antenor. Há no deste a explosão prematura de sentimentos sombrios. Cortam-no relâmpagos de despeitado rancor.
Quando o carro do Juquinha se sumiu - ei-lo que fecha a janela com mão trêmula. Tomba pensativo sobre uma cadeira, soltando dorido suspiro.
Tumultua-lhe no íntimo um misto obscuro de raiva e revolta, cobarde desejo de despojar o Juquinha, substituindo-se a ele, gozando do mundo em lugar dele.
Desbordava a inveja, a terrível inveja, mais cruciante que o ódio ou o ciúme, do seu coração infantil.
E, desde esse instante, nunca mais se alterou tão repulsivo sentimento.
Antenor invejou sempre, sempre, o Juquinha, através das longas e trágicas peripécias em que o destino de ambos e o de Enedina se confundiram.
Porque o fado irônico entrelaçou intimamente a existência do brilhante descendente do comendador Apolinário à da humilde progênie da viúva.
Quem o suspeitaria naquela ocasião?!
No momento em que o Juquinha rolava ufano pela calçada do aristocrático arrabalde, num passeio de mera ostentação, ou para estimular o apetite embotado por adubadas iguarias, D. Canuta, que não tinha criados, à exceção de um pequeno moleque, incumbido dos serviços mais grosseiros da casa, depunha fatigada a costura, exclamando:
- Que estás aí a parafusar, Antenor? ...Vamos... São horas. Varre a sala de jantar, enquanto Enedina põe a mesa e eu vou ver se já ficou pronto o feijão...

U.026.Um adeus português - Alexandre O'Neill


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

U.025.Último Soneto - Alvares de Azevedo


Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!

T.052.Turista acidental - Affonso Romano de Sant'anna


Fui fotografado à minha revelia,
em frente a um templo egípcio
no Metropolitan Museum de Nova York.
À minha revelia,de novo, fotografado fui
na 5a. Avenida às três e meia da tarde.
Assim, um sem- número de vezes
em frente ao Coliseu,
nas ruínas de Machu Pichu,
perto da Torre de Londres,
junto à Catedral de Colônia,
sobre as pedras da Acrópole, em Atenas,
nas mesquitas de Istambul
e, evidente, em Juiz de Fora.
Guardado estou
em álbuns
japoneses, italianos, americanos, alemães, franceses
argentinos, senegaleses,
disperso
desatento
como se aquele corpo
não fosse meu.
Quando mostram as fotos aos parentes e vizinhos
sou pedra-porta-árvore-sombra-paisagem.
Ninguém, reunindo as fotos, perguntará:
-Quem é este constante figurante
no flagrante do alheio instante?
Disperso-dispersivo estou.
Que álbum conterá a unidade perdida
revelada do negativo
perambulante que sou?

T.051.Tudo Eu! - Andréa Borba Pinheiro


Uma amizade tão pura...
Que eu tentei manter...
Minha confiança sempre foi sua...
Então, por que isso teve que acontecer?
Por que não lutou por mim?
Por que não passou por cima de princípios por mim?
Por que não foi você mesma quando teve a chance?
Por que não me olhavas nos olhos, e sim de relance?
Justo eu... que dei tudo de mim para você.
Justo eu... que passei por cima de tudo por você.
Justo eu... que passei por cima do meu orgulho por você.
Justo eu...que sempre fiz tudo por você!
Por que não soubeste aproveitar?
Por que não soubeste usar do meu amor de forma limpa?
Por que não soubeste ser amiga, tanto quanto fui de ti?
Por que achavas que bastava contar piadas e me fazer sorrir?
Logo eu... que fui tudo quando você foi nada.
Logo eu... que chorei tantas vezes por você.
Logo eu... que fui pura e abri o jogo na sua cara!
Logo eu!!! Que falei tudo quando você engasgou, e, não conseguiu, nada, dizer!
Logo eu... que às vezes sinto a sua falta...
Logo eu... que sou tão durona e racional...
Logo eu... que sempre respondia as suas cartas...
Logo eu... que nunca te fiz nenhum mal...
Parece que com você, não basta ser bom.
Não basta ser " legal "...
Não basta ser amigo.
Não basta ser intelectual.
Parece que com você...
A única coisa que basta...
É seguir a sua regra... ser como você quer.
E eu não sou assim...
Nasci para ser livre...
Não me bote algemas, pois eu grito!
E quer saber? Não me importo mais.
Sinto muito, mas de você, eu desisto.

T.050.Tu que nunca serás - Alfonsina Storni


Sábado foi caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.
Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado...
Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio
E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

T.049.Trindade - Alvares de Azevedo


A vida é uma planta misteriosa
Cheia d'espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...

E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d'alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!

T.048.Três visões horizontais no destino - Alexei Bueno


I
O sol é o último ferido da batalha
E sangra e oscila sobre um corpo que foi rei
Ao qual coroam sete espadas sobre a malha
E tantos reinos destruídos que eu não sei.
Tremulamente um estandarte a sombra espalha
E esta acena, como mão chamando a grei
Ou a afastando, se ela vier, para que valha
Um seu segundo esquecimento como lei.
Nada dói, exceto a dor não inflingida
Ao inimigo, que já longe em glória vai
E leva a dor, mesmo vencendo, porque é vida.
Aqui há um povo que se vence de esquecido
E assim sorri no desengano em que o sol cai
Sobre os escombros de um império nunca erguido.
II
A terra enxerga por viseiras destruídas
E rijos ferros dormem fundo após a guerra
Dentro de homens que se esquecem das partidas
Com o silêncio em cada boca que não berra.
Escudos, lanças, armaduras divididas
E uma espada em pé cravada sobre a terra
Lembrando cruz para a indulgência das feridas
Que já não doem numa carne que se encerra.
Antes da luta cada um lá estava certo
Que viveria após ter tudo se acabado,
Mas já ninguém se desilude no deserto.
E nem há dor pra quem não vê como a hora falha
E como é o corpo conduzido ao golpe errado
Pelo destino que se rompe igual à malha.
III
Desaba o sol e sobre a queda a noite cai
Mas ainda é dia em cada corpo pela vala
E ainda é a hora da ferida que não sai
Tal qual rugido de leão que ao mastro cala.
Numa fogueira um estandarte geme um ai
E o fogo é a luz dos olhos mortos soba pala,
E nem há órfãos, pois seguiu-se o filho ao pai
Que ri no chão quando seu pé na chama estala.
Agora tudo aprende o nada novamente
E falta algo em ver os corpos mais que a vida
Como a um cadáver de leão o medo ausente.
No vão dos pós não há mais sonho nem querer
E não querendo a tudo tem a grei vencida
Na derradeira sua vitória em se perder.

T.047.Toque - Andréa Borba Pinheiro


Sensível, leve, quase não percebo,
deslizando pelas curvas do meu rosto,
arrepiando minha pele,
despindo-me de medo.

Antes hesitava...nunca o fazia.
Timidamente aproximei-me,
não o bastante para tocar-te
mas, se ao menos eu tentasse...

Como reagirias? Que dilema!
Sorririas? Afastaria-me? O que farias?
Amo-te!
Não confunda-me!

Um dia a vergonha dissipou-se
dando espaço ao sentimento
que fluiu lindamente...
E toquei sua face, banhei-me em contentamento!...

T.046.Tirando a roupa - Ana Cristina Pozza


Gosto de tirar a roupa
E sentir o teu caralho duro
Enchendo de prazer a minha boca
Deixando-me louca de tesão
Enquanto vou sendo beijada com sofreguidão...
Gosto de tirar a roupa
Virar-me de costas
E oferecer-me por inteiro
Pedindo sorrateira
A tua entrada no meu traseiro.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir lambuzada
Inteiramente desejada
Pronta para comer
E ser comida...
Gosto de tirar a roupa
Abrir as minhas pernas
E ficar te sacaneando
Oferecendo a minha vagina quente
Cheia de vontade de ficar molhada.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir uma puta
Pronta para ser abusada
Penetrada, amada
Tonta de tesão e dor.
Gosto de tirar a roupa
E sentir as tuas mãos me envolvendo
O teu dedo no meu cuzinho
A tua língua na minha pombinha
E a minha boca no teu pau.
Gosto de tirar a roupa
E de gritar como uma maluca
Com o prazer doidivanas
Que tu provocas no meu corpo
Quando entra em mim ereto.
Gosto de tirar a roupa
E ser obscena
Ser a tua pequena
Ser a tua tarada
Sempre pronta para tirar a roupa...

T.045.Teus olhos - Angela Bretas


Teus olhos
Encontram meu olhos
Momento mágico
Eterno
Intenso
Inesquecível... Teus olhos
Em meu olhos
Coração dispara
Mente viaja
Paraliza
Ficamos mudos
Sem palavras... Teus olhos
Refletem
O que os meus
Demonstram sentir... Teus olhos
Aos poucos
Desaparecem
Levando com eles
O reflexo dos meus... Meus olhos
Procuram teus olhos
Olham ao redor
E só encontram o vazio
De não ter mais este olhar...

T.044.Tesão e soneto - Ana Cristina Pozza


Enquanto segues em frente,
Deito-me maliciosa em teu leito,
Sentindo teu corpo quente:
Diante das tuas mãos, tudo aceito...
Roubas meus seios da minha roupa,
Acariciando-os com intensos beijos,
Deixando-me completamente louca,
Abrindo-se para ti a Flor dos meus Desejos...
Sou só desejo, sou toda tua...
Beijo-te inteiro com sofreguidão,
Enquanto deixas-me totalmente nua,
Provocando em meu corpo espasmos e gemidos,
Embalo com lambidas teu tesão
Até nos tornarmos um só em todos os sentidos...!

T.043.Terza Rima - Alvares de Azevedo


É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra, és tu, ó meu charuto!

T.041.Tentando voce - Andréa Borba Pinheiro


Tento você com meus olhares,
minhas insinuações e complicações...
Com palavras suspiradas e sorrisos milhares,
cantando para ti novas canções.

Tento você no toque inocente,
no abraço carinhoso,
na compreensão que expresso,
no beijo no rosto.

Tento você com minhas curvas,
que fazem teus olhos me seguirem,
tento você a cada momento,
e mesmo assim, não sei se me queres.

Se gostas de desafios,
aceite...!
Pois, o desafio, já lancei...
Basta que você também me tente...

T.040.Tenho saudades - Andréa Borba Pinheiro


Tenho saudade de você.
Do seu jeito perfeito.
Talvez seja exagero,
mas nunca vi, em ti, nenhum defeito.
Tenho saudade do seu amor,
me aquecendo,
me aconchegando,
me protegendo.
Tenho saudade das tuas mãos,
passeando pelo meu corpo, em busca de alívio.
Tenho saudade do teu beijo,
fazendo minha razão, evaporar.
Tenho saudade das palavras doces,
do corpo bem definido e, do olhar insinuante que me deste.
Tenho saudade das canções que cantávamos no verão.
Tenho saudade de tudo, porém, apaguei-te da minha mente,
pois sei que, jamais, apagar-te-ei do coração.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

T.039.Tarde de Outono - Alvares de Azevedo


O Poeta:

Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?

A Saudade:

De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.

O Poeta:

Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.

A Saudade:

Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.

O Poeta:

Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?

A Saudade:

A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!

O Poeta:

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.

A Saudade:

Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.

O Poeta:

Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía
E eu pensava ali morrer!

A Saudade:

É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!

O Poeta:

Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...

R.032.Rumo - Alda Lara


É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...

R.031.Rosas - Alphonsus de Guimarães


Rosas que já fostes, desfolhadas
Por mãos também que já se foram; rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas
Mortas também, beijaram suspirosas...
Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de alfombra silenciosas
Onde dormiram tranças destrançadas.
Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço e de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!
Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura?

R.030.Rosa e Lírio - Almeida Garret


A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam - flor
D'amor,
Não sei.

A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, - dor
Na cor
O lírio.

Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza - mor
Primor
A rosa:

No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: - cor
E ardor
É o meu.

A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.

R.029.Reticências da vida - Andréa Borba Pinheiro


Tanta coisa que eu não sei...
Tanta coisa que eu não vi...
Tanta bobagem que falei...
Tanta vida que perdi...
Tanta coisa que eu já sei...
Tanta coisa que eu já vi...
Tanta bobagem que não falei...
Tanta emoção que não senti...
Tantos dias procurei...
Tantos momentos que pensei...
Tantas dúvidas que não resolvi...
Mas pra mim tá tudo bem...
Outro segundo que se vai...
Outro minuto que foi embora...
É o tempo que entra e sai...
Perdida mais uma hora...
Tantos beijos que não dei...
Tantas cartas que rasguei...
Tantos amigos que dispensei...
Tantos afagos que neguei...
Outra semana que se vai...
Outro mês que foi embora...
É o tempo que entra e sai...
Levando de mim o viço, que existia, outrora.
Quantos anos eu tenho?...
Quem é você?...
Onde eu estou?...
Quem sou eu?...

R.028.Resoluções - Angela Bretas


Este novo ano resolvi que vou mudar
Farei tudo em passos lentos
Sem pressa ... anseios
Deixarei de lado atitudes ímpetas
E não correrei contra o tempo...
Este novo ano resolvi que vou criar
Farei brotar dentro de mim a arte
Sem regras... teorias
Deixarei a mesma fluir livremente
E não ignorarei a inspiração quando a mesma chegar...
Este novo ano resolvi que vou amar
Farei destes amores a razão de minha alegria
Sem cobranças... ou expectativas
Deixarei de questionar
E não me conterei com um só sentimento...
Este novo ano resolvi que vou crescer
Farei nascer dentro de mim a mulher adormecida
Sem tentar acordar... a que já dorme
Farei do meu sono um novo despertar
E não terei receio em abrir minha mente...
Este novo ano resolvi que vou viver
Farei de cada dia como se fosse o último
Sem medo... do amanhã
Deixarei de escutar somente os outros
E não me intimidarei diante de meus próprios fracassos...

R.087.Reflexo - Affonso Romano Sant'ana


O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.

R.026.Rainer Maria Rilke e eu - Rilke


quando queria fazer poemas
pedia emprestado um castelo
tomava da pena de prata ou de pavão,
chamava os anjos por perto,
dedilhava a solidão
como um delfim
conversando coisas que europeu conversa
entre esculpidos gamos e cisnes
- num geométrico jardim.
Eu
moderno poeta, e brasileiro
com a pena e pele ressequidas ao sol dos
trópicos,
quando penso em escrever poemas
- aterram-me sempre os terreais problemas.
Bem que eu gostaria
de chamar a família e amigos e todo o povo
enfim e sair com um saltério bíblico
dançando na praça como um louco David.
Mas não posso,
pois quando compelido ao gesto do poema
eu vou é pegando qualquer caneta ou lápis e
papel desembrulhado
e escravo
escrevo entre britadeiras buzinas seqüestros
salários coque'teis televisão torturas e
censuras
e os tiroteios
que cinco vezes ao dia
disparam na favela ao lado
metrificando assim meu verso marginal de
perseguido
que vai cair baldio num terreno abandonado

Q.054.Quintino Bocaiúva - Adelino Fontoura


Uma vez escrito este nome, que é um símbolo, porque é uma síntese, sinto-me fortemente impelido pelo irresistível e poderoso impulso da verdade a adicionar-lhe, como particularidade complementar, esta frase: um homem de bem.
O leitor fluminense deve ter encontrado provavelmente na rua, algumas vezes, um indivíduo magro, franzino, de fisionomia melancólica e triste, rosto aquilino e agudo, fronte alta e escampada, a cabeça resolutamente levantada, passos firmes e compassados, caminhando sempre retilineamente como quem marcha para um destino; concentrado, pensativo, entregue obstinadamente aos profundos encantos da meditação. Pois bem: esse perfil cavalheiresco e leal, essa criatura romântica e silenciosa é Quintino Bocaiúva. Habituei-me, desde muito criança, a admirar e a respeitar este nome. E esse respeito e essa admiração que não eram, a esse tempo, mais do que a expressão convicta do meu entusiasmo pelo talento, são hoje, no meu espírito, a ratificação deste mesmo sentimento, mais largamente desenvolvido e mais solidamente baseado.
Não sou da intimidade de Quintino, e, pessoalmente, apenas o conheço de vista. Quanto ao homem público, porém, debaixo do seu duplo aspecto de jornalista e de político; quanto à personalidade distintamente acentuada do lutador visto aí, no duro e áspero conflito da vida pública, Quintino Bocaiúva é simplesmente o tipo exemplar da retidão, afrontando, cheio de impassível serenidade, todos os trabalhos e todo os obstáculos; tem sentido, como poucos, o contato áspero e inclemente das grandes contrariedades.
Entretanto, no meio desta peleja acerba e desfibrante, ele tem conservado inalteravelmente a atitude calma, a altivez intransigente de um forte, sem ter sucumbido, sem ter resvalado convenientemente, como tantos outros, para a serenidade burguesa e pacata, que resulta de um aviltamento cauteloso ou de uma apostasia oportuna. Na sociedade brasileira contemporânea, este fato, por si só, constituiu a mais austera lição e o mais brilhante exemplo. Quintino Bocaiúva, apesar da firmeza catoniana do seu temperamento, não é um homem que impressione pelo seu aspecto severo e duro. Ao contrário: ele impressiona pela singeleza e pela bondade, que derramam na sua fisionomia os tons brandos, docilmente expressivos de um vago misticismo ideal.
Cativam-me extraordinariamente as anedotas biográficas dos grandes homens, as originalidades e os "tiques" dos espíritos superiores. Por isso, quando pela observação e pelo estudo compreendi que Quintino era um original, admirei-o com mais ardor e com mais entusiasmo. E, para dar uma idéia exata e precisa da originalidade de Quintino, já que aludi a isso, eu recordarei que ele nunca foi ministro, nem deputado, nem vereador, nem membro do Instituto Histórico.
Não tem passado de um jornalista, o que, na opinião pitoresca e fútil do sr. Martinho Campos, é uma ocupação reles, indigna, prosaica, chata, de mau gosto. Felizmente - e isso consola - este ministro, eruditamente arrancado pelo Imperador das profundezas da paleontologia pátria, sabe experimentalmente, porque tem sentido que o redator do "Globo" no seu posto de honra é uma força tanto mais respeitável e temida, quanto é robustecida fortemente pelo sentimento de honra, da justiça e do dever.
Quintino é um homem singularmente distraído. Vive constantemente recolhido, como um eremita, dentro do seu "eu". Uma ocasião, - e este episódio é bastante expressivo - em um bonde de Botafogo, iam sentados no mesmo banco, na frente, juntos, em honesta camaradagem: Gusmão Lobo, Joaquim Serra e Quintino Bocaiúva. Em um dos bancos posteriores do veículo ia igualmente sentado um rapaz, cuja descrição fisionômica, os raros que porventura me conhecem dispensam, perfeitamente: era eu.
Levava os olhos sofregamente cravados naquela trípode de titãs, contemplando, cheio de interesse e de curiosidade, todos os movimentos particulares de cada um. A conversa tinha por objeto, cuido, um fato político da atualidade. Gusmão Lobo, conceituoso e grave, visivelmente interessado pelo assunto, argumentava com aquela fluência corretamente acadêmica que todos lhe reconhecem.
Joaquim Serra, o ridente e espirituoso folhetinista, com as cintilações pirotécnicas da sua "verve", ponteava a questão de pequenas alfinetadas incisivas e hilariantes. Quintino, entretanto, sentado entre os dois, não dizia palavra. Ia mudo, calado, numa profunda abstração mental, afagando maquinalmente a barba, com o olhar esquecido no espaço. O seu cacoete particular, aquele movimento rápido do queixo, fazia pensar que ele estava ruminando silenciosamente alguma idéia.
Quintino costuma ir às vezes ao bilhar, dar desenvolvimento aos músculos. Por muito que ele carambole, estou convictamente persuadido que Faure Nocolay podia dar-lhe, em uma partida de cem - noventa e nove de partido. No jornalismo, porém, ele joga taco a taco com os mais notáveis colegas. E nunca perde.

Q.053.Quero voce - Andréa Borba Pinheiro


Quero ser quem você precisa
Quero fazer tudo certo
Quero te dar alegrias
Quero ser seu.
Não quero ver você chorar
Não quero te fazer sofrer
Não quero nem pensar
Que posso te perder.
Quero pedir desculpas
Quero beijar
Quero abraçar
Quero te amar.
Não quero te querer
Sem poder te ter.
Pois isso não é viver.
Quero mais abrir os braços,
e sentir a brisa em meu rosto,
sorrir e pensar
em você.

T.042.Terceira dor - Alphonsus de Guimarães


É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.
As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.
As virgens de Israel as negras comas
Aromalizam com os ungüentos brancos
Dos nigromantes de mortais aromas...
Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.

Q.052.Queria - Angela Bretas


Queria poder neste momento
Sentir seu cheiro
Seu gosto,
Seu corpo...
Queria fazer de você um brinquedo
Sem pressa
Sem receio
De que de mim partirias...
Queria ouvir sua voz
Me chamando
Falando e sussurando
Segredos que só
Nós dois sabemos...
Queria esquecer do mundo
Por um momento apenas
Ser só você e eu
Sem ninguém mais além de nós...
Queria lhe dizer o quanto a saudade
Dói em meu peito
E que a realidade
De sentir sua falta me incomoda...
Queria ser o tempo
Parar de contar
Os segundos, minutos
Que estou longe de você...
Queria poder olhar em seus olhos
E ver o brilho
Que só eles possuem...
Queria ver seu sorriso
E imaginar que sua felicidade
Se relaciona comigo...
Queria ter a certeza
Que em seu pensamento
Há um espaço reservado
Para mim...
Queria lhe abraçar bem forte
E sentir sua força
Tomar conta de meu ser...
Queria ser tua
Só tua...
Sem culpa, sem medo
Simplesmente tua...

Q.051.Que país é este? Para Raymundo Faoro - Affonso Romano de Sant'ana


Fragmento 1
Uma coisa é um país
outra um ajuntamento. Uma coisa é um país,
outra um regimento. Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
- e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um
"futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
- discursando rios e pretensão. Uma coisa é um país,
outra um fingimento. Uma coisa é um país,
outra um monumento. Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca de especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa
visão do paraíso?
que no impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes
reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
- nos trai
Fragmento 2
Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.
Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.
Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos, semeamos promessa e vento
com tempestades na boca, sonhamos a paz na Suécia
com suiças militares, vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia, senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos, bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama, a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama, cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder, pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas
Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais.
Este é o país do descontínuo
onde nada congemina, e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.
Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina, o salário que nos come
e nossa sede canina, a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína, nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina, e nesse mundo às avessas
- a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.
Fragmento 3
Sei que há outras pátrias. Mas
mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.
Esta é a rua em que brinquei,
a bola de meia que chutei,
a cabra-cega que encontrei,
o passa-anel que repassei,
a carniça que pulei.
Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
- ainda morrerei.
Fragmento 4
Minha geração se fez de terços e rosários:
- um terço se exilou
- um terço se fuzilou
- um terço desesperoue nessa missa enganosa
- houve sangue e desamor. Por isto,
canto-o-chão mais áspero e cato-me
ao nível da emoção.Caí de quatro
animal sem compaixão.
Uma coisa é um país,
outra uma cicatriz.
Uma coisa é um país,
outra é abatida cerviz.
Uma coisa é um país,
outra esses duros perfis.
Deveria eu catar os que sobraram
os que se arrependeram,
os que sobreviveram em suas tocas
e num seminário de erradios ratos
suplicar:
- expliquem-me a mim
e ao meu país?
Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um
ainda preso ao dezenove
como um tonto guarani
e aldeado vacum. Sei que daqui a pouco
não haverá mais país.País:
loucura de quantos generais a cavalo
escalpelando índios nos murais,
queimando caravelas e livros
- nas fogueiras e cais,
homens gordos melosos sorrisos comensais
politicando subúrbios e arando votos
e benesses nos palanques oficiais.
Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio. Insisto?
Deve ser um mal do século
- se não for um mal de vista. Já pensei:
- é erro meu. Não nasci no
tempo certo.
Em vez de um poeta crente
sou um profeta ateu.
Em vez da epopéia nobre,
os de meu tempo me legam
como tema
- a farsa
e o amargo riso plebeu.
Fragmento 5
Mas sigo o meu trilho. Falo o que sinto
e sinto muito o que falo
- pois morro sempre que calo.
Minha geração se fez de lições mal-aprendidas
- e classes despreparadas
Olhávamos ávidos o calendário. Éramos jovens.
Tínhamos a "história" ao nosso lado. Muitos
maduravam um rubro outubro
outros iam ardendo um torpe agosto.
Mas nem sempre ao verde abril
se segue a flor de maio.
Às vezes se segue o fosso
- e o roer do magro osso.
E o que era revolução outrora
agora pasas à convulsão inglória.
E enquanto ardíamos a derrota como escória
e os vencedores nos palácios espocavam seus
champanhas sobre a aurora
o reprovado aluno aprendia
com quantos paus se faz a derrisória estória.
Convertidos em alvos e presa da real calçada
abriu-se embandeirado
um festival de caça aos pombos
- enquanto raiava sangüínea e fresca a
madrugada.Os mais afoitos e desesperados
em vez de regressarem como eu
sobre os covardes passos,
e em vez de abrirem suas tendas para a fome dos
desertos,
seguiram no horizonte uma miragem
e logo da luta
passaram
ao luto.Vi-os lubrificando suas armas
e os vi tombados pelas ruas e grutas.
Vi-os arrebatando louros e mulheres
e serem sepultados às ocultas.
Vi-os pisando o palco da tropical tragédia
e por mais que os advertisse do inevitável final
não pude lhes poupar o sangue e o ritual.
Hoje
os que sobraram vivem em escuras
e européias alamedas, em subterrâneos
de saudade, aspurando a um chão-de-estrelas,
plangendo um violão com seu violado
desejo
a colher flores em suecos cemitérios.
Talvez
todo o país seja apenas um ajuntamento
e o conseqüente aviltamento
- e uma insolvente cicatriz.
Mas este é o que me deram,
e este é o que eu lamento,
e é neste que espero
- livrar-me do meu tormento.
Meu problema, parece, é mesmo de princípio:
- do prazer e da realidade
- que eu pensava
com o tempo resolver
- mas só agrava com a idade.
Há quem se ajuste
engolindo seu fel com mel.
Eu escrevo o desajuste
vomitando no papel.
Fragmento 6
Mas este é um povo bom
me pedem que repita
como um monge cenobita
enquanto me dão porrada
e me vigiam a escrita.
Sim. Este é um povo bom. Mas isto também
diziam os faraós
enquanto amassavam o barro da carne escrava.
Isso digo toda noite
enquanto me assaltam a casa,
isso digo
aos montes em desalento
enquanto recolho meu sermão ao vento.
Povo. Como cicatrizar nas faces sua imagem
perversa e una?
Desconfio muito do povo. O povo, com razão,
- desconfia muito de mim.
Estivemos juntos na praça, na trapaça e na desgraça,
mas ele não me entende
- nem eu posso convertê-lo.
A menos que suba estádios, antenas, montanhas
e com três mentiras eternas
o seduza para além da ordem moral.
Quando cruzamos pelas ruas
não vejo nenhum carinho ou especial predileção
nos seus olhos.
Há antes incômoda suspeita.
Agarro documentos,
embrulhos, família
a prevenir mal-entendidos sangrentos.
Daí vejo as manchetes: - o poeta que matou o povo
- o povo que só/çobrou ao poeta
- (ou o poeta apesar do povo?)
- Eles não vão te perdoar
- me adverte o exegeta.
Mas como um país não é a soma de rios, leis,
nomes de ruas, questionários e geladeiras,
e a cidade do interior não é apenas gás neon,
quermesse e fonte luminosa,
uma mulher também não é só capa de revista,
bundas e peitos fingindo que é coisa nossa.
Povo
também são os falsários
e não apenas os operários,
povo
também são os sifilíticos
não só atletas e políticos,
povo
são as bichas, putas e artistas
e não só os escoteiros
e heróis de falsas lutas,
são as costureiras e dondocas
e os carcereiros
e os que estão nos eitos e docas.
Assim como uma religião não se faz só de missas
na matriz,
mas de mártires e esmolas, muito sangue e cicatriz,
a escravidão
para resgatar os ferros de seus ombros
requer
poetas negros que refaçam seus palmares e
quilombos.
Um país não pode ser só a soma
de censuras redondas e quilômetros
quadrados de aventura, e o povo
não é nada novo
- é um ovo
que ora gera e degenera
que pode ser coisa viva
- ou ave tortadepende de quem o põe
- ou quem o gala.
Fragmento 7
Percebo
que não sou um poeta brasileiro. Sequer
um poeta mineiro. Não há fazendas, morros,
casas velhas, barroquismos nos meus versos.
Embora meu pai viesse de Ouro Preto com
bandas de música polícia militar casos de
assombração e uma calma milenar,
embora minha mãe fosse imigrando
hortaliças protestantes tecendo filhos
nas fábricas e amassando a gé e o pão,
olhos Minas com um amor
distante, como se eu, e não minha mulher
- fosse um poeta etíope.
Fácil não era apenas ao tempo das arcádias
entre cupidos e sanfoninhas,
fácil também era ao tempo dos partidos:
- o poeta sabia "história"
vivia em sua "célula",
o povo era seu hobby e profissão,
o povo era seu cristo e salvação.
O povo, no entando, é o cão
e o patrão
- o lobo. Ambos são povo.
E o povo sendo ambíguo
é o seu próprio cão e lobo.
Uma coisa é o povo, outra a fome.
Se chamais povo à malta de famintos,
se chamais povo à marcha regular das armas,
se chamais povo aos urros e silvos no esporte
popularentão mais amo uma manada de búfalos em
Marajó e diferença já não há
entre as formigas que devastam minha horta
e as hordas de gafanhoto de 1948
- que em carnaval de fome
o próprio povo celebrou.Povo
não pode ser sempre o coletivo de fome.
Povo
não pode ser um séquito sem nome.
Povo
não pode ser o diminutivo de homem.
O povo, aliás,
deve estar cansado desse nome,
embora seu instinto o leve à agressão
e embora
o aumentativo de fome
possa ser
revolução

N.056.Namoro Virtual - Andréa Borba Pinheiro


Quem é que entende?
Um namoro virtual...
Coisa meio irreal,
que vive só dentro da nossa mente?
Não...não só a linha telefônica os une...
É só um meio de demonstrar carinho,
na verdade, existe um sentimento,
mas, devido a distância,
demonstram afeto, cada qual no seu cantinho.
Muitos viajam, quilômetros à fio,
para a pessoa amada encontrar.
Enfrentam o calor e o frio,
mas, querem se conhecer, custe o que custar!
Muitas vezes, tornam-se grandes amigos.
Outras,surge um grande amor.
De ambas as formas, continuam unidos...
E quanto à você...permanecerá comigo,
não interessa aonde for!

N.055.Namoro a Cavalo - Alvares de Azevedo


Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia- em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafues encheu de lama...

Eu não desanimei! Se Dom Quixote
No Rossinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes, tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair, de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...

N.054.Na Rua Feia - Abgar Renault


Na rua feia,
de casas pobres,
morreu o filhinho daquela mulher
que lava o linho rico
de um bairro distante.
Morreu bem simplesmente,
assim como um passarinho.
O enterro saiu...lá vai...
um caixãozinho azul
num carro velho de 3a. classe.
Atrás dois autos. Dois.
A tarde irá pôr luto
na rua feia,
de casas pobres?
Garotos brincam de esconder
atrás do muro de cartazes.
Lá no alto
vai-se abrindo grande céu sem mancha
cruzeiro-do-sulmente iluminado.

N.053.Na Minha Terra - Alvares de Azevedo


I

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa e nua
Do prateado véu
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!

N.052.Na contramão - Andréa Borba Pinheiro


Sou amiga dos inimigos,
De quem amo e quero perto,
De quem tento beijar e não consigo,
Inimiga de mim mesma.
Preciso de quem não precisa de mim,
Busco pessoas que não me buscam,
Falo o que não querem ouvir,
E ouço palavras que me machucam.
Corro parada no mesmo lugar,
Abro os olhos e vejo sem enxergar,
Faço carinho sem mesmo te tocar,
Tenho mil espinhos, cuidado ao encostar.
Rio de piadas sem graça,
E choro de tamanha felicidade fictícia,
Todo mundo reclama,
Mas eu acho a minha comida uma delícia.
Como pode ser assim?
Gosto de você, e você... não sabe nem que eu existo... quanto mais gostar de mim?

I.033.Ismália - Alphonsus de Guimarães


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvairo seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

I.032.Invocação - Alvares de Azevedo


Variações em todas as cordas
I
Alma de fogo, coração de lavas,
Misterioso Bretão de ardentes sonhos
Minha musa serás-poeta altivo
Das brumas de Albion, fronte acendida
Em túrbido ferver!-a ti portanto,
Errante trovador d'alma sombria,
Do meu poema os delirantes versos!
II
Foste poeta, Byron! a onda uivando
Embalou-te o cismar-e ao som dos ventos
Das selváticas fibras de tua harpa
Exalou-se o rugir entre lamentos!
III
De infrene inspiração a voz ardente
Como o galope do corcel da Ucrânia
Em corrente febril que alaga o peito
A quem não rouba o coração-ao ler-te?
Foste Ariosto no correr dos versos,
Foste Dante no canto tenebroso,
Camões no amor e Tasso na doçura,
Foste poeta, Byron!
Foi-te a imaginação rápida nuvem
Que arrasta o vento no rugir medonho-
Foi-te a alma uma caudal a despenhar-se
Das rochas negras em mugido imenso.
Leste no seio, ao coração, o inferno,
Como teu Manfred desfraldando à noite
O escurecido véu.-E riste, Byron,
Que do mundo o fingir merece apenas
Negro sarcasmo em lábios de poeta.
Foste poeta, Byron!
IV
A ti meu canto pois-cantor das mágoas
De profunda agonia! -a ti meus hinos,
Poeta da tormenta-alma dormida
Ao som do uivar das feras do oceano,
Bardo sublime das Britânias brumas!
1
Foi-te férreo o viver-enigma a todos
Foi o teu coração!
Da fronte no palor fervente em lavas
Um gênio ardente e fundo:
O mundo não te amou e riste dele
-Poeta-o que era-te o mundo?
Foste, Manfred, sonhar nas serras ermas
Entre os tufões da noite-
E em teu Jungfrau-a mão da realidade
As ilusões quebrou-te!
Como um gênio perdido-em rochas negras
Paraste à beira-mar.
Do escuro céu falando às nuvens-solto
O negro manto ao ar!
O mar bramiu-te o hino da borrasca
E em pé-no peito os braços-
O riso irônico-vinha o azul relâmpago
T'esclarecer a espaços.
A fonte nua o rorejar da noite
Frio-te umedecia
E acima o céu-e além o mar te olhava
C'os olhos da ardentia!
2
As volúpias da noite descoraram-te
A fronte enfebrecida
Em vinho e beijos-afogaste em gozo
Os teus sonhos da vida.
E sempre sem amor, vagaste sempre
Pálido Dom João!
Sem alma que entendesse a dor que o peito
Te fizera em vulcão!
3
Da absorta mente os sonhos te quebrava
Do mundo o sussurrar.
E foste livre refazer teu peito
Ao ar livre do mar.
E quando o barco d'alta noite aos ventos
Entre as vagas corria
E d'astro incerto o alvor te prateava
A palidez sombria,
Era-te amor o pleitear das águas
Nos rochedos cavados-
E amargo te franzia um rir de gozo
Os lábios descorados!
E amaste o vendaval, que as folhas trêmulas
Das florestas varria-
E o mar-alto a rugir-que a ouvi-lo, a fronte
Altiva se te erguia!
E amaste negro o céu -o mar-a noite
E entre a noite-o trovão!
Num crânio zombador brindaste aos mortos.
Cantor da destruição
4
E um dia as faces desbotou-te a morte
De alvor, frio e letal
Deram-te em presa aos vermes-Mas que importa
Se é teu nome imortal-Se foste sobranceiro na peleja
Como o foras nos cantos-
Se o grego litoral e o mar que o banha
Por ti beberam prantos?
Se do levante as virações correndo
Nos mares orientais
Deram-te nênias no sussurro trêmulo,
Byron, se o nome teu lembra um espírito
Das glórias decaído
E fez-te o coração os teus poemas
De coração perdido,
Se co'a dor de teus hinos simpatizam
Duma alma os turvos imos
E o teu sarcasmo queimador consola
E contigo sorrimos?
5
Vem, pois, poeta amargo da descrença
Meu Lara vagabundo-
E co'a taça na mão e o fel nos lábios
Zombaremos do mundo!

I.031.Inventário - Alexandre O'Neill


Um dente d'ouro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante
A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno
Um revolver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria
Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa
O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé
Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza
Um octogenário divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

I.030.Intervalo amoroso - Affonso Romano de Sant'ana


O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?
Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?
Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?
Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?
O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?
É como se entre um dia e outro
houvesse o vago-dia, cinza,
vida igual a morte, amortecida.
O poema, avulso gesto de amor,
é vão recobrimento de espaços.
O poema é dúbia forma de enlace,
substitui o pênis
pelo lápis
- e é lapso.

I.029.Antenções - Angela Bretas


De ti eu quero a nítida impressão
da brisa soprando
dentro do vento.
Quero o relaxamento
pleno da noite
entregando-se ao amanhecer.
Quero o cristal
das águas puras
rolando montanha abaixo.
Quero o último hausto
do rubro sol
desmaiando no horizonte.
Quero o tilintar na madrugada
dos corpos envoltos
em lençóis e pelos.
Quero a ânsia sedenta
dissipada em toques
saciada em gestos.
Quero o dia acordando
no horizonte corado
desabrochar em ti.

I.028.Insensatez - Ademir Antonio Bacca


eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.
nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.

I.027.Inebriantes na dança do amor - Ana Cristina Pozza


Minha mente é só desejo:
Minha boca clama pelo teu beijo,
Meu corpo pulsa pelo teu toque,
Meu ser estremece pelo teu olhar.
Eu sou,
inteiramente,
lua,
nua,
tua.
Desejo acima de desejo
Corpo sustentando corpo
Alma comportando alma.
Tu
infinitamente
no meu
íntimo...
Nós dois
Inebriantes
Na dança do amor
A tocar
A sentir
A gozar
Na explosão do depois...

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

I.026.Idéias Íntimas XIV - Alvares de Azevedo


Parece que chorei . Sinto na face
Uma perdida lágrima rolando. . .
Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,
Derrama no meu copo as gotas últimas
Dessa garrafa negra...
Eia! bebamos!
És o sangue do gênio, o puro néctar
Que as almas de poeta diviniza,
O condão que abre o mundo das magias!
Vem, fogoso Cognac! É só contigo
Que sinto?me viver. Inda palpito,
Quando os eflúvios dessas gotas áureas
Filtram no sangue meu correndo a vida,
Vibram?me os nervos e as artérias queimam
Os meus olhos ardentes se escurecem
E no cérebro passam delirosos
Assomos de poesia. . . Dentre a sombra
Vejo num leito d'oiro a imagem dela
Palpitante, que dorme e que suspira,
Que seus braços me estende. . .
Eu me esquecia:
Faz?se noite, traz fogo e dous charutos
E na mesa do estudo acende a lâmpada...

I.025.Idéias Íntimas XIII - Alvares de Azevedo


Havia uma outra imagem que eu sonhava
No meu peito na vida e no sepulcro.
Mas ela não o quis rompeu a tela
Onde eu pintara meus doirados sonhos.
Se posso no viver sonhar com ela,
Essa trança beijar de seus cabelos
E essas violetas inodoras, murchas,
Nos lábios frios comprimir chorando,
Não poderei na sepultura, ao menos,
Sua imagem divina ter no peito.

I.024.Idéias Íntimas XII - Alvares de Azevedo


Aqui sobre esta mesa junto ao leito
Em caixa negra dous retratos guardo.
Não os profanem indiscretas vistas.
Eu beijo?os cada noite: neste exílio
Venero?os juntos e os prefiro unidos
-Meu pai e minha mãe.-Se acaso um dia
Na minha solidão me acharem morto,
Não os abra ninguém. Sobre meu peito
Lancem?os em meu túmulo. Mais doce
Será certo o dormir da noite negra
Tendo no peito essas imagens puras.

I.023.Idéias Íntimas XI - Alvares de Azevedo


Junto do leito meus poetas dormem
-O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron?
Na mesa confundidos. Junto deles
Meu velho candeeiro se espreguiça
E parece pedir a formatura.
Ó meu amigo, ó velador noturno,
Tu não me abandonaste nas vigílias,
Quer eu perdesse a noite sobre os livros,
Quer, sentado no leito, pensativo
Relesse as minhas cartas de namoro!
Quero?te muito bem, ó meu comparsa
Nas doudas cenas de meu drama obscuro!
E num dia de spleen, vindo a pachorra,
Hei de evocar?te num poema heróico
Na rima de Camões e de Ariosto
Como padrão às lâmpadas futuras!

I.022.Idéias Íntimas X - Alvares de Azevedo


Meu pobre leito! eu amo?te contudo!
Aqui levei sonhando noite belas
As longas horas olvidei libando
Ardentes gotas de licor doirado,
Esqueci?as no fumo, na leitura
Das páginas lascivas do romance. .
Meu leito juvenil, da minha vida
És a página d'oiro. Em teu asilo
Eu sonho?me poeta, e sou ditoso,
E a mente errante devaneia em mundos
Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes
Do levante no sol entre odaliscas
Momentos não passei que valem vidas!
Quanta música ouvi que me encantava!
Quantas virgens amei! que Margaridas,
Que Elviras saudosas e Clarissas
Mais trêmulo que Faust eu não beijava,
Mais feliz que Don Juan e Lovelace
Não apertei ao peito desmaiando!
Ó meus sonhos de amor e mocidade,
Por que ser tão formosos, se devíeis
Me abandonar tão cedo... e eu acordava
Arquejando a beijar meu travesseiro?

I.021.Idéias Íntimas IX - Alvares de Azevedo


Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvas se fechar de gozo!
Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas
Passam tantas visões sobre meu peito!
Palor de febre meu semblante cobre,
Bate meu coração com tanto fogo!
Um doce nome os lábios meus suspiram,
Um nome de mulher . . e vejo lânguida
No véu suave de amorosas sombras
Seminua, abatida, a mão no seio,
Perfumada visão romper a nuvem,
Sentar?se junto a mim, nas minhas pálpebras
O alento fresco e leve como a vida
Passar delicioso. . . Que delírios!
Acordo palpitante . . inda a procuro;
Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas
Banham meus olhos, e suspiro e gemo. . .
Imploro uma ilusão. . . tudo é silêncio!
Só o leito deserto, a sala muda!
Amorosa visão, mulher dos sonhos,
Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!
Nunca virás iluminar meu peito
Com um raio de luz desses teus olhos?

I.020.Idéias Íntimas VIII - Alvares de Azevedo


O pobre leito meu desfeito ainda
A febre aponta da noturna insônia.
Aqui lânguido a noite debati?me
Em vãos delírios anelando um beijo...
E a donzela ideal nos róseos lábios,
No doce berço do moreno seio
Minha vida embalou estremecendo. . .
Foram sonhos contudo. A minha vida
Se esgota em ilusões. E quando a fada
Que diviniza meu pensar ardente
Um instante em seus braços me descansa
E roça a medo em meus ardentes lábios
Um beijo que de amor me turva os olhos.
Me ateia o sangue, me enlanguesce a fronte,
Um espírito negro me desperta,
O encanto do meu sonho se evapora
E das nuvens de nácar da ventura
Rolo tremendo à solidão da vida!

I.019.Idéias Íntimas VII - Alvares de Azevedo


Em frente do meu leito, em negro quadro
A minha amante dorme. É uma estampa
De bela adormecida. A rósea face
Parece em visos de um amor lascivo
De fogos vagabundos acender?se. . .
E com a nívea mão recata o seio. . .
Oh! quantas vezes, ideal mimoso,
Não encheste minh'alma de ventura,
Quando louco, sedento e arquejante,
Meus tristes lábios imprimi ardentes
No poento vidro que te guarda o sono

I.018.Idéias Íntimas VI - Alvares de Azevedo


Junto a meu leito, com as mãos unidas,
Olhos fitos no céu, cabelos soltos,
Pálida sombra de mulher formosa
Entre nuvens azuis pranteia orando.
É um retrato talvez. Naquele seio
Porventura sonhei doiradas noites:
Talvez sonhando desatei sorrindo
Alguma vez nos ombros perfumados
Esses cabelos negros, e em delíquio
Nos lábios dela suspirei tremendo.
Foi?se minha visão. E resta agora
Aquela vaga sombra na parede
- Fantasma de carvão e pó cerúleo,
Tão vaga, tão extinta e fumarenta
Como de um sonho o recordar incerto.

I.017.Idéias Íntimas V - Alvares de Azevedo


Aquele é Lamennais-o bardo santo,
Cabeça de profeta, ungido crente,
Alma de fogo na mundana argila
Que as harpas de Sion vibrou na sombra,
Pela noite do século chamando
A Deus e à liberdade as loucas turbas.
Por ele a George Sand morreu de amores,
E dizem que. . . Defronte, aquele moço
Pálido, pensativo, a fronte erguida,
Olhar de Bonaparte em face Austríaca,
Foi do homem secular as esperanças.
No berço imperial um céu de Agosto
Nos cantos de triunfo despertou?o. . .
As águias de Wagram e de Marengo
Abriam flamejando as longas asas
Impregnadas do fumo dos combates,
Na púrpura dos Césares, guardando?o.
E o gênio do futuro parecia
Predestiná?lo à glória. A história dele?
Resta um crânio nas urnas do estrangeiro. . .
Um loureiro sem flores nem sementes. ..
E um passado de lágrimas. . . A terra
Tremeu ao sepultar?se o Rei de Roma.
Pode o mundo chorar sua agonia
E os louros de seu pai na fronte dele
Infecundos depor... Estrela morta,
Só pode o menestrel sagrar?te prantos!

I.016.Idéias Íntimas IV - Alvares de Azevedo


Na minha sala três retratos pendem.
Ali Victor Hugo. Na larga fronte
Erguidos luzem os cabelos loiros
Como c'roa soberba. Homem sublime,
O poeta de Deus e amores puros
Que sonhou Triboulet, Marion Delorme
E Esmeralda a Cigana e diz a crônica
Que foi aos tribunais parar um dia
Por amar as mulheres dos amigos
E adúlteros fazer romances vivos.

I.015.Idéias Íntimas III - Alvares de Azevedo


Reina a desordem pela sala antiga,
Desce a teia de aranha as bambinelas
À estante pulvurenta. A roupa, os livros
Sobre as cadeiras poucas se confundem.
Marca a folha do Faust um colarinho
E Alfredo de Musset encobre às vezes
De Guerreiro ou Valasco um texto obscuro.
Como outrora do mundo os elementos
Pela treva jogando cambalhotas,
Meu quarto, mundo em caos, espera um Fiat!

I.014.Idéias Íntimas II - Alvares de Azevedo


Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta. . .
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer. . . Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta. . .
Um sonho de mancebo e de poeta,
El?Dorado de amor que a mente cria
Como um Éden de noites deleitosas....
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo. . . Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encerado o copo inda verbera
As águas d'oiro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura?se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe Harold entreaberto ou Lamartine.
Mostra que o romanismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.