sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

U.052.Urgência - Nathaly Guatura


Eis-me aqui novamente em tanta súplica perante as velas Mentindo que mentisse quando punha-me a considerar Que das belezas mais amáveis que a vida ousa me negar Tu foste (inda é), desesperadamente, a maior de todas elas.
Escrevo, assim, mais que sorumbáticas letras atemporais Das saudades que eu sentia de nossos utópicos carnavais. Mais que a desventura dos vestígios que me vieste exalar. Muito mais que o destempero deste pedaço de meu pesar.
Alerta-me de tua existência, lança-me um brado, um ruído Que reexista contigo o ser que conheceste, que já não sou Sem ciência do que outrora fui, hoje somente animal aluído Tomado do instinto, num deletério ímpeto busca-lo, eu vou!
Em tua busca, desatinei praça em praça por toda essa Minas Caindo agora, sob esse céu sem luar, ao som de coisa alguma Avistando absolutamente nada senão previsões matutinas Descanso os olhos e de repente, não mais existo, em suma.
Amanheço bicho oco. Um bicho repleto. Um bicho alucinado pela saudade.

U.051.Um Guardanapo - Nathaly Guatura


Com essa mania de Poesia
Eu te perdi no rumo da prosa
Tentei te encontrar
Na taça
Mas o vinho era distinto e
Me tomou no seu lugar

U.050.Um minuto de silêncio - Douglas Farias


Naquele minuto que pensares em mim
Em silêncio, ouça minha canção
Que eternamente soará aos seus ouvidos
Trazendo calma ao seu coração

Naquele minuto que lembrares de mim
Em silêncio, deixe uma lágrima rolar
Saberás que o passageiro é eterno
Nunca se sentirá só quando pro céu olhar

Minuto de silêncio
Silêncio...

U.049.Um beijo a mais - Douglas Farias


Faz de conta que aquele beijo valeu
E nada fale do que pensa a respeito
Não fui eu, não foi você, fomos nós
Foi o momento, oportuno momento

Inesperado, da rejeição ao sorriso
Inexplicável, pois não permitiria
Irrevessível, outro não conseguiria
Inesquecível, vivo a lhe dizer

Só penso naquele beijo
Agora muito mais lhe desejo
Mexe o coração quando te vejo
Te amar só faz machucar a mim mesmo

Só resta saber se um dia lembrará
O toque no rosto, o beijo na boca
Há uma chance de tornar real
Podemos deixar tornar real

Naquela noite você e eu
Seu sonho se juntou ao meu
Aconteceu, você não esqueceu
Mas aquele beijo foi nosso adeus

U.048.Uma louca tempestade - Ana Carolina


Eu quero uma lua plena
Eu quero sentir a noite
Eu quero olhar as luzes
Que teus olhos
Não me têm deixado ver
Agora eu vou viver...

Eu quero sair de manhã
Eu quero seguir a estrela
Eu quero sentir o vento pela pele
Um pensamento me fará
Uma louca tempestade...

Eu quero ser uma tarde gris
Quero que a chuva corra sobre o rio
O rio que por ruas corre em mim
As águas que me querem levar tão longe
Tão longe que me façam esquecer
De ti...

Eu quero partir de manhã
Eu quero seguir a estrela
Eu quero sentir o vento pela pele
Um pensamento me fará
Uma louca tempestade...

Eu quero uma lua plena
Eu quero sentir a noite
Eu quero olhar as luzes
Que teus olhos
Não me têm deixado ver
Agora eu vou viver...

Eu quero ser uma tarde gris
Quero que a chuva corra sobre o rio
O rio que por ruas corre em mim
As águas que me querem levar tão longe
Tão longe que me façam esquecer
De ti...

Tão longe que me façam esquecer
De ti...

U.047.Um amor para amar - Douglas Farias


Conhecerei seu amor, da investida de um olhar Através de um olhar, um lindo sorriso esboçaras Desse lindo sorriso fez-se um coração apaixonar Almejo esse amor, esse olhar, esse sorriso
Agora sabes que por ti possuo um grande desejo Em uma mão tenho uma perfumada orquídea a lhe dar Enquanto com a outra, seu rosto suavemente à acariciar Evitando não tirar atenção de sua doce voz ao falar
Tenho seu amor, aceite o que tenho a oferecer Terás por toda vida um coração para amar Saberás que não há do que duvidar Pra sempre um amor, pra sempre te amar

U.046.Uma vez - Douglas Farias


Como um feixe de luz, passou por mim Não teria percebido se não fosse o perfume De uma vez num dia chuvoso nos encontramos Foi uma vez, num irresistível deslumbre
Como esquecer um sorriso encantador E olhos de mel tão intensos e vibrantes De uma vez que a vi com seu guarda-chuvas Foi uma vez, conheci alguém tão interessante
Mesmo sem o que dizer, aproximei de você "Bom dia" e "que chuva!" foi o máximo que saiu De uma vez que você olhou pra mim Foi uma vez, que amor assim assentiu

U.045.Eu - Florbela Espanca


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

U.044.Uma canção feita de mim - Fernando Neto


A música do momento
tudo quer de mim um pouco
e, pouco a pouco
vai levando o muito que há em mim
neste som, nestas teclas, nestas notas
cordas
caminho onde deslizo
meus dedos acompanham
este som que vem daqui
o ritmo, as batidas
sentidas
do som que vem de dentro
meu coração está assim
com saudades de mim...

U.043.Um lugar que só nós conhecemos - Keane


Eu andei por uma terra desabitada
Eu conhecia o caminho como a palma da minha mão
Eu senti a terra sob meus pés
Eu sentei ao lado do rio e ele me completou

Coisa simples, para onde você foi?
Eu estou ficando velho e preciso de algo em que confiar
Então me diga quando você vai me deixar entrar
Eu estou ficando cansado e preciso de algum lugar para começar

Eu encontrei por acaso uma árvore caída
Eu senti seus ramos olhando para mim
Esse é o lugar, onde costumávamos nos amar?
Esse é o lugar com o qual eu tenho sonhado?

E se você tiver um minuto por que nós não vamos
Falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?
Isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para algum lugar que só nós conhecemos?
Algum lugar que só nós conhecemos

Então se você tiver um minuto, por que nós não vamos
Falar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?
Isso poderia ser o final de tudo
Então porque nós não vamos
Então porque nós não vamos

Isso poderia ser o final de tudo
Então porque nós não vamos
Para algum lugar que só nós conhecemos?
Algum lugar que só nós conhecemos?
Algum lugar que só nós conhecemos?
Richard Hughes, Tom Chaplin e Tim Rice-Oxley

U.038.Uma peça em quatro anos - Pastorelli


Primeiro ato.

Reluzente nos trazes finos, com orgulho ostentava im­ponência toda empertigada, ereta, sentada no banco traseiro do carro. Sua posi­ção social dizia para não perder a pose, manter a ostentação sem se desleixar.
Amendoados os olhos olhavam pela pequena ja­nela. Não prestava muita atenção. Conhecia por onde passavam. Fazia sempre esse percurso, quase todo dia. O semblante passivo não dei­xava os músculos se mexerem.
Não se preocupava James competente, dirigia com mão firme sem sair do itine­rário. Confiante, lentamente James virou à esquerda, subindo devagar a avenida dois. No meio do quarteirão, di­minui a marcha, acendeu o pisca-pisca e encostou o carro em frente à loja. James puxou o freio de mão, desligou o motor, desceu passando pela frente do veículo e abriu a porta para a patroa que esperava vendo os movimentos do chofer.
James abriu a porta e respeitoso segurando a maçaneta, ajudou a pa­troa a descer. Devagar, apreciando cada gesto, se excitava saboreando a sensação que causava. A fim de aumentar o impacto, parou no meio da calçada olhando para os lados, e num mo­vimento provocante, eró­tico, com a mão livre, a outra segurava a bolsa, passou a mão no ves­tido justo tentando alisar o amassado por ter es­tado tanto tempo sen­tada.
Ao mudar o passo levando a mão procurando algo para se equili­brar, caiu. Tinha quebrado a perna direita, o palito se partira. Gina olhou em volta. Ah! Aqui está, achei, esse servira, disse trocando o palito que­brado pelo novo que fazia de perna para a boneca. Pronto, continuemos.
James sacudiu a cabeça demonstrando descon­tentamento. A pa­troa mancava! A perna direita estava um pouco maior, diferença pequena, porém sem perder a pose, mancando ela entrou na loja. Encos­tado no carro, James observava. Lamentava a patroa não merecia isso, que decepção, pensou. Em fim o que poderia fazer além de servir, nada mais.
Nisso a patroa saia da loja acompanhada por um funcionário sobrecarregado de pacotes. Prestativo James pegou os em­brulhos e colocou no porta mala, depois abriu a porta dizendo:
- Sinto muito senhora.
- Obrigada James, vamos embora estou cansada.
- Des­culpe senhora se me permite.
- O que?
- Desculpe senhora não vai ser possível não agora.
- Porque James?
- A senhora não ouve?
- Ouvir o que, James?
- Ouça es­tão chamando à senhora.
- O que?
Ergueu a cabeça, re­almente, ouviu seu nome sendo chamado.
- Ah! Justo agora!
Colocou a boneca manqui­tola no chão.
- James, por favor, não saía daí, vou ver o que mamãe quer e já volto.

Segundo ato.

Na sala estavam três mulheres.
A mãe, a tia, cunhada da sua mãe, e a vó.
- Bença vó, bença tia.
Cumprimentou educadamente.
- Deus te abençoe, responderam as duas quase ao mesmo tempo.
- Ah! Gina venha aqui, disse a mãe. Por favor, vá até a casa da tia buscar carvão em brasa para a vó fazer defumação.
- Fale para sua prima escolher os que estiverem bem vermelhos, disse a tia.
- Cuidado para não se queimar, falou a vó.
-Olhe bem antes de atravessar a rua, recomendou a mãe.
Ao abrir a porta, Gina sentiu o sol. Tapando os olhos com a mão, olhou o céu claro. As nuvens brancas estavam bonitas, gostava de ficar deitado no quintal vendo as formas que as nuvens cria­vam.
Bem lá vou eu, pen­sou, em mais uma missão. Pena não ter trazido James para me fazer companhia.

Terceiro ato

Ao encostar a xícara nos lábios, começava a se preocupar.
- A Gina está demorando, disse a mãe.
- Não se preocupe logo ela estará de volta, falou a vó.
- Daqui a pouco ela chega, falou a cunhada.
Nisso ouviram a porta abrir e fechar.
- Ela chegou, disse a mãe se levantando.
Instantes depois estava a frente delas a menina, pálida, tremendo, chorando. Assustadas as três mulheres ajoelharam ao redor de Gina.
- O que foi, disse a mãe.
O que aconteceu, falou a vó.
- Você se machucou, perguntou a tia.
Gina não conseguia falar. Deram um copo d’ água com açúcar. A mãe colocou a menina no colo. Com muito custo conseguiu contar.
A prima pegara umas quatro brasas e enrolara no jor­nal dizendo:
- Olha, se o jornal começar a queimar, volte aqui que te darei mais jornal.
E quando ela atravessava o Jardim da Boa Morte, o jornal pegou fogo. Assustada jogou longe as brasas e o jornal incendiado, e viera cor­rendo. As três mulheres olharam para Gina, uma para a outra, e caíram na gar­galhada.
A menina coitada chorava. Assim Gina ganhou por mui­tos anos o apelido de Maria da Brasa, tudo por causa da prima.

Quarto ato.

Gina fechou o caderno.
Sorriu vendo sua imagem no espelho do quarto. Então o irmão com a mania besta de escritor, escrevera esse conto sobre o que lhe acontecera há.... Quanto tempo? Uns quarenta anos mais ou menos, ela nem se lembrava mais.
Me­xendo nas tranquei­ras descobrira o caderno. Na época dera uma bronca no irmão. Era o seu segredo sendo revelado. Ficou quase uns dois me­ses sem falar com ele. Também quem mandou escrever. Tudo porque, os filhos, os netos, as noras, até o marido tiraram um sarro da cara dela avivando o esquecido apelido.
Agora sentia que fora injusta com o irmão. Essa ma­nia besta de escrever! Nisso ouviu vozes. Chamavam por ela. Pegou o caderno e desceu. Eram os netos. Nossa estavam grandes!
- Olá, vó? Onde estão os velhos, perguntou o mais moço.
- Foram na casa do seu pai, respondeu Gina.
- Vamos lá então pessoal.
Quando iam saindo a neta mais velha se voltou perguntando,
- Vó a senhora estava chorando?
- Não, respondeu rápida escondendo o caderno. Vá, vá com os outros, disse empurrando a neta porta fora.
Assim que o silêncio voltou a reinar, desceu até a garagem. Rasgou folha por folha, riscou um fósforo e queimou o caderno.
Estou queimando o passado, pensou. Não foi ele que disse: temos que enterrar o passado. Depois que o último pedaço tinha sido queimado, saiu fechando a porta.

U.042.Uma canção para voce - Douglas Farias


Antes não havia canção para compor
Hoje seu sorriso me completou
As palavras que me fugiam o pensamento
Sua presença me livrou do tormento

Uma poema pra te homenagear
Lindas palavras à declarar
Com amor versos escrevi
À mulher que me faz o mais feliz

É todo seu meu coração
É sua essa doce canção
De todo meu coração queria lhe dizer
O quanto é grande meu amor por você

U.041.Um novo dia - Eliane F.C.Lima


Com os olhos ainda fechados – tentativa de não acordar de todo –, quis se espreguiçar longamente... mas, em vez de sentir os músculos se estirando, nada sentiu. Ao mesmo tempo, havia uma sensação vaga, alguma coisa que devia lembrar. Tornou a tentar alongar os braços e pernas, só para testar, mas ainda agora não conseguia aquela sensação gostosa de todas as manhãs. Mesmo contra a vontade, começou a arriscar a abrir os olhos. Muito devagar, era o truque que tinha desenvolvido para entrar aos poucos em contato com a realidade. Realidade, porém, era uma palavra que não parecia calhar com a situação. Tentando abrir os olhos, pálpebras pesadas ainda, não viu a luz da janela. Então era isso, vai ver que não tinha amanhecido, nem madrugada fosse. O cérebro se recusava a engrenar fora do horário. Se não via, queria ouvir o que se passava em volta, pois havia algum som, havia. Um rumor vago, parecia sussurro. Era um som conhecido, que não conseguia identificar exatamente. Choro? Era choro? Um lamentoso choro de sofrimento, que estranho! Alguém estava chorando. Um sonho, com certeza. Aquela impossibilidade de se mexer, de abrir os olhos, de ouvir com clareza. Em sonho era sempre assim. Na verdade, começou a sentir um leve sobressalto. Mais do que sonho, pesadelo. Mas havia um cheiro. Contínuo, envolvente. Entrando pelas narinas. Um perfume, quem sabe. De flor. Meio nauseante. O sobressalto começou a se transformar em pânico. Havia um fato para ser lembrado. Precisava se lembrar do que tinha de ser lembrado. Era como se houvesse uma urgência naquilo. Talvez fosse a chave para acordar. De repente, saindo das profundezas do inconsciente, a lembrança veio. Avassaladora. Tremendo da cabeça aos pés, todos os seus sentidos se conectaram. E, retesada cada parte de seu ser, levitou acima de todas as flores em que estava mergulhado, de todas as pessoas taciturnas, que o olhavam, lamentosamente, e partiu pela janela, finalmente, acordado.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

U.040.Um dia Descobrimos - Mário Quintana


...Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela... Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer ... Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável... Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples... Um dia percebemos que o comum não nos atrai...Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom... Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você... Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." Um dia percebemos que somos muito importante para alguém, mas não damos valor a isso... Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais... Enfim... Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito... O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

U.039.Um plano… Um filme...Uma vingança - Patorelli


Descia a escada quando ela chegou.

A esposa nada dissera que ela vinha. Não tinha a prática de receber visitas. Por isso estranhou.

Constatou a exuberância feminina de Silvana apagando a feminilidade da esposa. Tendo um sorriso largo, dentes brancos, impunha um não sei o que de atrativo. O rosto oval modulado por uma disciplina estética da beleza, reforçado pelos olhos amendoados, era ressaltado pelos cacheados cabelos sobre os estreitos ombros. O busto de seios rijos, quadril no padrão normal aguçava qualquer masculinidade.

- Se eu soubesse que você vinha teria colocado uma camiseta, disse Cláudio cumprimentando.

- Não esquenta! Não ligo para isso, respondeu Silvana.

- Cláudio gosta de ficar a vontade depois do banho, disse Rúbia como explicação.

- Mesmo assim, vou colocar uma camiseta, disse Cláudio subindo a escada.

Revirou as gavetas uma por uma procurando a mais nova, bonita, a que ganhara de aniversário. Olhou-se no estreito espelho da porta do guarda-roupa. Na fria imagem refletida sentiu-se satisfeito.

No momento que o pé direito começava a tocar o primeiro degrau, estarrecido interrompeu o movimento. O que seus olhos viam a mente não queria registrar como verdade o que via. Não pode ser? O que é isso? Retrocedeu o passo suspenso. Rúbia beijava Silvana num escandaloso beijo. Cláudio retrocedeu até se encostar a parede. As pernas tremiam. Sentiu o frio intenso congelar os sentimentos. Uma pedrada não seria tão forte como a dor arrebentando o peito.

Viu seu reflexo no estreito espelho. Com raiva tirou a camiseta bonita jogando longe. Vestiu outra qualquer. Precisava descer. Respirou fundo. Saiu do quarto batendo a porta.

Procurou se concentrar na naturalidade dos gestos ao descer a escada como se nada tivesse acontecido. Enquanto conversavam, prestou atenção nas entrelinhas das palavras. Nos olhares de uma para outra. Nos gestos... Não percebeu nada que pudesse denunciá-las.

Remoendo o cérebro, perguntou a si mesmo o que deveria fazer. No momento não devo fazer nada. Talvez, mais tarde possa pedir uma explicação à Rúbia. A conversa não estava de nada interessando a ele. Subiu para terminar o trabalho gráfico que vinha fazendo.

Fixou no pedestal a filmadora e colocou numa posição privilegiada para que as duas não perceberem. Ligou a filmadora e do micro foi manuseando a câmara. Virava para a direita, para a esquerda, acionava o zoom, deslocava, congelava a imagem, filmava as duas nos abraços e beijos.

Ao mesmo tempo maquinava uma pequena vingança. Durante aproximadamente, uns trinta minutos de gravação, achou suficiente. Retirou a filmadora do pedestal e passou a trabalhar as imagens no computador. Eram cenas explicitas fortes, ousadas em que as duas se extravasaram nas carícias. Ao puxar mais para perto uma cena, em que sobressaia a feição de Rúbia, pode notar a satisfação, o prazer estampado que nunca percebera.

Quando terminou o que tinha de ser feito, passou para uma fita, desligou o micro, guardou a filmadora e fechou o pequeno escritório.

Eram mais de três horas da madrugada. Não vira Silvana sair e muito menos quando Rúbia foi deitar. Ainda bem. No quarto, com maior cuidado para não acordar a esposa, pegou umas roupas, enfiou na mochila e saiu. Deixou a porta do quarto aberta. Na sala ligou a televisão e colocou a fita no vídeo. Programou tudo para ser ligado automaticamente, dali a duas horas e saiu indo para um hotel.


Estava terminando uma cena para um comercial de cuecas, quando ouviu que alguém entrava. Minutos depois, Sandro apareceu.

- Olá! Como está?

- Estou bem, disse Cláudio cumprimentando o amigo com um
beijo.

- Já está definitivo aqui?

- Sim.

- Então deu tudo certo?

- Veja você mesmo.

Sandro leu :
_____________________________________________________________
De : Rúbia

Para : Cláudio

Enviada em : 16 de junho de ...

Assunto : Perdão

Cláudio me perdoe se te magoei.
Você saiu repentinamente.
Ia te explicar tudo.
Mas foi melhor assim.
A fita que você deixou queimei.
Estou em Roma feliz como a muito deveria estar.
Silvana e eu vamos montar um apartamento.

Beijos e felicidades
Rúbia

- Quer dizer que deu tudo certo?

- Melhor que a encomenda.

- Eu sabia que Silvana não iria falhar. Não esperava que fossem se apaixonarem.

- Como você conseguiu convencer ela?

- Com uma pequena aposta.

- O plano era apenas para Silvana se envolver com minha esposa, para que eu tivesse um pretexto e acabar com o casamento.

- Não estou entendendo uma coisa. Ela fala em fita! Que fita é essa?

- Ah! Fita! Não estava mesmo no plano. Não desmascarei as duas no ato. Filmei toda a relação amorosa das duas, e no micro trabalhei as imagens. O que deu um filme de uma hora mais ou menos. Fiz duas cópias, deixei uma no vídeo pronto para ser ligado automaticamente, e a outra copia inscrevi no festival Mix.

- Puxa! Pena eu não estar presente para ver a cara dela.

- Mas o melhor vem agora.

- O que?

- Ganhei o prêmio de revelação do festival!

- Ganhou?!

- Vinte mil reais!

- Caramba!!

- E vendi os direitos do filme para uma distribuidora, que nesse momento creio já espalhou para o Brasil todo.

- Nesse quase dois meses que estive fora, você trabalhou!

- Fez boas fotos?

- Fiz. Cada uma... Mas não vamos falar de mim não. Vamos tomar um banho, abrir umas cervejas, e ver esse filme premiado.

- Sinto muito. Só se for alugado. No contrato de venda tinha uma clausula no qual rezava que eu não podia ter nenhuma cópia.

-Que chato!!

- Chato nada. Vamos tomar um bom banho, sair, dançar, festejar sua volta, a minha liberdade e começar a gastar esses vinte mil reais.

-Isso mesmo. Vamos lá então.

U.036.Um "dedo-de-prosa" - Lucelena Maia


Agrada-me dizer do homem do campo
esse simplório contador de "causo"
sob o sol ou ante a um pirilampo,
arrebata de quem o ouve, aplauso...

Observá-lo e aos seus sonhos deitados
na modesta casa de pau-a-pique,
fumando cigarro - fumo picado -
soprando a fumaça para o alambique...

Com palha nos lábios, face sorrindo
ele, que tem vida quase banal
agradece a Deus, pelo dia findo.
Eu! Pela simplicidade rural

Elevadas as mãos com fugacidade
num "dedo-de-prosa" muito tranquilo
carrega na voz arrastada idade
e nos "causos" que conta, rico estilo

Seus olhos, por vezes, pescam do céu
as estrelas mais brilhantes que vêem
direcionando-as com alma fiél
para os amigos que, como ele, crêem...

"...A vida, como presente divino,
e porque é, nós devemos respeitá-la
e ao próximo, também ao destino".
Assim ele encerra sua mansa fala.

U.037.Um pouco antes da primavera - Rosa Pena


Nas semanas que antecedem a primavera começo a criar novas expectativas. Vivo movida por elas. Em cada estação tenho uma. Nesse inverno tive a sensação do pré-catártico, do pré-apocalíptico e não é que os ventos tentaram me derrubar?


Perder amigos, operar e ser obrigada a um descanso obrigatório (descansar do que se ama fazer!?) é trágico demais para o contorno do meu sorriso.

Devo confessar que tive um verão de mediano a fraco, mas um outono que merece o Oscar. O casamento de minha filha (lindo de viver) e uma viagem maravilhosa (fico bem sebosa pra dizer que rever a Europa é sempre show).

Se eu acreditasse em olho gordo mandava um monte de gente colocar balão gástrico nas retinas, pois a surra que a bendita vida aprontou para mim depois desses momentos mágicos do maravilhoso mundo da Rosa, parece coisa feita! Se foi macumba, foi realizada pelos mesmos que trabalharam contra o Romário. Quem merece é o senado que ganha sem bater um bolão. Quem merece é o Lula que me fez acreditar que o Bush, Arafat e outros mais eram najas criadas. São minhocas imbecis perto dele.

Volto para as vésperas da primavera onde as flores se preparam para mais um prêt-à-porter. O fundo musical do desfile é o piano do Tom Jobim. Ele é um gênio eterno, sem virtuose no sentido de técnica programada, ele foi e sempre será virtuoso no improviso, no pensamento que vai para as mãos, nas idéias, nos silêncios sugeridos, na rouquidão da voz, no jeito tesão Leblon que já nasceu com ele, apesar dele ter nascido na Tijuca. É um estado de espírito. Costumo dizer que o homem que sabe o que é bom anda desde neném com camiseta hering branca. Ai Jesus...me abana!

O que espero dessa primavera ?

Os beijos na boca que só dei em sonhos, à volta da paz no meu sorriso, o sono sem tarja de cor alguma e porque sou má, desejo também para quem torce contra a felicidade em geral, um sobrepeso de vinte quilos. Vão tomar chás verdes, brancos, amarelos, cor da bandeira do Brasil. Minha praga costuma ser boa de pegar. Mas não espero só isso depois desse inverno com "f". Espero mais, bem mais. Anseio pelo sol sem intenção de câncer e o mar regido por Tom.

U.035.Uma noite de paz - Marcão e Bene Maldonado


Você já esqueceu do aniversário de quem você ama.
Já esqueceu o nome de alguém que te ama.
Mas chega o fim do ano e é tudo igual,
Eu acho que vocês acham que eu sou débil-mental!
São mais de 300 dias debaixo da opressão
Medo da guerra, da bala perdida, medo do medo da solidão,
Eu vejo os shoppings lotados, ruas lotadas,
Avenidas decoradas por corações vazios...

Feliz Natal! Pra criança deixada na rua...
Noite Feliz! Praquele que não tem o que comer!
Feliz Natal! Pro pai desempregado...
Noite sem paz! Praquele que a morte veio ver!
Uma noite de paz! Uma noite...

Estava desconfortável, escuro e frio...
O cheiro dos animais invadia o curral
Onde a virgem Maria trouxe ao mundo
O Príncipe da Paz, o único capaz
De transformar o caos em harmonia,
A tempestade em calmaria,
Corações sujos como aquela estrebaria
Em um lindo shopping center decorado pro Natal...

Feliz Natal! O natal que muita gente esqueceu!
Noite Feliz! Pra quem ainda não veio pra festa!
Feliz Natal! O mundo é quem ganhou o presente!
Noite sem paz!
Pra quem esqueceu daquele que nunca te esqueceu!

Feliz Natal! Deixe-o nascer em seu coração!
Noite Feliz! O passado fica pra trás!
Feliz Natal! Você é o presente de Deus!
Noite de paz! A morte morreu de medo ao ver Jesus nascer!
Uma noite de paz! Muito mais que uma noite de paz!

U.034.Um meio ou uma desculpa - Roberto Shinyashiki


Não conheço ninguém que conseguiu realizar seu sonho, sem sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes, da mesma forma, se você quiser construir uma relação amiga com seus filhos, terá que se dedicar a isso, superar o cansaço, arrumar tempo para ficar com eles, deixar de lado o orgulho e o comodismo. Se quiser um casamento gratificante, terá que investir tempo, energia e sentimentos nesse objetivo.

O sucesso é construído à noite! Durante o dia você faz o que todos fazem. Mas, para obter um resultado diferente da maioria, você tem que ser especial. Se fizer igual a todo mundo, obterá os mesmos resultados, não se compare à maioria, pois infelizmente ela não é modelo de sucesso, se você quiser atingir uma meta especial, terá que estudar no horário em que os outros estão tomando chope com batatas fritas. Terá de planejar, enquanto os outros permanecem à frente da televisão. Terá de trabalhar enquanto os outros tomam sol à beira da piscina.

A realização de um sonho depende de dedicação, há muita gente que espera que o sonho se realize por mágica, mas toda mágica é ilusão, e a ilusão não tira ninguém de onde esta, em verdade a ilusão é combustível dos perdedores pois,

"Quem quer fazer alguma coisa, encontra um meio. Quem não quer fazer nada, encontra uma desculpa."

U.033.Um amigo - Douglas Farias


Palavras o vento leva
Gestos o tempo apaga
Atitudes são esquecidas
O vazio é deixado.
Mas existe aquele
Que preenche
E não deixa ser levado.
Não permite ser apagado
Nem chance de ser esquecido
Torna tudo mais fácil.
Um amigo
Um verdadeiro amigo
Preenche esse vazio

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

I.054.Inconstância das coisas do mundo - Gregório de Matos Guerra


Nasce o Sol e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tritezas e alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falta a firmesa,
Na formosura não se dê constancia,
E na alegria sinta-se a triteza,
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza.
A firmeza somente na incostância.

I.053.Inconfesso desejo - Carlos Drummond de Andrade


Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo.

I.052.In memória - Carlos Drummond de Andrade


De cacos, de buracos
de hiatos e de vácuos
de elipses, psius
faz-se, desfaz-se, faz-se
uma incorpórea face,
resumo de existido.

Apura-se o retrato
na mesma transparência:
eliminando cara
situação e trânsito
subitamente vara
o bloqueio da terra.

E chega àquele ponto
onde é tudo moído
no almofariz do ouro:
uma europa, um museu,
o projetado amar,
o concluso silêncio.

I.051.Identidade - Mia Couto


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo.

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta.

Sou pólen sem inseto.

Sou areia sustentando
o sexo das árvores.

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro.

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço.

I.050.Ilusão e solidão - Elcimar Reis


[...] eu era ilusão e solidão; era alguém caminhando pelas ruas apenas com o pensamento de que um dia poderia encontrar alguém como tu; longe da realidade, longe de qualquer sensação próxima ao que tu eras. 
[...] eu era ilusão e solidão até finalmente esbarrar contigo em uma rua qualquer; eu o vi e encontrei no seu olhar o que estava nos meus! Alguém procurando a felicidade nos segundos que lhes eram direito; eu o amei, o imaginei feliz, e o "nós" para mim existia e era real. 
[...] eu era ilusão e solidão; você veio tão rapidamente quanto foi; deixando-me com minhas queixas e arrependimentos; imaginando apenas no que havia errado, e desejando minha própria condenação. 
[...] sou ilusão e solidão; nada mais. 

I.049.Insensato coração - Douglas Farias


Leva a sério
O que penso de você
Não é porque somos amigos
Que tenho que me esconder

Todo esse tempo
Que estive junto a ti
Permiti me apaixonar
O amor passou a existir

Incorreto, insensato
O coração não correspondeu
Quando falar que te amo 
Não finja que não percebeu

O que eu mais queria
A amizade nenhum limite impôs
Um dia perceberás
Que o amor não fica pra depois

Incorreto, insensato
O coração não correspondeu
Um dia perceberás, um dia perceberás
Que não existe um amor igual ao meu

I.048.Imagem me - Suziany Araújo


Houve um tempo
Em que busquei
Borboletas no céu

Fechei a janela
Desenhei um coração
Usando a ponta de um papel

O chão de barro
Ficou ao lado
Ouviu solidão

Quem me dera
Encontrar a viola
Que hoje tanto chora
Sobre a luz desse luar

Espero encontrar
O vento que um dia
Furtou-me os pensamentos
E antevia:
Os traços mais distantes
Do tempo sem partida

I.047.Indecisões e certezas - Gilson Tadeu Galhardi


Tenho certeza que irei te encontrar
Teus olhos refletem apenas ilusões
Não existem motivos para te amar
Apenas esperanças e recordações

Tento imaginar como você se sente
Diante deste amor tão inesperado
Que deixou teu mundo tão abalado
Trazendo indecisão em sua mente

Nós estamos sempre conectados
Dependo apenas de sua tristeza
Que só enaltece mais tua beleza
Para os meus olhos apaixonados

Então não importa onde você esteja
Tenho certeza que irei te encontrar
Não existem motivos para te amar
Ter você é o que minha alma almeja

I.046.Incandescente - Cléo Alves


Chegaste amor em vão momento
Na vaga de minutos displicentes
Que não notar se fez seu sentimento
Aos meus desejos dantes tão carentes

Chegaste mas fui eu ausente
E dei-lhe a face toda descontente
Minha presença tão completamente
Lhe foi distante bem ali presente

Ficaste ali parada em vão
Mas em vão não foi inteiramente
Ah... Meu amor! Foi no coração...

Que esse amor tão indiferente
Abriu os olhos na escuridão
E viu tua chama tão incandescente!

I.045.Insúbita - Douglas Farias


Adiantei o pedido para noite deste dia
Tive cuidado de selecionar o jantar que gostaria
Ajeitei a cadeira, acendi na mesa cada vela
Pedi ao garçom que aguardasse a chegada dela

Quanto tempo passou até ela chegar?
Quanto tempo terei que me controlar?
Quanto mais tempo passa não seguro a emoção
Quanto mais tempo passa, penso ter recebi um "não"

Sozinho esperei, não me aquietei
Mas já não podia aguentar
Aquela noite não poderia me reservar
Uma decepção que te faria me negar

Quanto tempo passou até ela chegar?
Quanto tempo terei que me controlar?
Quanto mais tempo passa não seguro a emoção
Quanto mais tempo passa, temi ter recebido um "não"

Olhei para o relógio e bobo fiquei
Não percebi o quanto me adiantei
Ri da situação que me aconteceu
E insubitamente linda ela apareceu

I.044.Ingratidão - Eliane F.C.Lima


Quando moço tinha sido herói. Quase profissão. O heroísmo foi diminuindo aos poucos. Aos quarenta e cinco, nem um heroismozinho para consolar. Mas também agradecia a Deus: não tinha mais coluna para aquilo. Heroísmo requer uma cervical perfeita e uma ótima lombar. As suas duas em cacarecos. Resultado: foi parando, ele e a coluna; foram enferrujando.
Agora vivia de lembranças, decadência para um herói. Quando um diz “naquela época” ou “no meu tempo” é que o fim já chegou.
Horrível é quando o herói abre a gaveta, recortes de jornal amarelados, para provar as aventuras. Ninguém se lembra mais. Todo mundo sai, finalmente, mas ele fica, vendo uma foto, conferindo outra, olhar parado de saudade.
Ele, agora, além de tudo, tinha dado para diminuir o heroísmo alheio, quando via alguma ação destemina em defesa de alguém, coisa rara de aparecer na televisão, é verdade. Nada que se comparasse a seus feitos, dizia ele, diante da louvação do jornalista. Isso era a pior parte do herói: velho, aposentado, esquecido e sem generosidade. Desdém, sentimento pequenino.
Um dia, uns sobrinhos entusiasmados – herói não casa, não tem tempo –, chegaram a casa, contando um filme novo sobre um badaladíssimo super-herói americano – não aceitava o “super”: ou se é herói ou não se é. Ao recontarem algumas proezas do tal, sentiu-se sufocar. Aquilo era plágio, apropriação indevida do alheio. Tinha sido ele o autor daquela façanha. E provar como? Daquela vez a mídia, que não se chamava assim naquela época, não estava lá. Só um grupo de curiosos e os salvos por sua bravura. Lembrava bem, tinha sido aplaudido por um grupo enorme. Nesses tempos idos, ninguém se dava ao trabalho de patentear nada, boa fé e ingenuidade. E herói legítimo faz tudo por espírito de colaboração. Esse é o valor maior da ação. Recusa até elogios e medalhas. Escondia algumas debaixo das roupas só para lembrar da mãe, a verdadeira colecionadora.
Quando terminou seu discurso indignado, os meninos se embolaram de rir. Adoravam as histórias do tio, para eles pura ficção. Um, mais atrevidinho, sinal dos tempos, ainda comentou:
- Dessa vez você exagerou, tio!
Revoltado com a usurpação, desanimado da vida, teve certeza que nada mais tinha a fazer neste mundo. Resolveu pular de um edifício.
Fotos e mais fotos no jornal. Nenhuma alusão ao passado de glória. Nem um repórter dos antigos foi conferir.
Um religioso, olho pra cima na banca de jornal, cabeça sacudindo, reprovativo:
- Quem se suicida é um covarde.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

I.043.Invulgar - Eliane F.C.Lima


As calçadas estavam cobertas de flores lilases, que não se sentiam constrangidas por se esparramarem até o asfalto. Na primavera – era primavera! –, as glicínias, que se estendiam por sobre todos os muros das casas, irreverentes e espaçosas, transbordavam para fora, tomando conta de tudo. O passante se sentia homenageado, tendo aquele tapete desdobrado para si. A rua era famosa pelo colorido aveludado. Mas, nem por isso, abria mão de ser silenciosa e requintada. Vez ou outra passava um carro, caro, importado, da mesma gente que mantinha aqueles jardins cuidados, aquele silêncio perfumado e cromático. Mas, nem por isso ainda, naquele dia, deixou de haver um corpo caído no meio das flores, atrevendo-se a manchar-lhes a suavidade lilás com seu vermelho impudico e derramado. Mas não foi só: o atrevimento se estendeu aos carros de polícia que também ousaram quebrar o requinte estabelecido para veículos e vieram se postar ao longo do meio-fio. E violentaram o silêncio dos requintados com suas sirenes obscenas. E houve mais: as fotos da imprensa, que se avolumou nas calçadas, em volta das árvores, encostando-se nos muros violáceos, que quase se encolhiam com a ousadia. E aqueles pés, atrevidos, pela primeira vez, coagiram as flores lilases, ofendidas ante a surpresa da invasão.

I.042.Imutável Final - Eliane F.C.Lima


Leiloquinha do papi, Tô com uma saudade danada de você. Não esqueço nosso último encontro. Espero você lá na adega. Com esse friozinho, um vinho cai bem. Depois a gente inventa... Mozão Oi, my baby Lei, O que houve? Te esperei até as dez. Tô preocupado. Aconteceu alguma coisa? Só liguei o comput para saber o que houve. A gente não pode ligar pra você, não é... Mozão Menina, Já to ficando nervoso. Mandei a última mensagem há três dias e você não responde. Por favor, diga alguma coisa. Só pra eu saber se está tudo certo. Tenho ido à adega todos os dias ver se você aparece. Mozão Oi, Não tenho conseguido dormir. Estou indo a todos os lugares aonde sei que você vai. Só para te ver de longe. Nem estou trabalhando direito. Não consigo me concentrar. O Pagaré, Paganre, Pangaré descobriu alguma coisa? Viu só o meu desespero, nem consigo escrever direito. Se não responder, vou radicalizar. Eu Leila, Fui a seu trabalho hoje. O pessoal disse que você não tem ido lá. Está doente. Seu marido ligou, avisando. Eu fiquei gelado. Quase desmaiei. Não pode nem levantar da cama para ir ao comput? É isso? Eu Oi, Mozão, Eu estava doente mesmo. Mas estou louca para te ver. Te espero às nove horas. Imagine que o Pangaré vai viajar e fico livre a essa hora. Abaixo, um endereço novo e seguro para a gente se encontrar. É um hotelzinho bem baratinho, mas escondidinho: Rua General Gastão da Costa, 52, na Lapa. Não deixe de ir de jeito nenhum. Bolei um monte de surpresas para você. Sua eterna Leila.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

I.041.Invencível Batalha - Eliane F.C.Lima


Intrépido era o adjetivo que classificava aquele homem. Nascido na Idade Média, seria cavaleiro heroico de algum rei conquistador. Tinha nascido, porém, no século XX, vida de cidade moderna e grande. Defrontava-se, mesmo assim, com muitas batalhas, principalmente as sociais. Talvez até mais acirradas. Não se via o inimigo, quando era o próprio Estado, por exemplo, ferindo seus direitos. Mas não se intimidava, procurando as vias legais ou levando seus concidadãos para as ruas, se necessário. Enfrentou a polícia, seguidamente, braço armado do stablishment para manter-se stablishment. Era um corajoso líder. E até na vida pessoal. Não ficava quieto, se o síndico do prédio ou algum vizinho, ou qualquer um, seja dita a verdade, lhe faltasse com a devida consideração. Nunca levou desaforo para casa. Direito era direito. Não que fosse um sujeito de perder as estribeiras, afeito a brigas. Não. Era até muito ponderado, tentando fazer o outro entender o erro cometido. Mas até um limite. Daí para a frente, agia conforme o preciso, embora sem perder as rédeas de seus atos. Naquelas férias, meio cansado da lide urbana, tinha ido para a casa de uns amigos, localidade rural, mato para todo o lado, pouca gente e muito silêncio. Ideal para um recompor-se, beber vinho à noite, conversar muito, dormir cedo e acordar mais cedo ainda, cheiro de mato molhado de sereno, entrando pelas narinas. Surpreender o sol saindo de sua cama. Boca ainda cheirando a café com leite e bolo de milho, resolveu passear pelos matos. E foi andando, descobrindo pequenas trilhas feitas por outros pés curiosos, florezinhas sem pedigree, mas com muitas cores e graças, juntinho ao rosto. Até que, de repente, a vegetação cerrada abriu e o caminhozinho ladeou uma várzea não imaginada. E viu o único adversário que temia nessa vida: um boi. Aliás, vários deles, amontoados, pastando, sua boca mole para lá e para cá. E seus chifres. Um deles o olhou tão surpreendido quanto o homem. Continuou, no entanto, seu processo de movimentar o queixo, sem perdê-lo de vista. Ele fez o mesmo, por sua vez. Estando aqueles a distância, reuniu toda a sua coragem e continuou pela trilha, o olho firme, porém, para o boi. Dez metros adiante, quando volta a cabeça, finalmente, para a frente, todo o pelo que tinha no corpo se eriçou: pela mesma minúscula vereda, um boi atrasado vinha trotando. Sem ter onde se esconder, puro instinto, descarga de adrenalina enchendo suas artérias, virou-se de costas e voltou, caminhando o mais depressa que podia, sem correr, para não estimular o terrível animal a fazer o mesmo. Em nenhum momento olhou para trás, cuidado para não desafiar o opositor. Só parou na segurança do portãozinho familiar e amigo, muito tempo depois, vista escura, pernas bambas. Por sorte, naqueles ermos não tinha topado com vivalma. Mesmo a pessoa mais heroica sempre encontra um desafeto impossível de enfrentar.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

I.040.Io me ricordo - Eliane F.C.Lima


Isso se passava no tempo em que crianças não falavam em conversa de adulto, só ouviam. Alguns almoços de domingo, pai, mãe e filhos sentados à mesa. Era a senha: desciam, da casa de cima, as três irmãs do pai. Vinham conversar. Começava conversa, sim, idéias jogadas aqui e ali. Tudo muito comportado, ainda. Aos poucos, um espírito felliano baixava naquela família carioca, avô baiano. Um frêmito tomava conta dos quatro irmãos, ninguém aceitava mais o que ninguém dizia, discussão instaurada. As crianças, para surpresa dos adultos que seriam futuramente, embora caladas, se divertiam muito, único momento de descontração no rigor da educação severa da época. Quase indo às vias de fato, providencialmente, sempre uma das irmãs - ou duas - desmaiava e era preciso socorrer. Atentos, os olhos infantis aguardavam, curiosos, o desfecho apoteótico do drama teatral dominical. Pena não poder aplaudir.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

I.039.Inconfessáveis olhares - Angélica T. Almstadter


Tantos desejos nesses olhares.
Tão inconfessáveis juras
ditas no silêncio que nos envolve.
Você e eu, tão estranhos
e tão indisponíveis um para o outro
e ainda somos amantes ardorosos
nos nossos momentos únicos.

Derrapo nas palavras
você se perde nos verbos
quando o silêncio maculamos
com falas que nada preenchem.

Voltamos aos olhares íntimos,
profundos no aconchego inaudível
que conservamos em cumplicidade.
Você me convida e eu aceito
o banho de olhares como longos beijos.

I.038.Interrogação - Camilo Pessanha


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito.
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que nerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te esremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

I.037.Intimidade poética - Rosa Pena


Não pude te ver nu!

No mundo não tinha

só eu e tu.

Não pude te chamar de meu!

Na vida não tinha

só tu e eu.

Segue essa poesia

tentando dizer nós.

Enfim sós.

I.036.Intimidade com a morte - Pastorelli


O estômago roncava. Sentia uma sensação esquisita. Deveria ser o café que tomara as pressas antes de vir para cá, pensou. Precisava ficar andando de um lado para outro para aliviar um pouco a sensação. Olhou o relógio, três horas da madrugada. Faltava muito tempo ainda. Também porque fora marcar para tão tarde? Na esperança de vir alguém? Seus parentes e amigos eram aqueles que estavam ali. O frio gelava a carne cansada. Ainda bem que não ventava. Nada se extingue, o fim é o princípio. Será verdade? Realmente se for fazer uma análise rigorosa nada se extingue, há sempre uma transformação moldando as coisas. A morte é uma transição da matéria onde à vida escapa por entre osdedos dos sentimentos. Nego a morte para tentar chegar além do esquecimento.Nisso o carro fúnebre entrou de ré no acostamento. Mais um que chegava para a sua derradeira viagem.
Os funcionários retiraram um caixão grande, bonito, bem envernizado. Todos comentaram o tamanho do caixão. E o pessoal que o acompanhavam, a maioria estavam vestido de branco.Será pai de santo? Ou uma mãe de santo. Não deu atenção, seguiu para o outro lado, tentando espantar o frio.
Andou até chegar no fim do corredor. Ficou longo tempo parado com os olhos mortiços de sono contemplando seu vulto refletido no sujo vidro da porta. Não se reconhecia, ou melhor, se reconhecia, mas certa dificuldade lhe dizia que o que via era apenas uma fútil imagem dele mesmo.
Imagem falsa de um ser que desejava estar longe dali. Não era ele, e, no entanto, se virou ao ouvir que alguém se aproximava. Que droga, não podia pelo menos ficar um pouco sozinho com seus próprios pensamentos? Aliviado suspirou ao notar o ruído sumindo na distância daquelas paredes. Abriu a porta e saiu para a madrugada fria. O ar o reanimou um pouco. Deu uma volta pelo prédio velho da prefeitura. Parou em frente à placa. Aquele edifício fora inaugurado por então prefeito Jânio da Silva Quadros. Já era a terceira vez que lia a placa. Voltou a sentar no banco perto da porta.
Estava evitando entrar e ver sua mãe no caixão. Não queria ver, não gostava, tinha a impressão que aquela seria à última imagem dela que ficaria gravada na sua mente. Lembrou de uma história que sua mãe vivia sempre contando. E que ultimamente, sempre que se começava a falar em velório, sua irmã contava. O tio Antônio, casado com uma irmã do seu pai, falecera, estava sendo velado em casa.
Naquele tempo era raro um defunto ser velado no cemitério. Ele não queria ir, mas como ordem de pai é ordem, foi obrigado a ir. O tempo todo ficou na calçada, nem tinha coragem para entrar e cumprimentar a tia e os primos, por não querer ver o caixão. E aos poucos, aproximava, criando coragem para entrar, e no instante em que estava na porta, transpondo a soleira, de imprevisto uma mulher apareceu gritando atrás de dele: - Aí, o que fizeram com o meu querido irmãozinho. Você não podia morrer, gosto de você. Levado pelo susto, foi empurrando para dentro da sala, quase derrubando o caixão e dando de cara com a cara cadavérica do tio. Ele já era magro, careca, sem dentes, e deitado no caixão envolto em flores, estava pior que a cara do Michael Jackson. Ele começou tremer, a suar, sem saber o que fazer sendo empurrando pela mulher que não parava de gritar, estava quase desmaiando. A mãe vendo a aflição do filho puxou o coitado tirando ele dali. Levou para a cozinha e deu um copo de água.
Ele não voltou mais para a sala, mais tarde foi levado para casa.
Que ele se lembre esse foi o seu primeiro encontro ou que teve a sua primeira intimidade com a morte. Isto é, que teve uma noção do que era a morte. Das outras vezes fora sempre alguém distante ou vizinho, com o falecimento do cunhado do seu pai poderia dizer que foi a primeira vez que viu a morte próxima dele. Quando os agentes funerários chegaram, ele se distanciou, não quis presenciar o momento da tirada do corpo da mãe da cama e ser colocada no caixão. E grato ficou ao saber que não precisava acompanhar o motorista no carro fúnebre. No enterro do pai, não lembra porque motivo teve que ir junto com o motorista até o cemitério. O pai fora velado em casa, talvez seja por isso. Certos instantes da vida ficam nítidos na mente esperando apenas o momento para vir à tona. É pensamentos que o faz seguir cada passagem da vida sendo ou não necessária. E os pensamentos ora em forma de palavras, ora em forma de cenas quase cinematográficas ajudava a passar o tempo. No início da doença da mãe perguntava freqüentemente o porquê disso ou o porquê daquilo, não se conformava com a situação caminhando daquela maneira, de um jeito que o sentir se tornasse descontrolado, chegando às vezes a perder a paciência. Sentiu a azia aumentar, queimar trazendo o gosto do café na boca. Pensou ir ao banheiro e vomitar, desistiu, não tinha coragem de enfiar o dedo na garganta e provocar o vomito. Foi até a lanchonete, talvez tomando alguma coisa passasse a azia. Pediu uma cerveja e um lanche. Tomava e comia calmamente se despreocupando um pouco com o que se passava a sua volta. Pessoas que vinham e saiam a todo o momento dentro daquele silencio que era o prantear da morte, figura indesejada e que volta e meia aparecia, ou melhor, que sempre esta ao nosso lado, a gente que não a percebe. Riu ao pensar nisso. Tudo isso eram apenas palavras que se juntando a outras formavam o sentir concreto da vida. Era apenas preciso coragem para pronunciá-las. Ele não tinha e nunca tivera essa coragem, essa audácia de expressar o seu sentir em palavras que soassem concretamente a vida, tanto a vida real como a vida irreal. Aliás, chegou à conclusão que sempre vivera com palavras que concretizavam a vida irreal que até aquele momento. Talvez se ele tivesse concretizado mais as palavras em sons e não em pensamentos, pudesse sua vida ter sido outra, diferente, mais dinâmica. Um exemplo disso estava no dia em que sua avó morrera.
Não lembrava exatamente do falecimento da avó. Não saberia dizer se já estava morando em São Paulo. E muito menos o detalhe do velório, do enterro, quem estava e quem não estava. Recordava-se de uma cena apenas: da mãe chorando. Estavam numa sala e, sentada na poltrona, sua mãe chorava. Ficou longo tempo observando o choro descontrolado da mãe sem dizer uma palavra. Uma palavra que pudesse amenizar o sofrimento materno. Descobriu que ao ser pressionado não sabia agir ou o que dizer. A avó apesar de ter sido pessoa boa não poderia afirmar que gostava dela imensamente para chorar sua morte. Sentia é claro, mas não era um sentimento insuportável que o tempo aos poucos amenizaria. Esse sentimento bem antes da morte da avó já estava amenizado, o que não conseguiria fazer sua mãe entender. Sentia e até entendia o sofrimento da mãe e dos outros, o que não entendia e, muito menos teria que explicar era o seu sentimento. As fibras da sua mente sofriam e choravam a morte da avó, patético choro e maneira de expressar a dor. Dor que ele guardava apenas para si ao invés de expressá-la, de carinhosamente reconfortar mostrando seu amor para a avó e para com a mãe. No entanto preferiu ficar ali impassível, frio, sem dizer nada, apenas vendo ridiculamente o choro dos outros. Talvez, seu íntimo quisesse ou sentisse menos oprimido, mas quem garantiria que era isso?
São coisas e sentimentos que muito tempo depois lhe é revelados. Assim tem que ser, não pode ser de outra maneira. Terminou de tomar a cerveja e comer o lanche. O dia já estava amanhecendo, mas o sol ainda não tinha aparecido. Continuou perambulando de um lado para o outro. O pessoal que passara a noite toda estava uns aqui conversando outros sentados nas cadeiras cochilando. Já sabia antecipadamente que não viriam todos que imaginara deveriam vir. Nesse momento desejou ter antecipado a hora do enterro. Como tinha marcado para a última hora, teria que esperar até o momento final. A sua mãe seria a penúltima a ser enterrada. Até o presente momento já saíram quase todos os que junto com ela chegaram, ou depois dela. Nisso lhe perguntaram se seguraria a alça do caixão.
Respondeu que não, não queria nem chegar perto. Não sentia o peito oprimido, e muito menos leve como deveria ser depois de uma longa opressão emotiva. E mais uma vez descobriu que já passara por isso, por momentos como aquele e com o mesmo grau de sentimento. Começaram o terço e as vozes se elevaram num grau de tonalidade só. De repente, como começou, a reza tinha terminado. O funcionário da prefeitura chegou perto dele e perguntou se fora ele que tinha assinados os papéis. E diante da sua resposta positiva o funcionário disse que os familiares é que tinham que fechar o caixão e levar até o carro fúnebre, que fizesse isso logo para não atrasar, pois tinha ainda outros enterros para fazer e não podia ficar esperando. Diante disso não tendo alternativa, teve que entrar no velório eajudar o pessoal a fechar o caixão. Evitou olhar o rosto da mãe. Sentia o corpo queimar, o rosto vermelho, pois sabia que todos o olhavam seus movimentos, sua expressão. Durante o trajeto procurou puxar conversa com o motorista para fugir de ter o que pensar. Parando a certa distância da cova, retiraram o caixão e passaram para as mãos dos coveiros. Reinava um silencio suave, sem vento, um sol não muito quente. Logo que a última pá de terra foi jogada e os coveiros deram o serviço por terminado, despediu-se dos poucos parentes e amigos, entrou no carro e foi embora. Mais uma etapa da sua vida estava encerrada ali naquele monte de terra que cobria sua mãe.

I.035.Instante - Conceição Pazzola


A gota d’água oscila
Na ponta de uma torneira
Contra o raio de sol poente
Refletido numa parede

Um átimo de segundo apenas
E a gota d’água desaparece
Cai, ninguém sabe onde
Some e se desvanece

Talvez ninguém tenha visto
O reflexo do raio de sol
Nele surgiu o teu rosto

Quem sabe talvez o meu.
Ninguém mais lembrará
Quantas gotas d’água

Oscilaram assim, quantas
Sequer tiveram a sorte
Instante mágico de encontro

Com a luz quente e brilhante
Efêmera luz, o raio de sol
Antes de sumir para sempre

E cair no esquecimento
Para onde costumam ir
Infinitas gotinhas d’água.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

B.049.Brilho - Rupi Kaur


Quando você estiver machucada
“Quando você estiver machucada
e ele estiver bem longe
não se pergunte
se você foi
o bastante
o problema é que
você foi mais que o bastante
e ele não conseguiu carregar.”

Quando relacionamentos dão errado, quem fica para trás tende a se perguntar no que errou.
Mas na maioria das vezes, não houve erro algum.
Algumas pessoas só não sabem lidar com a intensidade.
Quem foi embora é que não tinha um coração grande o bastante para acolher uma pessoa de brilho tão forte.

B.048.Beijo - Mia Couto


Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra na rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos;
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

B.047.Beatriz - Humberto de Campos


Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias
Turquesas, e esmeraldas luminosas...

E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ressábios
De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!

B.046.Brilhe estrelinha - Douglas Faria


Brilhe estrelinha
Sua luz não pode apagar
Ilumine meus passos
Volte outra vez a brilhar

Brilhe estrelinha
Sinto-me muito sozinho 
Sem o brilho de sua luz
Não enxergo meu caminho

Brilhe estrelinha
Não mais feliz estou
Clareie meus dias
Para afastar essa dor

Brilhe estrelinha
Tire-me da solidão
Acenda outra vez
Este meu coração

B.045.Bolhas de Sabão - Douglas Farias


Bolhas formo assoprando espuma de sabão
Como as palavras, se permitir, embora vão És formada no soprar dos lábios com carinho Sem cuidado, perde-se, desviando seu caminho
Desperta-nos quando estouradas são Como as palavras que nos chamam atenção
Precisam ser assopradas para cima Assim como as palavras que nos anima
Sopram-se muitas bolhas para serem estouradas Como as palavras que são ditas e faladas Corremos para as maiores estourar E escolhemos as ditas para nos ensinar
Cuidado se deve com os lábios Como a consciência de um sábio Bolhas são formadas de um simples sabão As palavras são ditas do fundo do coração

B.044.Beijo Perdido - Douglas Farias


Falo tanto de mim
Falo do que gosto
Falo do que quero
Mais nada mostro

De música e futebol
De teatro e cinema
As comidas e saídas
E continua o dilema

Você ajeita o cabelo
Depois coça o ouvido
Reforça bem o batom
Só pra mexer comigo

Claro que percebi
Tão logo não tentei
Outra noite foi perdida
Com a garota que não beijei

B.042.Bandeira - Um Poeta Vagabundo


vivo uma época diferente heróis morrem cedo e eu vejo temporadas passarem compreende meu desprezo pelas convenções e protocolos? um novo mundo pulsa.. prolifera pelos guetos nas beiras dos rios bosteiros
acho linda essa gente que querem deixar feia não quero ser capa de revista com muitas cores e pouco conteúdo somos a maioria e não queremos ajuda esmolas e sobras não nos interessa
nos oferecem como favor nosso direito de ser... digno e capaz de escolher oque irá jantar, e ler e beber e vomitar... encima das ilusões que foram projetadas para o horário nobre
eu quero ser do bem mas não me calo! faço parte deste mundo e carrego a bandeira pelos irmãos enfraquecidos e pela nação de sem futuro esquecidos nas periferias

B.041.Branco vazio silêncio - Maria Thereza Neves


Perdi o encanto 
em mil faces 
no branco  vazio silêncio 
perdi letras 
poemas 
e cores. 
  
perdi o encanto 
em mil ecos 
no branco vazio silêncio 
perdi músicas 
sons 
e sonhos. 
  
perdi o encanto 
em mil vidas 
no branco  vazio silêncio 
em chuvas que lavam ruas 
arrastam memórias nuas, 
cruas. 
  
perdi o encanto 
em mil lágrimas 
no branco  vazio silêncio 
em  gotas 
que rolam almas. 
  
perdi o encanto 
em mil desencantos 
no branco  vazio silêncio. 

B.043.Beijo de Goiaba - Douglas Faria


Pedi uma goiaba
Do seu cestinho de frutas
Só pra distrair sua atenção
Uma conversa longa
E uma pequena pausa
Era para conter a emoção
Não imaginava que seria assim
Ter esse momento
Tão especial pra mim
Tinha medo de receber um "não"
Muitos assuntos nós conversamos
Minha mãos soavam tanto
Cada vez mais forte era a respiração
Prestava atenção na minha fala
Nesse instante queria só beijá-la
Mas não poderia perder a razão
Dividiu a metade da goiaba
Levou à minha boca, e de repente pára
De olhos fechados
Senti o gosto de seu batom
Naquela tarde aconteceu
O seus lábios se juntaram aos meus
Sabia que um dia ganharia seu coração

B.040.Bastardos Inglórios - Um Poeta Vagabundo


avisa aí que vem chegando
a gente feia da periferia
no bolso de nossas roupas...
das lojas de liquidação
trazemos as gírias e nossa arte
indigesta e marginal


a inovação é um parto doloroso
de uma gravidez indesejada
que a d. Sociedade não conseguiu abortar
somos a nova safra
na saga dos renegados


agora os filhos bastardos
voltam a casa do pai
mas não somos os pródigos
estamos livres das regras do criador


nossa ginga e nossa arte
sofrimento transformou
em combustível para nosso sorriso
de dentes tortos e idéias francas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

B.039.Boa noite Ateneu - Angélica T. Almstadter


Será mesmo? Quem como eu caminhar por esta casa 
hoje talvez sinta a sensação que sinto invadir o meu peito:
abandono. É a casa está não só quieta, está abandonada
 pelos moradores. Há dias caminho por aqui desolada,
há comodos que nem se acende mais luzes, tanto tempo 
que foi abandonado...cheira bolor. Eu procuro uma 
porta entreaberta um sorriso, as vezes encontro uma luzinha 
fraquinha uma voz sumida e quando me aproximo; era 
só um eco, o dono da voz já tinha partido.
Algumas pessoas deixam bilhetinhos, 
a demonstrar que não partiram; apenas se ausentaram 
um pouco. Eu sempre caminho por essa casa procurando 
um rosto conhecido alguém que queira se sentar comigo 
para bebericar um pouco de poesia, mas nem naquelas 
mesinhas onde habitualmente encontro os 
mais renitentes, há alguém; tudo vazio, empoeirando.
Andando por aí, pelos jardins volta e meia encontro 
aqueles que vieram colher uma flor, encontro na  biblioteca 
rastro de quem apanhou um livro e deixou um recado 
anotado no marcador. Quando o telefone toca, 
mensagens gravadas na secretária eletrônica, tão impessoal.
Na sala  de estar, tudo está no mesmo lugar; 
nem uma ruga no sofá, as cortinas fechadas 
impedem o sol de entrar para iluminar.
Os risos partiram, sinto falta de gente
não de prateleiras para colocar poesias.
Esse é o retrato do Ateneu; infelizmente e eu que 
gosto de entrar nessa casa todos os dias abrir as janelas, 
ligar o som, espanar a tristeza (embora as vezes ela venha comigo). 
Tenho andado sem ânimo de perambular por aqui ouvindo o 
eco da minha própria voz.
Vago por aqui, olhando pelas paredes, pelas frestas, 
me dá um aperto no peito. Saio sem nem sequer 
fechar as portas ou apagar as luzes...

B.038.Balada do caminheiro - Pastorelli


Indo pelo caminho
caminhante caminha
ante a amplidão
do teu destino.

Destino destinado as pedras
chutar chutando
do cauteloso caminho
predestinado.

Caminhante caminha
cuidadosamente
debaixo do sol a pino
em circunstâncias de perigo.

Caminho caminhante caminha
caminha o seu destino
cautelosamente cuidadosamente
em cada esquina.

Cuidado caminhante se não poderá
uma faca riscando o ar encontrar
que interromperá
o teu destino.

B.036.Busca Frenética - Pastorelli


A esferográfica
Não tem o poder
De no papel deslizar
Como um filme noir
Cult movie romântico
Político satírico
E numa busca frenética
Nos abismos de mim buscar
A beira de um copo de cerveja
Os cristais estilhaçados
Por uma bala perdida
Que do seu esquecimento partiu

A minha esferográfica
É uma esferográfica comum
Que obedece os elétricos impulsos
Que a mão recebe dos neurônios
A rabiscar a traçar a riscar
Estas palavras frias e soturnas

Palavras
Sem a concreta transparência
Morrem afogadas solitárias
Na última gota de cerveja
Ao fechar do último bar

Minha esferográfica
Não tem o poder de transformar
O frio em quente
De dissipar a melancolia em saudade

Minha esferográfica
Está estagnada na noite gelada
Dos meus olhos que se fecham
Ao transpor os umbrais
Desta vida torta
Concreta sem reta

Minha esferográfica
No papel desliza
Numa busca frenética
De encontrar o incontrável
De querer o inquerível
De achar o não achado

Minha esferográfica
Mansa repousa
Tranqüila calma
Ao som de uma
Noite fria de setembro

B.035.Balda da Forma nº 2


Na tua mente
uma forma figura
foi formada plenamente
com o tema de:
forma figurada.

Dessa forma figurada
fixamente a figura tornou-se
figura projetada.

Forma figura
projetada
figura formada
ficou figura deformada.

Como se tornou figura
deformada
preciso foi que a forma
figura de figurativa forma
em fina figura ficasse.

B.034.Balda da Forma - Pastorelli


A forma figura
Em forma
Ficou figurada

Ao fitar a forma
Figura figurada
Em forma figurativa
Foi formada

Nesse fitar fixamente
Foi transformada
Em figura fixamente
Focalizada

A figura
De fixamente focalizada
Ficou desfigurada

Mas, a figurativa
Figura fixamente focalizada
Ao ser desfigurada
De figura foi
Em fina forma
Figura formada

B.033.Bocejo - Odete Ronchi Baltazar


É pela manhãque sinto a tua falta...É quando acordo eespalho a preguiça entre os lençóis,quando me viro e não te vejoque sinto a falta dos meus sóis perdidos em teu olhar. Falta-me o côncavo do teu corpo que eu preencho comternura, pernas, braços e pés.Falta-me o teu resmungar rouco,o teu cabelo revirado,falta o teu bocejo (nada) poético,falta a tua roupa largada de qualquer jeito,falta a tua displicência na hora de amar. Que posso fazer?Levanto-me, visto-me com a tua ausência,calço chinelos e espanto o sonho que não quer acordar.Lavo depressa na torneira a minha decepção.O dia começou mais uma vez.Deixemos de lado a emoção.

B.032.Basta - Angélica T. Almstadter


sinto o peso das palavras a modulação dos sons ouço o tilintar das vogais elas entram-me sem dó rasgando os silêncios rompendo portas e janelas ecoando pelas paredes ensurdecendo meus ouvidos
calem-se! quero de volta a mudez das madrugadas insones ouvir minha respiração arquejada meus risos solitários estatelados pelos espelhos e telas quero as lágrimas caladas borrando o rímel sem lenço nem ombro
voltem para as bocas insossas para as gargantas fúteis ao celeiro dos seus desafetos minha algesia não suporta tanta sonoridade rebatendo em zig zag entre minhas arestas

B.037.Bom dia chuva - Pastorelli


Bom dia chuva
Pastorelli


bom dia chuva gloriosa chuva
não gosto de você mas é preciosa
necessária com suas devastações
inundações e tudo mais
prefiro mais o inverno
eu te aceito chuva
mas com uma condição
chova lá no sertão
onde a terra esturricada
pede um pouco de sua atenção
chova nos campos
para que vicejam as plantas
alimentarem os famintos
mas não chova na cidade
justo na hora que eu saio
para o cansativo trabalho
também não chova
quando saio a passear
e nunca quando estou
no micro a trabalhar
aceita minhas condições?
então pode chover a vontade
ah! mas sem raios e trovões

B.031.Brisa e Alma - Lucelena Maia


─ Buenos Aires, voltei!
Silvia sentia-se plena, a rodopiar pela Plaza de Mayo como se resgatasse acontecimentos importantes, ali, vividos.
Faz tanto tempo! Ela pensou, com inquietos olhos buscando por alguém que não era visto.
- O que estou fazendo! Silvia ajeitou-se, despertando da nostalgia, a atravessar a plaza de mayo de forma mais discreta.
Viera a Buenos Aires para documentar a vida turística da bela capital da Argentina. Era preciso não se esquecer disso. Porém, veterano e disponível coração parecia não se importar com esse fato, acalentava pulsar dias vividos unicamente para o romântico aroma portenho do passado.
─ Aquiete-se, coração! – ela esboçou sorriso, espremendo os lábios, com uma das mãos sobre o peito a segurar sua pulsação impulsiva ─ Primeiro, o Cabaña Las Lilas em Puerto Madero, onde degustarei e documentarei sobre o bife de chorizo e seus acompanhamentos, e, como estimulante finalizador para a matéria, falarei das excelentes carnes suculentas, destacando a gastronomia como ponto forte desse país.
Silvia tentava organizar o trabalho para os próximos dias, sem deixar espaço para ilusões ou sonhos descabidos, no entanto, alguns minutos mais e perdia a concentração.
- Eu sei coração, os cafés notables esperam-me. Paciência, antes a obrigação.
Era julho, vestia um sobretudo 7/8 de lã, preto, acompanhado por um scarf em tom carmim. Nos lábios, gloss, para umedecê-los contra o seco vento. Os cabelos castanhos, longos e ondulados moviam-se a cada passo que ela dava em direção ao café Tortoni. Definitivamente, sucumbia aos desejos do coração.
Odiava admitir, mas era movida muito mais pela emoção que pela razão.
De longe podia avistar a fachada do edifício de três andares, em ferro e vidro, com suas varandas em estilo francês. Convencia-se que um bom café e a companhia das lembranças de Borges, que ali, no Tortoni, muitas vezes sentou e rascunhou seus escritos, lhe fariam bem nesse final de tarde gélido.
"...Eu caminho por Buenos Aires e me detenho, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e uma porta envidraçada; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista de professores ou num dicionário biográfico...".
Silvia recordava estas palavras por Borges, em Borges e eu. Era incrível como se sentia como ele. A jornalista se resumia ao jornal, revistas e documentários pela televisão, porém a mulher que ela era se fazia pura poesia, romantismo, através de seus olhos cor de céu, observados por Carlos Gardel, a convidá-la para o sub-solo onde concertos de tango e jazz aconteciam.
- Está bem! Eu admito! Carlos Gardel é invenção minha. Mas, coração, eu só queria sentir-me importante. Na verdade, Carlos Gardel já esteve aqui, há menção a ele numa mesa próxima a janela onde estou sentada. Justificava, com sorriso maroto, para si mesma e para seu coração que nesse instante lhe era confidente.
Não havia mais mesa vazia àquela hora, tão pouco barulho que incomodasse, apesar da conversa, muitos se detinham a ler, reclusos a um mundo literário exclusivo. Silvia viajava com seus pensamentos num submarino quente, numa mesa para dois.
Discretamente procurou pelo olhar de Juan, mas era impossível vê-lo, como era impossível reconstituir uma história finalizada. Que pena! Pensou, com certo pouco-caso.
O relógio, na parede que sustentava inúmeros quadros e gravuras, apontava mil motivos para que ela retornasse ao hotel. A manhã seguinte seria de árduo trabalho, acumulados aos que deixara de fazer nesse dia.
Silvia pediu a conta e enquanto aguardava, se prometia, em pensamento, antes de retornar para o Brasil, dançaria um tango com Carlos Gardel que, nessa tarde lhe piscara, num convite irrecusável e confidente.
Quanta criatividade! Ria de si mesma. Pagou a conta e saiu.
Assim era sua vida, ela improvisava o que a realidade lhe dificultava oferecer.
Borges sabia por que afirmara, um dia, como ela dizia agora, copiando-o: "...Chego a meu centro, à minha álgebra, ao meu espelho. Em breve, saberei quem sou...".
A brisa da noite beijava-lhe o rosto sugerindo abraçá-la, como ela assim o desejava ser.
Suspirou, entregue as investidas, como se bebesse os ventos por Juan!

B.030.Bóias-frias - Lucelena Maia


Mãos calejadas repousam na enxada,
Suor de bóia-fria é desolação...
Olhos humildes, perdidos na estrada,
Amanhecidos nas ruas da plantação.

Alimentam-se de solidão, dificuldade,
E da marmita que viu o dia nascer;
Banham seus corpos no sol da tarde,
Laboram searas, sem esmorecer.

Adubam, plantam, colhem poeira,
Comandam a vida ensacando grão;
Da boléia do caminhão, recebem areia,
Que lhes cobre a já cansada visão.

Onde houver terra e trabalho
Haverá música instrumental de peão.
A esse trabalhador humilde e dedicado,
Só o solo poderá garantir-lhe o pão.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

N.083.Nunca Ninguém Sabe - Mário Quintana


Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor...

N.082.Não te amo mais - Clarice Lispector


Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

N.081.Não Diga o Meu Espelho que Envelheço "Sonetos (22)" - William Shakespeare


Não diga o meu espelho que envelheço,
se a juventude e tu têm igual data,
mas se os sulcos do tempo em ti conheço
então devo expiar no que me mata.
Tanta beleza te recobre e deu
tais galas a vestir a meu coração,
que vive no teu peito e o teu no meu.
Mais velho do que tu serei então?
Portanto, meu amor, cuida de ti
como eu, não por mim, por ti somente
te cuido o coração, que guardo aqui
como à criança a ama diligente.
Não contes com o teu se o meu morrer.
Deste-me o teu e o não vou devolver.

N.080.Nódoa - Angélica T. Almstadter


Cuspi a alma em fagulhas,
Sobre a toalha impecavelmente branca.
Com alma sangrei vinho do brinde.
Ficou incrustado no linho mesa,
Sob seu olhar atônito, a marca exata
Da minha mais nobre emoção.
Sei que acalentará com cuidado
Até juntar todos os cacos,
Do meu amor derramado.
Uma taça de esperança tinta,
Para bombear meu coração apagado.
Um silêncio precioso para recompor
O espelho da minh'alma estilhaçada.

N.079.Nos vemos no aeroporto - Angélica T. Almstadter


Ela a rainha do tango cantada em verso e prosa, a toda poderosa e temida Argentina que tinha o melhor jagador do mundo Leonel Messi, tinha o goleador Igain que também é genro de Maradona, um ataque pra fazer qualquer adversário perder o sono e pecou. Saiu de cabeça baixa, chorando como fizeram outras grandes; Brasil, Itália e França. Sua primadona contestada pela péssima campanha que classificou a Argentina no pêlo, andava de peito estufado fazendo de tudo para que os olhares e flashs não saíssem de cima de si. A arrogância em pessoa ousava alfinetar o Brasil esquecendo sempre que se estava na África foi por acidente de percurso, não que a seleção portenha não seja valorosa, mas a estrela máxima buscava sem cessar dar o espetáculo acima dos seus comandados.
Naquela bola que pegou de chaleira na lateral do campo sem sequer mexer um fio de cabelo ele mostrou que não perdeu a intimidade com a bola, mas isso era pouco para Dom Dieguito que queria o podium e se tivesse a oportunidade de tripudiar em cima do Brasil, seria sua glória, porque se já adorado na Argentina imagine ir a frente enquanto o Brasil tropeça; teria status de herói na Argentina, com direito a reverências públicas, tapete vermelho e quiçá a Casa Rosada.
O Brasil se foi na sexta-feira, caiu diante da laranja e a Diva portenha satisfeita celebrava na sua coletiva : Quantos holandeses por aqui? Eram os jornalistas e a mídia, mas ele não deixaria de alfinetar! Fashion e todo estiloso como é próprio das primadonas Dom Diego chegou para uma estrevista coletiva usando um óculos todo cravejado swarovsky, presente de uma filha.
Entrou em campo o drean time da Argentina orquestrada pela maior diva dessa copa, sob os holofotes do mundo todo, e fez fiasco, tomou um chocolate delicioso ( para nós brasileiros) da Alemanha que passeou em campo e nem deu chance de marcarem o golzinho de honra.
Nós vemos no aeroporto Dom Dieguito! Falar mal do Brasil só quando vocês tiverem mais copas que nós, ok? Por ora ainda somos os únicos pentacampeões e o Pelé é o atleta do século, o maior de toda a história do futebol, morra de inveja! De quebra o mundo fica livre de ver você nu de frente para o obelisco.

N.078.Noite de natal - Lucelena Maia


Sentimento lúdico impulsiona-te a sonhar,
oh criança, escondida no côncavo dos olhos
que, sob vigilia, da janela de teu pequeno lar,
observa nevado céu, com lábios risonhos,
do mesmo local onde rogaste em oração
por um Natal colorido, cheio de presentes,
com Papai Noel no trenó, e linda canção,
a alegrar o sentimento das pessoas viventes...

Hoje, tu tens o céu em silencioso remanso
salvaguardando o homem das impuridades,
da poeira dos olhos e de argueiro ranço
também dos descrentes e de suas hostilidades,
para gozar das doçuras da paz como um raio de luz
ziguezagueando por entre as estrelas cadentes,
como bençãos de Deus para todos que amam Jesus,
e o celebram, como tu, oh criança indulgente...

N.077.Não basta ser mãe - Lucelena Maia


Eu estava junto, torci, ralei, me empoeirei, empolguei, transpirei e aplaudi quando na linha de chegada meu ídolo, quase atleta profissional, apareceu sobre a bicicleta, após quarenta e seis quilômetros, duas longas horas esgotantes de pedaladas, para romper a primeira Maratona Radical Bike de 2009 na cidade de Mogi Mirim/SP.
Ele não se classificou entre os cinco primeiros na classificação geral, nem foi o primeiro na sua categoria, mas manteve média mínima de 20km e máxima de 45km/h, concluindo com excelente proveito esse desafio ao qual se propôs e que dei o nome de tranquilo desempenho.
A idéia de ser um mountain biker foi dele, o restante ficou por conta da mãe (eu) e do pai, aliás, principalmente do pai, que o equipou para que ganhasse as trilhas da Serra da Mantiqueira na região de São João da Boa Vista, próxima a divisa do sul de Minas Gerais.
O objetivo inicial era vê-lo pedalando com outros jovens, quando filiado ao Mantiqueira Bikers, para apreciar de perto a natureza, as cachoeiras, a vista dos mirantes deslumbrantes, os animais silvestres, plantas variadas e logo cedo assistisse ao crepúsculo matinal na cidade dos crepúsculos maravilhosos, no entanto os desafios chegaram rápido e sem que nos déssemos conta estava nosso filho nas competições de Down Hill, Up Hill, Cross-country, Maratona Radical e cicloturismo.
Ele treina muito, entre uma maratona e outra, usa vestimentas corretas, equipamentos básicos de segurança com suporte adequado, faz trilhas radicais, estradas de chão batido, alimenta-se bem, cuida de revisar a bike e alonga-se antes de pedalar.
Há quase dois anos sou parte de sua equipe de apoio.
É, não basta ser mãe é preciso participar de seus esportes radicais.

N.076.Nada em vão - Lucelena Maia


Assim como tu, também vagueio
num desatino de passos solitários,
inutil caminhar; volto e páro
diante da porta de meus anseios

Ao tempo, que se me diz amigo,
entrego a saudade trazida comigo,
a cada manhã, nessa nova morada

E, aos pés da Serra da Mantiqueira
de pura beleza pr'os meus olhos
ajoelho-me, caro amigo, e oro,
oração de uma forasteira

Que, um dia, pisou esse chão
aprazada em não ficar em vão,
pronta a abrir portas fechadas

N.075.Natal - Lucelena Maia


Quantas vezes eu desejei um outro dezembro.
Eu imaginei todo o mês, em silêncio,
Luzes apagadas para conforto da alma
Frases mudas, sem cartões versejados:
Anunciando hábito costumeiro.
Ah! Eu desejei renascer de verdade em Jesus
Cheguei avistá-lo morrer, por mim, na cruz
Ao acompanhar a via-crúcis em memória.

A árvore, os enfeites e muitos presentes
Fazem cantiga dourada em meu peito
Nas mãos seguro uma luz que nunca se apaga
Para dizer àqueles que juntos de Jesus estão;
Eu os amo completamente com meu coração
Velo por todos e por mim no altar da vida
Rezando ao modo que acredito, e digo
Dos sentimentos que manifesto;
Amor, paz, justiça, esperança e alegria.

Quanto à verdadeira confraternização,
Oferenda de bondade guardada no abraço,
Seja o Natal só um pedaço
Daquilo que representa a grandeza da saudação
E possa, Ele, ser presenciado o ano inteiro
Através da energia de quem deseja o bem
A quem detém, no saber, o sinal do amém!

N.074.No cair da noite - Douglas Farias


No cair da noite que você me deixou só
Tentei te alcançar, mas não consegui
Minha mão estendi junto ao encontro seu
A escuridão escondeu os rastros para poder te seguir

No cair da noite, foi quando fiquei só
No cair da noite, que ela levou você
No cair da noite, que tentei seguir sua voz
No cair da noite, não consegui mais te ver

No cair da noite, não ouço mais sua voz
Tento ainda encontrar você
A escuridão e o frio me fazem desistir
Mesmo assim eu não vou te perder

No cair da noite, encontrei sua luz
No cair da noite, continue a brilhar
No cair da noite, ilumine meu caminho
No cair da noite, que eu vou te encontrar

Fique só e o silêncio te perturbará
Até um pequeno vaga-lume poderá se perder
As intensas trevas calarão sua voz
Faça sua luz brilhar e siga o que se possa ver

No cair da noite, acenda sua luz
No cair da noite, ilumine meu caminho
No cair da noite, aqueça meu coração
No cair da noite, nunca mais me deixe sozinho

L.062. Limites - Rupi Kaur


“Que fazemos agora meu amor
que tudo acabou e estou parada
a meio caminho entre ti e mim
para que lado devo me virar
quando cada nervo do meu corpo vibra por ti
quando me vem água à boca só de pensar
quando só de te ver me puxas para ti
como é que dou meia volta e escolho a mim.”

Num relacionamento, a vida do outro se entrelaça tão intensamente à nossa que é difícil reconstruir os limites quando tudo termina.
A lembrança do outro nos desestabiliza, e é preciso ter muita força de vontade e amor-próprio para nos estabelecermos como nossa própria pessoa de novo.

L.061.Leda e o cisne - Walmir Becker


Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés; a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
Capturada assim,

E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

L.060.Laços de flor - Larissa Tassi


Como as cores num retrato o tempo insiste em desbotar
As lembranças que eu guardei estão todas a murchar
Ao fechar os olhos me transporto a um dia mais feliz
Em meus sonhos modificar um destino tão sombrio

O calor do dia envolve nossas mãos
Um fantasma do tempo, sentimento que não chega ao fim
Misturando amor e dor, seu sorriso sempre viverá
Dentro de mim

Quando a noite cai, a saudade traz
A lembrança do seu rosto
E uma lágrima se torna um santuário
Uma flor que cai no silêncio e faz
A lembrança dessa história ecoar
Trilhar a estrada das pétalas
Em nossos laços de flor

Essa nossa melodia, o tempo insiste em desgastar
Harmonia a ressoar por um mar de solidão
Duas almas se entrelaçam no infinito a dançar
Mesmo um rio de lagrimas tem a imagem do luar

Nossos sonhos ja não podem perecer
Preservados pra sempre, eternamente no meu coração
Quando a flor desbrochar
A promessa vai se transformar em oração

Não pensar no fim é o que faz de mim
Uma chama contra o vento
Resistindo a dor em meio a tempestade
Sem me entregar tento disfarçar
Minhas lagrimas enquanto a chuva cai
O vento segue a sussurrar
A nossa velha canção

É o que nos faz acreditar
Que mesmo a morte não vai nos separar

L.059.Lambranças - Douglas Farias


Novamente vou até em cima do guarda-roupas e pego aquela caixinha
Volto a lembrar de bons momentos que tive bem ao seu lado
Fotos, presentes, tudo que me lembra o que tive em minha vida
Vida que tive você, que dava prazer em viver, gosto de estar vivendo

Hoje o passado é uma lembrança e o futuro é uma incerteza
Não a tenho, não posso tê-la, mesmo que esperança venha a ter
O que sobrou de você foram apenas essas doces lembranças
E as guardarei sempre comigo até um dia eu poder ir ao seu encontro

L.058.Linda manhã - Douglas Farias


Vejo o sol no surgir de trás da montanha
Faz clarear o dia com todo seu amanhecer
Da serena noite as úmidas flores desabrocham
As borboletas voam coloridas ao céu
À imensidão do jardim correm os raios do sol

Fecho meus olhos e começo a sentir seu calor
Alimenta toda vida dentro de mim
Os sons da natureza convertem em uma linda canção
Exalam perfumes suaves das lindas rosas
O mel que adoça meu paladar traz a lembrança de ti

Assim como todas as manhãs, seu sorriso irradia
Contemplo as manhãs, pois elas me lembram você
Mesmo os dias mais chuvosos, não me fazem te esquecer
Neles vejo as lágrimas que rolavam em seu rosto
Faziam-se motivos para minha dor, mas você me fazia sorrir

Não deixo um amanhecer sozinho despertar as manhãs
Prometi ser sua companhia seja aonde for
Disposto a esperar quem a noite um dia me levou
Sei que essa manhã logo chegará
Mas até lá todas as manhãs irei desfrutar

L.057.Luz que me acalma - Nereida


Seus olhos refletem
O que vai na alma
Uma luz que me acalma
Na paz que me remetem

São espelhos,reflexos
De estrelhinhas brilhantes
Na alegria de alguns instantes
No momento de nosso amplexo

Olhos que tudo dizem
Bem me quer, não te quero
Maltrata mas é sincero
Mas no erro se contradizem.

L.056.Lua e sol - Sandra Fonseca


Bastaria
Eu vestida de lua
E o teu ideal de ser sol
Sobre esses dias de frio
O tempo alucinado
Como animal sem doma
Sobre a delicadeza
Desse sonho
Sonhos
Enovelando o destino
Desatinos entre
Dois mundos
Bastaria
A breve pausa
Entre duas cenas
Tão reais

Meus olhos
Cerram-se nos teus
Num brevíssimo
Bater de asas
Nesta noite
Que passa como
Uma névoa.

L.055.Linda Mulher - Glória Cunha


Mulher encantadora
de pele acetinada
me perco no labirinto
de suas curvas delineadas

Pintura de arcamjos
olhar de quimera
caminha faceira
parce gazela

Na alma tem a forçpa
de sentimantos sutis
Doces são seus sucos
que entorna nos seus ardis.

L.054.Linda paisagem - Douglas Faria


Linda, hoje preparei um lugar para a gente poder ir
Sei que ainda é noite, mas logo chegará o amanhecer
Quero lhe mostrar como a natureza pode ser mais perfeita
Pois revelará a mais linda paisagem que se poderia ter

Na viagem você sorria, uma canção se ouvia
Ainda no céu, cada estrela o mesmo brilho tinha
A noite, tão fria, dava lugar à aurora do dia
E a lua, perto do amanhecer, aos poucos se esvaia

No lugar, em que lhe falei, és na beira da praia
Onde as ondas, ao andar, possam molhar nossos pés
O sol, irá se levantar e revelará, não a linda manhã
Mas o mais lindo olhar da mais linda mulher que és

L.053.Linda - Emerson Pinheiro


Eu prometi, ser só teu e de mais ninguém 
Fazer você a dona do meu coração 
Eu me guardei esperando te encontrar 
No momento exato em que eu te vi, já sabia que seria teu 
Não foi miragem era você eu vi... Assim tão linda

Linda, linda. Me encantei com seus cabelos soltos pelo ar 
Linda, linda. Impossível ter você somente no olhar.

Eu prometi, te guardar de todo o mal 
Dar meu carinho e tudo o que você quiser 
Vai ser assim, tudo tão real pra nós 
E o Deus do Céu vai proteger 
Nosso grande amor eu e você 
A vida inteira será você pra mim 
Bem mais que linda...

domingo, 31 de julho de 2022

L.048.Língua Viva - Eliane F.C.Lima


Velho professor de língua portuguesa, usava as palavras com significados de dicionário e, por isso, às vezes tinha problemas. A língua é um produto social vivo e os termos vão adquirindo novas conotações populares.
Era daqueles que usava a palavra “ignorante” para adjetivar, corretamente, alguém que não sabia de alguma coisa. Muitos se ofenderam, dizendo que não eram grosseiros coisa nenhuma!
Uma vez, como um aluno conversasse muito, chamou a coordenadora e disse que havia um sujeito atrapalhando a aula. No dia seguinte, a mãe do adolescente, que estudava e trabalhava também, apareceu na escola com sua carteira de trabalho, para provar que o filho não era vagabundo. Muito surpreso, o professor negou que houvesse dito aquilo. Até chegar à expressão mal entendida. Dicionário na mão, custou a convencer a tal senhora.
Mas duas vezes, a situação ficou bem difícil. Uma vez, se referindo às categorias gramaticais, chegou às interjeições. Para exemplificar, disse a um menininho: “Oxalá você seja um homem de bem!”. Comprou uma briga com a família do garoto. Mãe e pai foram à escola resolvidos a ir ao Ministério da Educação denunciar o abuso dele. Que direito ele tinha de ensinar ao filho religião diferente daquela que ele aprendera desde o berço?
Mas a pior de todas foi aquela em que se meteu, já quase perto de se aposentar. Comentando que, não só no Brasil há casos de corrupção, contou aos garotos que, em um outro país, o dono de uma empresa tinha enriquecido desonestamente. Ele sempre ganhava em seus negócios com o governo, porque procurava um determinado ministro, diretamente, e “transava com ele”, enunciou com palavras muito bem escandidas. O que o pobre homem não imaginava era que os jovenzinhos atualizaram a expressão.
Muito admirados, chegaram a casa e contaram aquela história tão escabrosa para eles como para o professor, mas por motivos bem diferentes.
Numa reunião em que estava até a direção, alguns pais “queriam a cabeça” do professor por conduta inadequada. Os mais exaltados, porém, de acordo com a onda do momento, ameaçavam ir à delegacia denunciá-lo por aliciamento de menores.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

L.047.Lição - Eliane F.C.Lima


Lição
Eliane F.C.Lima
O que mais amava na vida: suas plantas. Tinha algumas numa varanda minúscula do apartamento em Copacabana. Uma jibóia subia pela grade da janela. Parecia parada, mas subia. A cada dia estava mais no alto. Nada a impedia. Obstáculo na frente, dava a volta. Era a mudez das plantas, sua aparente estática, sua falta de emoção o que a encantava. Ficava horas tentando aprender sua filosofia. Ela, que era toda paixão. Não conversava com as plantas, como outras pessoas. Não queria incomodá-las. Elas não eram de conversa. Eram um pouco como os gatos. Não, tinham o temperamento dos gatos elevado ao máximo. Um dia, foi passear com amigos numa praia. E viu umas pedras pequenas, cabiam nas mãos. Brancas, roliças. Encantou-se com elas. Levou várias para casa. Na varanda, agora, olhava as pedras. Aquilo é que era silêncio. Aquilo é que era falta de emoção. Não interagiam com ninguém, nem com o sol, nem com o vento. Não se molham pedras. Não se podam pedras. E elas nada devolviam, nem em cor, nem em flores. Não precisavam de nada. Pedras são o âmago dos seres. Batidos no liquidificador e passados na peneira, joga-se o suco fora. Só o que presta é o bagaço.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

L.046.Lar, doce lar - Eliane F.C. Lima


Tinha um quadro na parede há muitos anos. Já estava cheio dele. Resolveu guardar e comprar um outro novo. Passado um ano, precisando de espaço no armário, pegou o quadro e pagou um sujeito para levar, junto com outras tralhas velhas. Quando saiu de casa, no dia seguinte, lá estava o quadro, postado ao pé de um poste, no meio da calçada. Sentiu-se meio envergonhado de vê-lo ali, sujando a rua, como se fosse ele que tivesse colocado. Pegou o quadro e levou-o de volta. Para o armário. Um dia, jogava de novo fora. Passados dois anos, nova arrumação. O quadro vai parar no lixo de novo. A síndica reclama do objeto, do lado de fora, junto ao lixo reciclável. Sem graça, o dono leva o quadro para dentro. Mais três anos. Armário aberto, o morador pega o quadro. Caminha com ele nas mãos até a sala em direção à porta de saída. Olha para o que está atrás do sofá. Não aguenta mais olhar para ele. Retira com cuidado. Observa o mais antigo. Realmente, ele é bem mais bonito. E querido. Vitorioso, o quadro anterior volta para seu antigo posto.
Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com

L.045.Líriosdelirios - Danilo


Pois assim era mais complicado fazer as coisas que devia fazer. sei lá, noi no ceilão sósonhávamos com todas aquelas coisas que pensávamos que era o melhor the best do the best eu ouvia na tv e você me enchia o saqco do the best do the best besta abestalhado eu buscava fazer o meu melhor como se fosse o atleta numero um do ranquin mundial e você nem aí você saía de madrugadas avarandando noites estreladas e de luas cheias de doer nas vistas e sumia sumia sumia e eu a miar sozinho no vão dos telhados buscando conforto em camas alheias e chorando suas ausências como pitangas recémcolhidas eu: encolhido enroscado embolado cuca bolada deu pra sacar baby? você chegava de manhã romã avermelhadas faces olhos estridentes dentes estrilando descarrilando verbos e versos sobre minha cabeça zonza pernas bambas de noites mal dormidas em camas de outras e sói pensando na minha baby trespassando corações e enbrutecendo tesões pela naitte...ai, nem quero pensar já me doem as cabeças caracas por ondea você andou meu bem?meu bem bambam bombonando por aí e aí?como fico eu nesta parada? ah- o amor- esta coisa mal passada pesada este sangue pisado e este nariz sangrando e este tesão sem rumo...qualquer dia sei não pego você e levo,por aí, para dançarmos danças rituais nas clareiras das florestas daquelas de contos de fada é foda tô delirando, mas,...

L.044.Languidez - Florbela Espanca


Tardes da minha terra, doce encanto,Tardes duma pureza de açucenas,Tardes de sonho, as tardes de novenas,Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,
Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…Horas benditas, leves como penas,Horas de fumo e cinza, horas serenas,Minhas horas de dor em que eu sou santo!
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,Que poisam sobre duas violetas,Asas leves cansadas de voar…
E a minha boca tem uns beijos mudos…E as minhas mãos, uns pálidos veludos,Traçam gestos de sonho pelo ar…

L.043.Ludo - Pastorelli


LUDO
Pastorelli
Decidirá logo de manhã enquanto tomava o café.

Não deixaria mais os fantasmas se alimentarem das lembranças coladas nos objetos que ao longo dos anos foram se amontoando.

Assim, com determinação estava a remexer nos esquecidos empoeirados cheirando a mofo. Mexendo aqui, retirando um objeto dali, foi sendo invadida por uma onda de sensação envolvendo sua alma que, extática, deixou-se levar.

Era mais ou menos como uma ferida aberta que a saudade abria levando-a pela surpresa, as forças tomaram outro alento, e como renovada, foi empilhando o que deveria ser jogado fora.

De repente escutou um som. Pareciam dados caindo em cima de madeira. O que seria? Procurou. Era um som imperceptível. Mas agora, estava mais nítido, mais alto, mais próximo. Sorriu. Que bobagem pensar nessas coisas! Sua imaginação cheia de filmes... que bobagem. Fez um gesto como se dissesse: Isso é idiotice.

Continuou com o serviço. Nisso seus olhos pousou no tabuleiro encostado a parede. Era dali que vinha o barulho de dados. Sim! Era dali. Dava para ouvir com nitidez os dados correndo pelo tabuleiro. Pegou o tabuleiro e colocou em cima de um caixote que estava perto. Não tinha mais dúvidas. O som que ouvia era dali. Olhou para os lados. Onde estavam as pedras. Revirou as coisas. Ah! Aqui estão.

Ajoelhou-se em frente ao caixote. Foi colocando as pedras, uma por uma em suas respectivas casas. As amarelas, as vermelhas, as pretas e as azuis, cada cor com quatro pedras. Quando colocou a última pedra no tabuleiro com desenhos gastos, deixando aparecer o rústico da madeira, ouviu alguém chegando. Foi ver quem era.

- Ah! O que houve tio? O senhor não era para...

- Sim... era... mas...

- O que aconteceu, tio?

- O seu filho...

- O que tem ele?

- Está na Santa Casa.

- Na Santa Casa? Aí minha Nossa Senhora...

- Calma, não aconteceu nada.

- Como não aconteceu nada se ele está na Santa Casa?

- Ele quebrou só a perna. Já estão trazendo ele para cá. Arruma a cama que ele vai ficar um bom par de tempos deitado sem se mexer.

Dito e feito. Quando ela aflita chegou no corredor, vinham trazendo o filho todo refestelado como se nada tivesse acontecido, numa cama de hospital. Junto estavam os primos, os irmãos, o pai, os enfermeiros, todos falando ao mesmo tempo para uma mãe assustada. Ao ver todo aquele alvoroço começou a chorar.

- Que é isso, mulher? Larga de ser boba, não vê que nosso filho está bem; disse o pai abraçando a esposa.

Arrumaram a cama onde ele ia ficar os três meses deitados. Pouco tempo depois à engrenagem rodava de novo nos eixos.
Passados dois dias, o cunhado chega entrando no quarto.

- Olha o que eu fiz, diz.

E coloca o tabuleiro no colo do sobrinho. E daquele dia em diante a casa não teve mais sossego. Tinha sempre alguém jogando Bodum com ele. Durante os três meses, só se ouvia risadas, torcidas, palavrões, gritos e o barulho dos dados rolando no tabuleiro de madeira.

- De quem é a vez?

- É a sua.

- Não, é a minha.

- Não rouba seu ladrão!

- Não deixem a vermelha entrar.

- Aí, viva! Pensa que vai ganhar?

E assim era, quando não eram os irmãos, eram os primos, os tios, as tias, sempre que chegavam corriam lá para o quarto do enfermo.

- E aí, vamos jogar?

Às vezes as jogadas demoravam em acabar, chegando a avançar a noite adentro. Assim foram os três meses. O tabuleiro ficou gasto. Os quadriculados sumiram. De tanto baterem o copinho em cima e arrastarem as redondas pedras de madeira as cores sumiram.

Aqui é a vermelha. Ali as pretas. Amarela no outro canto ao lado da azul. Já sabia de cor a colocação das pedras. Passou os dedos contornando cada linha, cada casa, cada quadrado, ouvindo as vozes, as risadas...

Uma lágrima deslizou caindo bem no meio do tabuleiro.

Ela se levantou. Da porta olhou para o interior, depois para o tabuleiro e viu todos eles, um por um, ali em volta jogando Bodum.

- Não vou... talvez outro dia eu continuo com a limpeza.

Saiu fechando a porta e passando a mão nos olhos.

As vozes, o barulho dos dados, as risadas, os gritos de ganhei, ainda continuaram por um longo tempo.